MC Sonae: «O desempenho sustentável da organização depende do equilíbrio global das nossas pessoas»

Human Resources
24 de Março 2026 | 13:40
MC Sonae: «O desempenho sustentável da organização depende do equilíbrio global das nossas pessoas»

Na MC Sonae, a saúde mental é um pilar central da estratégia de bem-estar e gestão de pessoas, integrada numa visão holística que liga saúde física, mental e social ao desempenho sustentável da organização.

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O bem-estar deixou de ser um benefício complementar para se afirmar como um verdadeiro indicador de maturidade organizacional e, nesse contexto, a MC Sonae tem vindo a estruturar uma resposta que cruza prevenção, cultura e liderança. Num universo com milhares de colaboradores, distribuídos entre lojas, centros logísticos e funções corporativas, garantir equilíbrio, segurança e apoio efectivo é um desafio que exige método, estratégia, visão e muita empatia pelo colaborador.

Filipa Alves Rocha, Area Leader de Saúde Ocupacional, Ergonomia & Segurança no Trabalho e Facilities da MC Sonae, acompanha esta transformação a partir do terreno e esclarece, nesta entrevista, quais as prioridades e grandes desafios da empresa nesta área. Entre programas de literacia em saúde mental, inovação tecnológica aplicada à segurança e novas soluções de flexibilidade e prevenção, a responsável explica como a organização tem procurado antecipar riscos, reduzir estigmas e construir um modelo de bem-estar que vá além da intenção, traduzindo-se numa prática consistente.

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A saúde mental ganhou um espaço central na agenda das organizações. Que papel este tema assume hoje dentro da estratégia de bem-estar e de gestão de pessoas da MC Sonae?

Na MC Sonae, a saúde mental é um pilar estruturante da estratégia de bem-estar e de gestão de pessoas. Está integrada numa visão holística da saúde — que articula as dimensões física, mental e social — e parte da convicção de que o desempenho sustentável da organização depende do equilíbrio global das nossas pessoas.

Mais do que uma abordagem reactiva, assumimos a saúde mental como um compromisso preventivo, contínuo e alinhado com a nossa cultura de proximidade, cuidado e responsabilidade.

O bem-estar é, aliás, um dos pilares centrais da nossa Employee Value Proposition. Enquanto maior empregador privado em Portugal, temos vindo a reforçar, de forma estruturada e consistente, o nosso compromisso com a criação de ambientes de trabalho seguros e saudáveis, a promoção de relações interpessoais positivas e o desenvolvimento de uma cultura colaborativa, inclusiva e orientada para o cuidado com as pessoas.

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Que factores internos mais influenciaram o reforço do investimento nesta área nos últimos anos?

A crescente complexidade do contexto laboral — marcada por maior exigência, ritmo acelerado de mudança e novos modelos de trabalho — tornou evidente a necessidade de uma abordagem mais estruturada e preventiva.

A escuta activa dos colaboradores teve também um papel determinante, quer através do feedback directo, quer por meio dos nossos surveys de clima social, avaliações de riscos psicossociais e consulta aos colaboradores em Saúde e Segurança no Trabalho. Estes contributos permitiram-nos identificar prioridades e agir de forma mais consciente e alinhada com as reais necessidades das equipas.

A pandemia foi igualmente um catalisador, reforçando a consciência de que a saúde emocional deve ser acompanhada nas organizações com a mesma prioridade que a segurança física.

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Hoje, investir no bem-estar psicológico é, para nós, uma responsabilidade e um factor estratégico para reforçar o compromisso e a motivação das equipas, assegurar um desempenho sustentável e uma maior satisfação com a empresa.

Que iniciativas de apoio à saúde mental disponibilizam aos colaboradores e como se articulam com acções de prevenção, equilíbrio vida-trabalho e promoção de hábitos saudáveis?

No que diz respeito à saúde mental, a MC desenvolveu um programa específico — o #PrecisamosFalar — criado em 2021 com o objectivo de informar, apoiar e capacitar líderes e colaboradores para reconhecer sinais de alerta em si e nos outros. O programa assenta em três eixos — Sensibilização, Informação e Formação — e tem evoluído de forma consistente, promovendo uma abordagem holística e integrada do tema.

As lideranças desempenham um papel decisivo, pelo que assegurámos formação específica a 100% dos líderes com equipa, dotando-os de ferramentas para identificar sinais de alerta e conduzir conversas de apoio. Apostámos ainda em formatos como o podcast, abordando temas como depressão, ansiedade, sono, stress, burnout, dependências, luto ou parentalidade positiva, com especialistas de referência e renome nacional. Criámos, também, um hino para o programa, com a participação especial de Marisa Liz, intitulado “O Primeiro Passo”, que se tornou símbolo de coragem e pertença, reforçando a mensagem de que falar sobre saúde mental é um sinal de força.

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Em parceria com a Cruz Vermelha Portuguesa, disponibilizamos a todos os colaboradores um plano gratuito de apoio psicológico, presencial ou online. No âmbito do Seguro de Saúde, asseguramos ainda consultas online de Psicologia gratuitas e ilimitadas, e acesso a programas de bem-estar focados, por exemplo, na gestão de stress e ansiedade, cessação tabágica, tratamento de obesidade, entre outros.

Ao nível da saúde física, a nossa equipa de Saúde Ocupacional assegura acompanhamento regular através de consultas de Medicina do Trabalho, de Medicina Geral e acções contínuas de prevenção e sensibilização. Promovemos programas específicos, como acompanhamento nutricional para colaboradores com obesidade, assim como rastreios cardiovasculares. Também disponibilizamos campanhas de prevenção do cancro e vacinação antigripal gratuita. Ao longo do ano, reforçamos, ainda, a literacia em saúde através dos nossos canais internos.

A nossa abordagem é integrada: combinamos apoio especializado, prevenção e promoção.

Têm observado mudanças na procura por apoio psicológico? Que sinais ajudam a ajustar as iniciativas?

Sim, temos observado um aumento progressivo da procura por apoio psicológico, o que interpretamos também como um sinal positivo de redução do estigma.

Monitorizamos indicadores quantitativos e qualitativos, como a taxa de utilização dos serviços disponibilizados, resultados dos nossos surveys internos e evolução do nosso índice de bem-estar, níveis de absentismo, adesão e avaliação das iniciativas e programas, assim como da avaliação de riscos psicossociais em contexto laboral e índices de sinistralidade, não esquecendo o feedback regular dos colaboradores sobre os programas e a consulta aos colaboradores em matéria de Saúde e Segurança no Trabalho. Estes dados permitem-nos ajustar formatos, horários e canais de comunicação para garantir maior proximidade e eficácia.

Como garantem que equipas de loja, logística e funções corporativas têm acesso equitativo aos recursos de saúde mental e bem-estar?

Garantir equidade no acesso é uma prioridade, sobretudo tendo em conta a nossa forte presença operacional e a diversidade de contextos — lojas, logística e estruturas centrais. Trabalhamos para que todos tenham acesso às mesmas oportunidades de apoio, independentemente da sua função ou localização.

Para isso, disponibilizamos os recursos através de múltiplos canais, digitais e presenciais, com destaque para a nossa app interna, assegurando que a informação e os serviços chegam de forma simples e directa a todas as equipas. Adaptamos a comunicação e os formatos à realidade de cada contexto operacional e reforçamos continuamente a divulgação das iniciativas.

A acessibilidade, a simplicidade e a confidencialidade são critérios essenciais na forma como desenhamos e implementamos estas soluções, garantindo que cada colaborador se sente seguro e apoiado para procurar ajuda sempre que necessário.

Que papel desempenham as lideranças na detecção precoce de sinais de desgaste emocional ou burnout e na promoção de práticas de prevenção?

As lideranças desempenham um papel determinante na detecção precoce de sinais de alerta e na criação de uma cultura de prevenção, enquanto primeiros pontos de contacto no dia-a-dia das equipas. Por isso, temos investido de forma consistente na sua capacitação, dotando-os de ferramentas para reconhecer sinais de alerta, promover conversas abertas e agir de forma adequada e atempada no encaminhamento.

Trabalhamos competências como empatia, escuta activa, colaboração e criação de ambientes psicologicamente seguros, onde falar sobre dificuldades não é estigmatizado. Paralelamente, investimos numa liderança mais próxima e humana, através de iniciativas como o Lead Better, porque acreditamos que lideranças conscientes e preparadas são um dos factores mais relevantes na prevenção e no reforço do bem-estar das equipas.

Num sector exigente como o retalho, que medidas implementam para mitigar pressão, fadiga e stress, contribuindo para o bem-estar dos colaboradores?

Num sector exigente como o retalho, actuamos de forma estruturada, integrando segurança, organização do trabalho e bem-estar numa lógica preventiva.

Em primeiro lugar, promovemos uma cultura de “zero acidentes”, reforçada por iniciativas como o programa Lead- Safety, que capacita as lideranças para integrar a segurança, saúde e bem-estar na gestão diária das equipas. Contamos, ainda, com um Sistema de Gestão de Segurança robusto, campanhas regulares de sensibilização e mais de 85.000 horas anuais de formação em Segurança e Saúde no Trabalho.

Ao nível das condições de trabalho, lançámos um Programa de Melhoria das Condições de Trabalho, transversal a lojas, logística e estruturas centrais. Através do Modelo Y (segurança, ergonomia e eficiência), reconfigurámos tarefas, postos de trabalho e equipamentos, reduzindo significativamente riscos ergonómicos e de segurança, e aumentando a eficiência e satisfação das equipas. Destaca-se, ainda, o Centro de Prevenção de Lesões Musculoesqueléticas esqueléticas no Centro de Distribuição da Maia, bem como iniciativas de ergocoaching e correcção postural nos escritórios e logística.

A aposta na inovação é também determinante: o sistema iSafety, baseado em algoritmos de machine learning, permite antecipar riscos e emitir alertas preventivos, reforçando a protecção no dia-a-dia operacional.

Sabemos, porém, que o bem-estar vai além do contexto operacional. Por isso, reforçámos medidas de equilíbrio e apoio social, como o programa Flex it Up 2.0, que oferece soluções concretas de flexibilidade — dias extra, flexibilidade horária, redução de horário, licença sem vencimento ou Flex Friday — assentes numa lógica de confiança e autonomia. Através do programa “Somos Sonae”, em parceria com a Cruz Vermelha Portuguesa, apoiamos colaboradores e famílias em situação de vulnerabilidade incluindo saúde oral, vítimas de violência doméstica, apoio psicológico e literacia financeira.

Como adaptam as iniciativas à diversidade de perfis, gerações e realidades dentro da MC Sonae?

Temos uma organização profundamente diversa — em idades, funções, nacionalidades, contextos operacionais e fases de vida — e é precisamente essa diversidade que orienta a forma como desenhamos as nossas iniciativas.

Adoptamos uma lógica de segmentação e flexibilidade, combinando canais digitais com momentos presenciais, conteúdos curtos e práticos com programas mais estruturados, e soluções ajustadas a diferentes necessidades — desde jovens em início de carreira a colaboradores com responsabilidades familiares ou em fases mais avançadas do percurso profissional.

A escuta activa é central neste processo. Através de mecanismos formais e informais de auscultação, recolhemos feedback contínuo que nos permite ajustar, simplificar e evoluir a oferta, garantindo que as iniciativas são relevantes, acessíveis e verdadeiramente alinhadas com a realidade das nossas pessoas.

Olhando para o futuro, que prioridades estratégicas e novas iniciativas estão previstas para reforçar a saúde mental e o bem-estar na organização?

A nossa prioridade estratégica passa por reforçar a consistência e a integração da abordagem ao bem-estar, consolidando o caminho que temos vindo a construir. Continuaremos a investir de forma clara na prevenção e na literacia em saúde, acreditando que informar, sensibilizar e capacitar é a forma mais eficaz de reduzir a incidência de situações de risco e promover equipas mais resilientes.

Queremos aprofundar programas que reforcem competências individuais e colectivas — desde a gestão emocional à promoção de estilos de vida saudáveis — e continuar a capacitar as lideranças para actuarem de forma cada vez mais consciente e próxima.

Em paralelo, manteremos o foco no desenho e reforço de soluções de apoio especializado para os casos em que seja necessário acompanhamento, garantindo respostas acessíveis e ajustadas às diferentes realidades.

O nosso compromisso é claro: construir um ambiente de trabalho onde cada pessoa possa desenvolver o seu potencial com equilíbrio, segurança e sentido de pertença.

 

Este artigo faz parte do Caderno Especial “Saúde e Bem Estar”, publicado na edição de Março (nº. 183) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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