
Maria João Correia, Segmento Urbano: «Ou formamos, ou não teremos pessoas para construir”
Para combater a escassez de mão-de-obra qualificada na construção, o Build Lab disponibiliza formação prática em contexto de obra. Além da parte técnica, a iniciativa quer derrubar preconceitos, devolver dignidade ao trabalho manual e transformar mestres em formadores, num sector que precisa urgentemente de talento, explica Maria João Correia, arquitecta e fundadora do Segmento Urbano.
Por Tânia Reis
Além das formações abertas do Build Lab – em que os participantes recebem um certificado de participação e podem candidatar-se a bolsas de estágio na Segmento Urbano – a empresa lançou o Build Lab Gateway, um programa de formação técnica e ética em contexto real de obra, desenvolvido para empresas de trabalho temporário e construtoras que desejam qualificar rapidamente as suas equipas operacionais.
O que esteve por trás da criação do Build Lab?
O ponto de partida foi simples: a falta de mão-de-obra competente está a criar problemas reais na construção, todos os dias. Atrasos, erros, trabalhos feitos de novo, equipas instáveis, e nós, no Segmento Urbano, já sentimos isso na pele. A crise de competências deixou de ser um risco abstracto: tornou-se uma ameaça concreta à qualidade das obras e à dignidade do sector.
Portugal deixou de formar pessoas para a construção. Os mestres reformaram-se, as empresas já não ensinam, e tenta-se colmatar a escassez importando trabalhadores sem lhes dar formação técnica real. O resultado é um vazio estrutural.
O BuildLab nasceu para atacar o problema onde ele acontece: dentro da obra. Mas nasceu também para outra missão fundamental, que é desmistificar e revalorizar a construção civil.
Durante décadas carregámos o preconceito do “quem não estuda vai para as obras”, uma frase que afastou talento, desvalorizou a técnica e tornou invisíveis aqueles que sempre sustentaram o sector.
O BuildLab existe para mostrar o contrário. Em primeiro lugar, a obra é um lugar altamente técnico; segundo, a construção é fascinante e inteligente; e, por último, trabalhar na obra é um percurso que pode (e deve) ser respeitado e cheio de futuro.
E nasceu também com um propósito que me é especialmente querido: valorizar os nossos mestres. Aqueles que sabem fazer, que aprenderam com a vida, que guiam equipas inteiras e que, durante anos, trabalharam sem o reconhecimento proporcional à sua sabedoria. O BuildLab recupera esse papel, transforma mestres em formadores, devolve-lhes estatuto, voz e centralidade.
No Segmento Urbano sempre fizemos isto de forma intuitiva: ensinar em obra, acompanhar quem não sabia, criar tempo e espaço para evoluir. O BuildLab é a formalização desse método — e o BuildLab Gateway é a sua expansão para o sector, criando finalmente um caminho estruturado e digno para quem chega à construção.
Como é que este programa se diferencia de outras iniciativas de formação no sector da Arquitectura, Engenharia e Construção (AEC)?
O BuildLab diferencia-se porque preenche um vazio que ninguém tinha coragem de admitir: em Portugal, não existe formação prática em construção civil. O que existe é maioritariamente formação teórica, muitas vezes desactualizada e desligada da realidade das obras: que hoje exigem outra escala, outras tecnologias e outra velocidade. O sector envelheceu, os mestres desapareceram e deixou de existir transmissão natural de conhecimento. Resultado, tenta-se ensinar construção através de manuais, quando a construção sempre se aprendeu com as mãos, com o corpo e dentro da obra. O BuildLab inverte esse paradigma. A formação acontece em contexto real, lado a lado com quem sabe fazer, com exercícios progressivos, acompanhamento e metodologia estruturada.
Não é um curso, é uma vivência. Não prepara para o mercado, é o mercado. E é isso que o torna único. Esta abordagem permite que as equipas adquiram competências reais e aplicáveis desde o primeiro dia, respondendo de forma eficaz às exigências do sector.
De que forma pretende o Build Lab responder à escassez de mão de obra qualificada que afecta actualmente o sector?
O BuildLab responde à escassez de mão-de-obra de duas formas complementares. Por um lado, através das nossas edições regulares e gratuitas – em áreas como cofragem, dobragem de ferro, alvenarias, impermeabilizações ou BIM -, onde procuramos desmistificar o sector da construção e mostrar ao público em geral que este é um campo técnico, interessante e cheio de possibilidades. É uma forma de combater a velha narrativa de que “quem não estuda vai para as obras” e de reposicionar a construção como um espaço de aprendizagem, tecnologia e evolução real.
Por outro lado, o BuildLab Gateway veio criar a resposta prática que o mercado exigia há décadas: a integração imediata de trabalhadores das empresas de trabalho temporário directamente dentro das nossas obras, onde são formados em contexto real, desde o primeiro dia. Em Portugal não faltam pessoas; faltam caminhos. O Gateway cria precisamente esse caminho — rápido, eficaz e alinhado com a procura real das empresas.
É esta combinação, a mudança cultural do BuildLab mais a resposta operacional do Gateway, que permite finalmente começar a resolver, de forma estruturada, a escassez de mão-de-obra qualificada no país.
Que impacto espera alcançar com estas três novas acções práticas em Lisboa e Porto?
O impacto destas acções é muito concreto: queremos aproximar as pessoas da realidade da construção e mostrar que aprender é mais simples e mais acessível do que imaginam. Nas formações de BIM para utilizadores de AutoCAD, o objectivo é desmistificar o tema e demonstrar que a transição para o BIM pode ser rápida, intuitiva e ao alcance de qualquer profissional que já domina ferramentas digitais. Muitos acreditam que o BIM é demasiado complexo — queremos mostrar que isso não é verdade.
Já a formação prática de gesso cartonado, ladrilho e pintura tem outro impacto essencial: provar que, com acompanhamento certo, é possível ensinar competências reais de obra em poucas horas. Isto desmonta a ideia de que “só aprende quem já sabe” e devolve dignidade ao processo de aprendizagem, mostrando que a construção é técnica, mas acessível, e que qualquer pessoa pode evoluir desde que exista método.
Estas acções funcionam como portas de entrada: criam curiosidade, confiança e vontade de aprender e são um passo importante para aproximar mais pessoas de um sector que precisa urgentemente de talento.
Como é que esta iniciativa contribui para a valorização do trabalho em obra e para a melhoria das condições no sector?
O BuildLab está a fazer aquilo que ninguém teve coragem de fazer: devolver dignidade ao trabalho em obra.
Durante décadas, Portugal repetiu a frase “quem não estuda vai para as obras”, um preconceito que afastou talento, desvalorizou profissões e alimentou a escassez que hoje vivemos.
O BuildLab parte para derrubar esse mito, mostrando que: a obra é técnica, rigor e evolução diária; trabalhadores formados tornam obras mais seguras e equipas mais autónomas; quando operacionais passam a formadores, toda a profissão se eleva. A dignidade nasce quando alguém que sempre foi invisível ganha palco, método e estatuto.
É isso que estamos a fazer: criar uma nova cultura de obra, onde aprender é normal e partilhar conhecimento é prestígio. Quando um trolha, um armador ou um carpinteiro de cofragem passa a ensinar outros, eleva-se a si próprio e eleva a profissão inteira.
É isso que o BuildLab está a criar: uma nova cultura de obra, onde aprender é normal, partilhar conhecimento é prestígio e a construção volta a ser um lugar onde vale a pena estar.
Como avalia a adesão e o interesse dos profissionais nas edições anteriores do Build Lab?
A adesão ao BuildLab tem vindo a crescer de forma consistente. As primeiras edições funcionaram como laboratórios pedagógicos, com grupos pequenos que nos permitiram testar formatos, ajustar metodologias e garantir que a experiência prática correspondia às necessidades reais do sector.
O que se destacou foi a diversidade dos participantes: desde profissionais da área a pessoas sem qualquer ligação prévia à construção, todos motivados pela vontade de aprender. As formações práticas, como gesso cartonado, demonstraram que é possível ensinar competências reais em poucas horas; e as formações de BIM mostraram que a tecnologia é muito mais acessível do que muitos imaginavam.
A edição mais recente registou um aumento significativo de inscrições, o que confirma que existe uma procura crescente por formação prática, directa e orientada ao mercado. O BuildLab está a atrair público porque oferece algo raro no sector: aprendizagem real, imediata e sem barreiras.
Que tipo de competências práticas são desenvolvidas nas acções formativas?
As acções do BuildLab focam-se em competências que têm aplicação imediata. Nas formações práticas trabalhamos técnicas como execução de paredes em gesso cartonado, colocação de ladrilho, pintura, cofragem, armação de ferro, alvenarias e impermeabilizações. O objectivo é que, em poucas horas ou dias, os participantes consigam executar tarefas reais com segurança e autonomia crescente.
Em paralelo, desenvolvemos competências digitais e de leitura técnica, como introdução ao BIM para utilizadores de AutoCAD e interpretação de desenhos de obra — duas áreas que estão a tornar-se indispensáveis na construção actual.
Mas há uma dimensão igualmente importante: as competências comportamentais. A obra – e o sector AEC – exige responsabilidade, comunicação clara, respeito pelas equipas, capacidade de pedir ajuda, pontualidade e adaptação ao ritmo do estaleiro. Estas competências são trabalhadas diariamente, sobretudo no BuildLab Gateway, onde os formandos estão integrados em contexto real desde o primeiro dia.
No fundo, formamos pessoas para saber fazer e para saber estar na obra.
Como é garantida a componente ética na formação oferecida pelo Build Lab?
A ética é o centro do BuildLab porque não existe formação verdadeira sem respeito por quem aprende, nem responsabilidade por quem ensina. O nosso compromisso é simples: ninguém é colocado numa obra, nem em frente a um computador, a fazer aquilo que não sabe fazer.
A aprendizagem é sempre progressiva, acompanhada e segura, despertando a curiosidade. Para o efeito criámos um método estruturado, com exercícios reais, critérios claros e acompanhamento contínuo, que garante que cada pessoa evolui ao seu ritmo, sem pressão indevida, sem improvisos e com total dignidade.
Há também um ponto essencial: os mestres são reconhecidos e valorizados como formadores.
A ética passa por aqui. Damos estatuto a quem sabe fazer, damos voz a quem sempre esteve invisível e transformamos conhecimento prático em legado transmissível.
E, de certa forma, o BuildLab é também um gesto de reparação cultural: inverte a forma como muitos dos nossos mestres foram ensinados há 30 ou 40 anos — através da dureza, da humilhação, do “aprende sozinho”, do erro como castigo. Se no passado se aprendia com medo, hoje aprende-se com método.
Se no passado se crescia pelo erro, hoje evolui-se pela orientação. Esta mudança é ética. É humana. E é necessária. E sabemos outra coisa fundamental: quando as pessoas se sentem respeitadas e valorizadas, aprendem muito melhor. Têm mais confiança, mais autonomia, mais orgulho no trabalho que produzem. É esse ambiente, seguro, claro, exigente e humano, que criamos nas nossas obras.
Por isso, a formação no BuildLab é sempre transparente: tarefas adequadas ao nível de cada pessoa; feedback claro; ambiente seguro; respeito entre equipas; e comunicação directa e humana.
Nada no BuildLab é “atirar pessoas para a obra” ou “expulsá-las porque não sabem fazer”, como infelizmente ainda acontece no sector. Isso, para nós, seria antiético. O BuildLab existe precisamente para substituir práticas antigas (desorganizadas, inseguras ou desumanas) por um modelo profissional, estruturado e digno. É ética aplicada à construção civil.
Há alguma novidade ou abordagem inovadora nesta edição que gostaria de destacar?
Sim. A grande inovação desta edição é a criação do BuildLab Gateway, um modelo pioneiro que integra formação prática directamente dentro das nossas obras, em articulação com empresas de trabalho temporário. É a primeira vez que, em Portugal, se estabelece um sistema onde trabalhadores recrutados pelas ETTs são formados em contexto real desde o primeiro dia, com acompanhamento próximo, tarefas progressivas e um método claro de aprendizagem.
O Gateway veio resolver um problema que o sector já tinha identificado há muito tempo: a dificuldade de integrar pessoas sem experiência e a consequente rotatividade elevada. Ao serem formados dentro da obra (conhecendo ferramentas, sistemas construtivos, ritmos de produção, regras de segurança e modos de trabalho colaborativo) os formandos ganham rapidamente autonomia e confiança.
E há um impacto directo no mercado: quando estes profissionais são posteriormente integrados noutras construtoras, entram já preparados, familiarizados com processos e mais seguros na tomada de decisão. Isso reduz drasticamente a rotatividade, porque não chegam a obra como “novos”, mas como pessoas com experiência real e método.
Os primeiros resultados têm sido extraordinários: vimos formandos sem qualquer contacto prévio com a construção executar tarefas reais em poucos dias, evoluir com consistência e criar relações positivas dentro das equipas.
A inovação aqui não é apenas técnica, é também cultural. O Gateway transforma a obra num espaço de aprendizagem, não de exclusão. Formaliza aquilo que sempre defendemos: quem aprende, fica; quem fica, evolui; e quando evolui, o sector inteiro melhora.
Quais os maiores desafios na implementação de programas como o Build Lab?
O maior desafio é a resistência do próprio sector. A construção habituou-se a trabalhar num modelo de urgência constante, onde se produz muito e se ensina pouco. Mudar esta lógica exige uma inversão cultural profunda. Muitos profissionais cresceram num contexto onde “ou já sabes, ou não serves”, e pedir a estas equipas que formem, acompanhem e transmitam conhecimento não é imediato. É uma mudança geracional.
O segundo desafio é cultural e educativo. Portugal tem 12 anos de escolaridade teórica obrigatória, o que reforçou a ideia errada de que aprender um ofício é um destino menor. O país ensinou-nos a acreditar que trabalhar na construção é sinal de insucesso escolar, quando na verdade o sector exige raciocínio técnico, leitura, precisão, inteligência espacial e coordenação fina. Esta visão limitada afastou talento e fez desaparecer muitas das “mãos sábias” que transmitiam o ofício.
O terceiro desafio é interno ao próprio sector AEC: continuamos a valorizar tudo o que é conceptual e a desvalorizar quem executa. Fala-se de inovação, sustentabilidade e tecnologia, mas quase nunca se fala de quem transforma o projecto em realidade. Os operacionais continuam invisíveis, apesar de serem a base de tudo. O BuildLab existe precisamente para corrigir essa disfunção: dar estatuto, método e voz a quem de facto constrói.
É por isso que o BuildLab Gateway tem sido tão transformador. Ao formar trabalhadores em contexto real desde o primeiro dia, com método e acompanhamento, mostramos que aprender é possível e que profissionais preparados reduzem a rotatividade de forma drástica. Quando chegam a outras construtoras, chegam já com ferramentas, processos, noção de equipa e confiança. Entram como profissionais, não como riscos.
Em suma, o maior desafio é cultural — mas não será este o momento de o sector finalmente assumir a responsabilidade pela formação das suas próprias pessoas?
Como vê a evolução da qualificação profissional no sector AEC nos próximos anos?
Vejo como uma urgência binária: ou formamos, ou não teremos pessoas para construir.
A falta de mão-de-obra que hoje vivemos não é um fenómeno repentino, é a consequência directa de um sector que deixou de ensinar. Ninguém nasce ensinado, mas durante demasiado tempo comportámo-nos como se a responsabilidade da aprendizagem fosse exclusivamente do trabalhador. Não é. É do sistema.
Há outra mudança profunda que precisamos de assumir: o sector divorciou-se da realidade da obra. Fazemos projectos cada vez mais complexos, com tecnologia avançada, modelos BIM, materiais inovadores e sistemas construtivos altamente especializados… e depois entregamos essa informação a equipas que muitas vezes: têm dificuldade em ler ou interpretar um desenho; não dominam o português; nunca tiveram formação estruturada; e trabalham num ritmo que não lhes permite aprender.
É impossível esperar excelência quando existe um fosso tão grande entre o que se projecta e quem o constrói.
Por isso, acredito que o futuro passa por reintegrar aquilo que nunca deveria ter sido separado: o projecto, a execução e as pessoas.
Cada novo projecto deveria incluir, desde o início, um plano de formação e de preparação das equipas que o vão construir. Tal como se calcula a estrutura ou o orçamento, deve calcular-se o conhecimento necessário para que aquela obra seja exequível — e ensiná-lo antes do início dos trabalhos.
A formação em contexto real, contínua, prática, humana e acompanhada, vai deixar de ser excepção para ser a única solução. Não basta procurar trabalhadores qualificados. É preciso criá-los, integrá-los, acompanhá-los e dar-lhes condições para evoluir.
O BuildLab e o BuildLab Gateway nasceram precisamente para antecipar essa mudança: provar que, quando existe método e oportunidade, as pessoas aprendem rapidamente — e quando aprendem, o sector deixa de viver numa escassez crónica.
Há planos para expandir o Build Lab para outras cidades ou até para um formato digital?
Sim. O BuildLab foi criado para crescer, mas sempre em contexto real e físico. Acreditamos que a formação na construção civil tem de ser prática, acompanhada e vivida no terreno — não é possível formar profissionais do sector através de formatos digitais.
Por isso, o plano de expansão passa por consolidar polos em Lisboa, Porto e Paços de Ferreira, e abrir novas localizações sempre que existam obras capazes de integrar formandos com acompanhamento estruturado. O BuildLab Gateway reforça exactamente isso: a formação existe onde as obras existem, porque é aí que as pessoas realmente aprendem.
Em breve iremos avançar com núcleos de formação nos países de origem de trabalhadores que chegam a Portugal, para que o primeiro contacto com o sector aconteça antes da deslocação — sempre de forma prática e presencial.
O caminho é claro: formar mais pessoas, em mais obras, através de métodos reais, para que haja pessoas qualificadas na construção civil em Portugal.
O BuildLab não é apenas uma resposta à crise de competências, é um convite à reconstrução cultural do sector. Se queremos uma construção civil mais digna, inovadora e sustentável, temos de começar por onde tudo se transforma: nas pessoas e no saber prático. O futuro constrói-se com método, respeito e visão. E está nas nossas mãos.