Maria João Martins, My Change: Do C de controlo aos C’S de criatividade, curiosidade e coragem

Human Resources
12 de Março 2026 | 12:20

A transição do C de controlo para o C de criatividade não significa ausência de rigor. Significa maturidade cultural: menos foco em vigiar e mais foco em capacitar; menos medo de errar e mais coragem de aprender; menos uniformidade e mais autenticidade.

 

Por Maria João Martins, Managing partner da My Change

 

Durante décadas, as organizações foram desenhadas sob o signo de um grande “C”, de controlo. Controlo de processos, de tempos, de presença, de desempenho. Modelos de gestão orientados para a previsibilidade e a eficiência moldaram culturas onde errar era risco e experimentar era excepção. Mas a entrada acelerada da inteligência artificial (IA) está a alterar a equação competitiva. Esse “C” trouxe-nos até aqui. Mas dificilmente nos levará para onde precisamos de ir.

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Entrámos numa era em que a IA começa a assumir tarefas repetitivas, analíticas e operacionais com uma rapidez impressionante. Se a tecnologia passa a fazer melhor aquilo que é rotina, sobra-nos o que é mais humano: criatividade, pensamento crítico, empatia, visão e capacidade para conectar tópicos improváveis. Talvez estejamos perante uma transição simbólica, mas profunda: do C de controlo para o C da criatividade, mas também da curiosidade e da coragem.

A IA não é apenas uma ferramenta de eficiência. É, potencialmente, uma ferramenta libertadora de tempo cognitivo. Automatiza relatórios, organiza informação, sugere hipóteses, acelera análises e muitas outras coisas. A questão estratégica não é apenas “quanto poupamos?”, mas “o que fazemos com o tempo que ganhamos?”. A questão já não é apenas “como implementar IA?”, mas “que cultura queremos potenciar com a IA?”.

Se o tempo libertado for reinvestido em mais controlo, mais reporting e mais microgestão, a organização ficará mais rápida, mas não necessariamente mais relevante. Se for canalizado para experimentação, curiosidade e desenvolvimento de novas propostas de valor, então a IA torna-se uma verdadeira alavanca estratégica, transformando pessoas, equipas e a própria comunidade.

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Aqui, o papel dos Recursos Humanos é crítico, porque implica convidar os colaboradores a serem mais eles próprios e dar-lhes uma autêntica segurança psicológica. As pessoas só ousam experimentar quando sabem que não serão penalizadas por tentar. Isso exige líderes que troquem a lógica da supervisão pela lógica da confiança, que valorizem perguntas e a curiosidade tanto quanto respostas, e que reconheçam o erro como parte do processo criativo. Já antes era assim, mas agora é urgente!

Ousar experimentar requer igualmente redefinir métricas. Nem tudo o que importa é imediatamente mensurável. Se queremos criatividade, precisamos de aceitar ciclos curtos de teste e aprendizagem. Pequenos pilotos, protótipos rápidos, design thinking e feedback contínuo. A agilidade torna-se uma vantagem competitiva. A IA pode acelerar processos. Mas ainda acredito que, em muitos casos, é esta IA, ao lado de pessoas inspiradas, que irá acelerar a inovação na conquista do futuro.

Num mundo onde a tecnologia evolui exponencialmente, a vantagem sustentável será cada vez mais humana. As organizações que compreenderem isto não usarão a IA apenas para fazer mais do mesmo, usarão a IA para libertar as pessoas para fazerem o que só elas podem fazer, amplificando-as.

Os CEO e os RH têm hoje a oportunidade – e a responsabilidade – de conduzir esta mudança: menos foco em vigiar, mais foco em capacitar; menos padronização excessiva, mais espaço para o talento emergir. Algumas iniciativas que podemos abraçar:

1. Auditar o tempo libertado pela IA

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Identificar horas poupadas e decidir estrategicamente onde serão reinvestidas (inovação, melhoria de experiência do cliente, desenvolvimento de competências).

 

2. Formalizar espaços de experimentação

Criar budget e tempo dedicados a pilotos rápidos, com métricas de aprendizagem e não apenas de ROI [return on investment] imediato.

 

3. Rever KPI [key performance indicators] de liderança e de gestão das equipas

Incluir indicadores de desenvolvimento de talento, colaboração transversal e estímulo à inovação.

 

4. Capacitar para o pensamento criativo e crítico

Investir em formação que combine IA com competências humanas: storytelling, resolução criativa de problemas, empatia estratégica, aprender a aprender. E estimular a liberdade para experimentar.

E talvez esse seja o verdadeiro novo “C”: o da coragem para mudar os modelos que, de certeza, já não nos fazem falta!

 

Este artigo foi publicado na edição de Fevereiro (nº. 182) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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