Durante décadas, o sucesso profissional foi apresentado como uma escalada. Escolha uma área, geralmente uma organização específica, suba degrau a degrau e não olhe para trás. A “escada de carreira” tem sido a metáfora dominante para o sucesso corporativo — uma representação visual da ambição, estabilidade e realização.
Mas as carreiras de hoje nem sempre se parecem com escadas. Parecem mais com mantas de retalhos, avança a Fortune.
Uma manta de retalhos na carreira é construída a partir de diferentes experiências “costuradas” ao longo do tempo. Alguns quadrados são intencionais — escolhas que decide fazer para remodelar a sua carreira -, outros vêm de desvios, mudanças de rumo ou oportunidades que não planeou — desde um despedimento a mudanças inesperadas na vida. O que importa não é se o caminho é linear, mas sim se as peças encaixam de uma forma que mostre quem é, o que quer e onde gera valor.
Esta mudança de mentalidade não é apenas uma questão de palavras. Ela reflecte como o crescimento realmente acontece hoje.
A escada parte do pressuposto de que o progresso só acontece num sentido. A manta reconhece que o crescimento pode advir de movimentos laterais, da mudança de sector ou da assunção de funções que não parecem ser o próximo passo óbvio.
Mudar de carreira não é recomeçar do zero, e experimentar algo novo não significa automaticamente um retrocesso. Estas mudanças muitas vezes expandem a perspectiva e o discernimento de formas que uma ascensão linear não consegue. Os profissionais que navegaram por diferentes ambientes tendem a ver os problemas com mais clareza, a comunicar entre funções de forma mais eficaz e a trazer um contexto que outros não têm.
Num mundo onde os locais de trabalho e as funções estão em constante evolução, a adaptabilidade e a amplitude de actuação não são um risco. São uma vantagem competitiva.
Para muitos, a ideia de subir pacientemente uma única escada simplesmente não reflecte a realidade. Já estão a construir as suas próprias trajectórias — e os líderes podem reconhecer ou ignorar isso, por sua conta e risco.
Para os líderes, isto manifesta-se em ambos os lados da equação do talento. Ao contratar, pode deparar-se com currículos que não lhe parecem familiares. Isto não indica falta de ambição ou empenho. Muitas vezes, significa que as competências foram desenvolvidas numa sequência diferente. E quando se trata de retenção e crescimento na carreira, a hesitação em sair já não é a mesma. As pessoas estão dispostas a experimentar coisas novas e até a mudar de cidade. Os líderes que reconhecem, apoiam e falam abertamente sobre carreiras multifacetadas não só atraem talentos excepcionais, como também os retêm.
Um dos desafios de uma carreira multifacetada é explicá-la. Tal como as pessoas esperam que as carreiras sigam uma trajectória ascendente linear, também esperam um discurso de elevador rápido e conciso. As pessoas com trajectórias não lineares preocupam-se frequentemente com a forma como a sua experiência e qualificações serão percepcionadas pelos gestores de contratação, investidores ou líderes seniores. É aqui que o enquadramento intencional faz a diferença.
Em vez de descrever as funções por ordem cronológica, os profissionais que contam histórias de carreira de sucesso ligam os pontos. Enfatizam as competências que desenvolveram e o valor que essas competências criam hoje. A verdadeira questão é se o caminho faz sentido e qual o valor único que cria.
Quatro filtros que orientam a construção inteligente da carreira
Ao decidir qual o quadrado a adicionar a seguir, os profissionais mais bem-sucedidos fazem uma pausa antes de “coser” uma nova experiência. Consideram quatro questões, inspiradas no conceito japonês de Ikigai:
O que me interessa realmente?
O crescimento real exige curiosidade. Se a motivação for o tédio, a obrigação ou o esgotamento, o quadrado não durará.
Em que sou bom ou em que sou capaz de me tornar bom?
Desafiar-se é saudável. A sensação de estar sempre a lutar contra a maré, sem progresso, não é gratificante. O crescimento acontece quando o esforço se transforma em impulso.
Do que é que as pessoas realmente precisam?
As carreiras mais sólidas são construídas em torno da resolução de problemas reais. Concentre-se em trabalhos de que as pessoas realmente precisam, e não no que está em alta este ano.
Pelo que é que as pessoas estão dispostas a pagar?
Esta é a questão fundamental. O valor não é apenas pessoal, é baseado no mercado. Se as pessoas estiverem dispostas a pagar por algo, é mais provável que isso se concretize. Isto significa falar com as pessoas que realmente decidem como o dinheiro será gasto.
Para além das questões que se coloca, há mais uma a considerar: como é que esta mudança será compreendida pelas pessoas que lhe podem oferecer oportunidades? Para conseguir oportunidades, é necessário encontrar pessoas dispostas a dizer sim. Explique a sua trajectória de uma forma que inspire confiança e demonstre intenção.














