Por José João Mendes, presidente da Direcção da Egas Moniz School of Health & Science
Durante muito tempo, o bem-estar das pessoas nas organizações foi tratado como um tema acessório, um gesto simpático que se acrescentava quando sobravam tempo e recursos. Hoje, a evidência aponta noutra direcção. Em qualquer sector, da indústria aos serviços, das autarquias às escolas, das empresas tecnológicas aos hospitais, o bem-estar de quem trabalha deixou de ser um luxo para se tornar um factor de competitividade, de retenção de talento e de sustentabilidade. Num país onde cada vez é mais difícil atrair e reter profissionais qualificados, pode mesmo ser uma condição de sobrevivência.
Segundo a Gallup, no seu relatório anual State of the Global Workplace, apenas cerca de um quinto dos trabalhadores a nível mundial está verdadeiramente envolvido com o seu trabalho, com o nível de envolvimento a descer para 20% em 2025, o valor mais baixo desde a pandemia. Esta desmotivação tem um preço considerável: a Gallup estima que a baixa motivação custe à economia mundial o equivalente a cerca de 9% do PIB global, ou seja, vários milhões de dólares por ano em produtividade perdida.
A isto soma-se a saúde mental. A Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho estimam que se percam, todos os anos, 12 mil milhões de dias de trabalho devido à depressão e ansiedade, com um custo aproximado de mil milhões de dólares anuais em produtividade. Do ponto de vista europeu, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico calcula que a doença mental represente mais de 4% do PIB, o equivalente a mais de 600 mil milhões de euros. Cerca de um terço desse valor a resultar directamente de menor emprego e menor produtividade, com este a ser um dos maiores desafios económicos do nosso tempo.
Em 2023, Portugal passou a dispor de um instrumento pioneiro à escala internacional, mas que, por algum motivo, continua a ser desconhecido por muitos. A Norma Portuguesa (NP) 4590 – Sistema de Gestão do Bem-Estar e da Felicidade Organizacional, estabelece requisitos e linhas de orientação para o planeamento, implementação e medição do bem-estar dos colaboradores de qualquer organização. Publicada pelo Instituto Português da Qualidade (IPQ), foi desenvolvida por uma comissão técnica coordenada pela Associação Portuguesa de Ética Empresarial (APEE).
O seu campo de aplicação é, por isso, vastíssimo e não se limita ao sector da saúde. Pode, por exemplo, ser adoptado por uma autarquia que pretende cuidar dos seus trabalhadores e prestar um serviço melhor aos cidadãos; por uma empresa que procura reter mão-de-obra qualificada num mercado cada vez mais competitivo; por uma escola que reconhece que professores esgotados têm maior dificuldade em ensinar; ou até por uma start-up tecnológica que compete pelo talento à escala global. E se olharmos para o campo hospitalar, onde o desgaste das equipas se traduz directamente na segurança dos doentes, pode ser um elemento-chave para transformar a intenção de cuidar das pessoas num sistema sério, medido e credível. É exactamente isso que a norma oferece.
Mas é exactamente neste ponto que continuam a surgir desafios, pois ter uma norma com potencial não significa necessariamente saber aplicá-la. É significativo que a própria Organização Mundial da Saúde recomende, pela primeira vez, a formação específica de líderes para prevenir contextos propícios de stress no trabalho, e que apenas cerca de um terço dos países disponha de programas nacionais nesta área. Implementar um sistema de gestão do bem-estar organizacional exige competências que hoje quase não existem de forma estruturada no mercado de trabalho, tais como liderança, diagnóstico organizacional, gestão de mudança, capacidade de auditoria e articulação entre saúde ocupacional, recursos humanos, qualidade e estratégia.
Sem profissionais preparados para o fazer, arriscamos que esta norma não passe de boas intenções, de mais um certificado na parede, sem qualquer transformação real na vida das pessoas e das equipas. No meu entender, seria desperdiçar uma das melhores oportunidades que o país tem para se diferenciar neste que é um campo imprescindível para a produtividade.
Cabe, por isso, às organizações investir na formação e qualificação de profissionais capazes de implementar esta norma. Mas cabe também às instituições de ensino superior disponibilizar uma oferta formativa que responda a esta necessidade e prepare gestores e líderes capazes de promover o bem-estar e a felicidade organizacional de forma estruturada e baseada na evidência.
A competitividade e a sustentabilidade das nossas organizações, sejam públicas ou privadas, não se conquista apenas com mais investimento ou mais tecnologia. Conquistam-se também garantindo que as pessoas que as sustentam têm condições para ficar, crescer e dar o seu melhor. Os números são irrefutáveis e o custo da inacção tem um impacto significativo na resiliência de uma organização. Para construir um país mais saudável, mais humano e mais competitivo, torna-se claro que o bem-estar deve ser encarado como uma vantagem competitiva e um investimento estratégico. Porque o verdadeiro custo está em continuar a ignorá-lo.














