Manuel Avalos, Cognizant: «Lisboa é um centro de inovação global que irá escrever a história do mundo no futuro próximo»

Um estudo realizado pela empresa norte americana Cognizant, colocou Lisboa, entre mais de 150 cidades de todo mundo, como um dos “21 Lugares do Futuro”. Para perceber de acordo com que critérios a capital portuguesa foi reconhecida, falámos com Manuel Avalos, director-geral da Cognizant para o Sul da Europa. 

Por Sandra M. Pinto

 

Lisboa foi considerada um foco de inovação à escala global surgindo posicionada a par de cidades como Tel Aviv, São Paulo, Wellington, Dundee, Toronto, entre outras. A cidade é agora apetecível não apenas para os turistas, mas também para os jovens talentos europeus que a elegem para viver e trabalhar.

 

Lisboa foi escolhida como um dos “21 Lugares do Futuro” no estudo “21 Places of the Future – Where is the Future of Work?”. Foi este um resultado de alguma forma surpreendente?
Este é um resultado que apenas reconhece e confirma o percurso fantástico que Lisboa tem vindo a fazer nestes últimos anos, após a crise financeira mundial que eclodiu em 2008 e que tão duramente atingiu o país. Por isso, não é surpreendente. Nos últimos 10 anos, Lisboa conseguiu algo muito difícil de ser alcançado: ser desejada e admirada em todo o mundo. Lisboa reinventou-se e transformou-se num hub de empreendedorismo único.

O futuro do trabalho está nos lugares onde se investiu num amplo conjunto de variáveis como a inovação, a formação, a aposta no talento e, mais concretamente, está em Lisboa, que soube fomentar a dinâmica do estudo de tecnologias que impulsionam o futuro, como inteligência artificial, algoritmos, automação, etc., junto dos seus jovens. As Tecnologias de Informação (TI) são a chave para o desenvolvimento dos países, dos governos, das empresas e da sociedade em geral. Investir nesta direcção significa marcar um roteiro diferente. Actualmente é preciso detectar e atrair pessoas altamente qualificadas com competências nas tecnologias que vão mudar o mundo. Ao promover estas carreiras e ao oferecer um ambiente privilegiado para viver, Lisboa tem as condições ideias para se converter numa referência à escala global.

Hoje, Portugal tem um ecossistema de startups que está a crescer duas vezes mais rapidamente do que a média europeia, de acordo com Startup Europe Partnership, e Lisboa é um dos maiores centros de startups da Europa. A capital portuguesa já reúne mais de 30 incubadoras e aceleradoras e alberga já quase 50 espaços de co-working, de acordo com o Invest Lisboa. E soma vários casos de sucesso, como por exemplo a Virtuleap – uma plataforma virtual para exercitar o cérebro, e a Codacy, uma ferramenta que permite a revisão automática dos códigos.

 

De acordo com que critérios foi a cidade escolhida?
A Cognizant desenvolveu uma metodologia única para identificar os principais 21 lugares em todo o mundo onde a inovação está a florescer. Por mais diversos que sejam, a única coisa que os 21 têm em comum é o desejo de criar ou recriar, o futuro para oferecerem às pessoas os empregos do amanhã. Lisboa foi identificada como um foco de inovação global e de novas ideias, que certamente irão criar e impulsionar o futuro do trabalho.

Utilizando a metáfora de um átomo, a Cognizant procedeu à análise dos “núcleos” e dos “electrões” de cada lugar, criando um “átomo de sucesso” para cada uma das cidades/lugares que surgem no estudo. O núcleo inclui três elementos bem definidos e que são considerados essenciais para aferir o sucesso de cada uma das cidades: governo local, qualidade das escolas e universidades e acesso ao capital privado. Os electrões, que complementam a avaliação, são constituídos por oito componentes: infraestrutura física, ambiente (sustentabilidade), estilo de vida (diversidade e inclusão), cultura e entretenimento, “tijolos” (arquitetura), “clicks” (infraestrutura digital), grupos de talento e acessibilidade. A esta informação foram adicionados dados provenientes de fontes como o World Economic Forum, o Projeto De Justiça Global e o ESI ThoughtLab.

 

Com a pandemia o teletrabalho passou a estar na ordem do dia. Pode ele facilitar a vinda de mais e melhor talento para o nosso país?
Sem dúvida. Hoje em dia não é necessário trabalhar no mesmo local onde as empresas estão fisicamente sediadas. A pandemia da COVID-19 enfatizou as potencialidades do trabalho remoto e demonstrou que este modelo não põe em risco nem a rentabilidade, nem a operabilidade. Lisboa oferece um excelente nível e qualidade de vida que resulta de vários anos de trabalho do governo, das empresas e dos cidadãos, no sentido de melhorarem a cidade nos seus vários aspetos sociais e económicos. É um lugar fantástico para o qual as pessoas irão gravitar no futuro, e isto não é acidental.

Só no ano passado, a Cognizant Portugal contratou mais de quinhentas pessoas em Lisboa. A nossa operação em Portugal é principalmente um hub de serviços nearshore para grandes empresas do sector tecnológico quer a nível nacional, quer na Europa Continental. A nossa equipa é multidisciplinar e multicultural, composta por pessoas de mais de 50 nacionalidades diferentes, que respondem às necessidades dos nossos clientes em 15 idiomas diferentes. Com uma aposta muito importante na diversidade e na inclusão, 46% da nossa força de trabalho em Portugal é composta por mulheres, o que é um marco muito importante para uma empresa focada nos serviços de TI e do qual nos orgulhamos muito.
Lisboa é uma cidade onde há um pool muito importante de conhecimento, um factor chave para a nova era digital. Há que aprender com o que um lugar único como Lisboa nos pode ensinar, e que vai para lá dos exemplos óbvios de cidades como Londres, Nova Iorque ou Sydney. Lisboa é um centro de inovação global que irá escrever a história do mundo no futuro próximo.

 

De que forma os lugares do futuro estimulam o trabalho do futuro?
Depois da pandemia, a Cognizant percebeu que as pessoas estão a tentar reconstruir-se. O nosso estudo visa identificar onde está a ser escrita a história do futuro agora. Todas os lugares do futuro estão relacionados com uma tecnologia ou um conceito chave, porque o objectivo do estudo da Cognizant é identificar exactamente onde é que estas tendências ocorrem, onde estão as bolsas de inovação e novas ideias, quais são os locais mais acessíveis e agradáveis para trabalhar e viver, e para os quais irão gravitar as pessoas no futuro. As cidades e os lugares seleccionados por este estudo, apesar de serem muito distintos entre si, têm em comum o desejo de criar um futuro que ofereça às pessoas os empregos do amanhã.

No estudo que desenvolvemos, a capital portuguesa é identificada como um “Center for the Future of Work”, porque nela se identificou o tipo de conhecimento que define a nova transformação digital e que é um elemento crucial dos lugares que são parte fundamental da chamada “Quarta Revolução Industrial”. Lisboa possui o desejo de criar um ambiente que ofereça os empregos do futuro. À medida que o mundo tenta superar a crise sanitária provocada pela pandemia, os lugares que são um foco de inovação e de novas ideias, que são acessíveis e agradáveis não só para trabalhar, mas também, e sobretudo, para se viver, serão os escolhidos pelas pessoas no futuro próximo.

 

O que faz de Lisboa um lugar do futuro?
Lisboa foi considerada, pelo estudo da Cognizant como um foco de inovação à escala global e surge posicionada a par de cidades como Tel Aviv, São Paulo, Wellington, Dundee, Toronto, Atlanta, Sacramento, Portland, Kochi, Songdo, Tallinn, Shenzhen, Haidian, Qu-Pequim, Nairobi, Lagos, e Da Nang.
A capital portuguesa, que é uma das únicas três cidades europeias que integra esta lista, foi reconhecida como uma cidade sofisticada, com uma governação local estável, universidades de primeira linha, excelentes infraestruturas; e também uma cidade verde, segura, onde é fácil trabalhar, aceder a capital privado e onde existe uma vasta oferta cultural, um bom nível de vida e um grande pool de talentos.
Lisboa obteve excelentes pontuações em todos os parâmetros e destacou-se na avaliação por 10 razões principais:

1. possuir um governo local estável;
2. pela qualidade das suas universidades;
3. pelo acesso ao capital privado;
4. pelas suas excelentes infraestruturas;
5. por ser uma cidade sustentável/ “verde”;
6. por ser um lugar onde é fácil trabalhar;
7. pela vasta oferta cultural e de entretenimento que disponibiliza;
8. pela segurança;
9. por oferecer um bom nível/custo de vida;
10. e por ser um grande pool de talentos.

 

E está Lisboa pronta para receber os jovens talentos europeus que queiram vir para cá viver e trabalhar?
Sim, claramente. Na Cognizant detetámos um enorme potencial na cidade de Lisboa a todos os níveis. Somos uma das principais empresas tecnológicas do mundo, cuja principal missão é transformar os modelos de negócio dos clientes para a era digital. Uma empresa em evolução contínua que procura ajudar os seus clientes a conceberem, construírem e gerirem negócios mais inovadores e eficientes. Neste âmbito, a Cognizant decidiu realizar um estudo profundo e sofisticado com o intuito de identificar quais os lugares do futuro no mundo, aqueles que serão o foco das grandes mudanças sociais e empresariais nos próximos anos, e Lisboa é um destes lugares. Tanto que na Cognizant já estamos a trabalhar para identificarmos mais talentos nesta cidade e para nos tornarmos numa empresa fortemente valorizada pelos seus cidadãos. As inovações que mudaram o mundo sempre surgiram em lugares inesperados e muito especiais, e Lisboa é única.

 

Que estratégia deve ser implementada para colmatar essas possíveis falhas ou pontos fracos?
Este deverá ser um trabalho concertado do Governo do país e com o do governo local da cidade. Deve aumentar o nível de formação nas carreiras tecnológicas, potenciar a incorporação de mais mulheres nas carreiras STEM, impulsionar profissionalmente todos aqueles que são muito bons, inovadores e criativos com competências e nas áreas das tecnologias que vão mudar o mundo. Impulsionar o seu hub de empreendedorismo. Continuar a proporcionar um elevado nível de vida. Atrair centros de inovação tecnológica e promover políticas que a tornem ainda mais apetecível para as empresas tecnológicas líderes mundiais, impulsionando os seus investimentos na cidade.

A tudo isto, devem somar-se ainda a adopção de políticas ambientais reais e impactantes, a promoção das melhores infraestruturas europeias, bem como o reforço da aposta contínua no desenvolvimento cultural e na segurança. Como se pode verificar, a estratégia para reforçar e melhorar o posicionamento de Lisboa, não passa por um único tema. Trata-se da concretização de objectivos que certamente já estão nos planos do país, e que contribuirão para transformar Lisboa numa cidade altamente impactante, que marcará claramente o desenvolvimento da quarta revolução industrial e que fará parte dos lugares que irão transformar a economia mundial.

 

Lisboa foi também reconhecida como a capital do cool na Europa. Quais os perfis que a cidade mais atrai? Continuamos a ter o sector das tecnologias na pole position?
Lisboa é uma cidade definitivamente diferente das outras. A tecnologia é muitíssimo importante e ao longo da entrevista já o referimos. No entanto, Lisboa destaca-se também em muitos outros aspectos. É uma cidade linda, moderna e cosmopolita, um berço histórico da constante confluência e miscigenação de civilizações que por ela passaram e que nela deixaram a sua marca, sendo perceptíveis nas suas múltiplas idiossincrasias. Durante os séculos XV e XVI foi uma potência económica, social e cultural. Hoje é uma cidade com uma elevada taxa de desenvolvimento humano, que oferece um elevado nível de qualidade de vida, que possui um excelente serviço de saúde; uma cidade global e segura. O que faz dela um lugar onde as pessoas querem viver. Acredito firmemente que Lisboa trará grandes e boas surpresas ao mundo inteiro no futuro próximo.

 

Antes da pandemia o sector do imobiliário surgia como um entrave à permanência de jovens na cidade. Acha que essa situação irá manter-se?
Este é um problema que não é exclusivo de Lisboa, mas que afecta todos os grandes centros urbanos na Europa – Londres, Madrid, Paris, etc. A precariedade laboral é o principal obstáculo a ultrapassar. Lisboa, creio, propôs-se activamente a promover políticas para os jovens na perspectiva da formação, do talento, proporcionando a capacitação com as competências tecnológicas fortemente procuradas e que irão contribuir para alargar a oferta dos empregos do futuro, e isso irá transformar esta situação, contribuindo para a resolver.

Por outro lado, a pandemia trouxe também consigo o poder de deslocalizar o ambiente de trabalho do centro das cidades. O teletrabalho, que chegou para ficar, vai seguramente estimular outras políticas imobiliárias. Tudo está a mudar e este sector também será alvo de uma transformação, que de resto já está a acontecer.

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