Miguel Amador, EIT Health: «O grande desafio da formação em saúde é o acesso aos melhores conteúdos»

Com a pandemia covid-19 a preocupação com os cuidados de saúde tornou-se ainda mais real e evidente. Os desafios que se colocaram ao sector da saúde foram e são imensos e começam desde logo no ensino. Training in Healthcare é um tema que importa abordar para perceber, desde logo, quais os seus alicerces e quais as dificuldades pelas quais tem vindo a passar. Miguel Amador, EIT Health InnoStars Ecosystem Lead para Portugal, ajudou-nos em entrevista a perceber melhor o tema.

 

Por Sandra M. Pinto

O EIT Health é uma joint venture da União Europeia com um vasto número de entidades a nível europeu, desde hospitais, universidades e centros de investigação, dedicada aos cuidados de saúde. É também ela que desenvolve a formação/ensino no sector, concretizando as parcerias com hospitais, centros de pesquisa e empresas, no sentido de integrar os novos profissionais. Na conversa com Miguel Amador tentámos perceber que valências necessárias são transmitidas àqueles que já têm uma carreira, mas que também de que forma se vão os profissionais à transformação digital que, inevitavelmente, também se sente no sector da saúde.

Olhando para o ensino em saúde como analisa o seu desenvolvimento ao longo dos últimos anos, e hoje, em pleno seculo XXI, como se desenvolve a formação e o ensino no sector?
Nas últimas décadas, a educação tem-se tornado mais diversa e complementar, com maior especialização e novos papéis por parte de todos aqueles que contribuem para o funcionamento dos cuidados de saúde. Há que dar destaque a novas áreas que conjugam engenharia com medicina, como a Engenharia Biomédica, e um alargamento da oferta de formação pós-graduada dirigida a profissionais de saúde, mas não só, ao nível de ciência dos dados ou inovação. O grande desafio que este ensino enfrenta é, sem dúvida, o crescimento exponencial do conhecimento, que torna humanamente impossível um só especialista saber tudo o que é relevante para tomar as melhores decisões em clínica nos dias de hoje.

De que forma o processo de ensino-aprendizagem se incorpora no quotidiano das práticas profissionais, com a interação entre teoria e prática, com vista a uma aprendizagem significativa?
Em face da escassez de profissionais de saúde, é complicado formar num contexto clínico com pacientes. Principalmente quando o processo de ensino-aprendizagem se centra em novas tecnologias e processos, que nem sempre estão totalmente implementados nas instituições de saúde, dado que falta também a formação para os explorar. É uma espécie de desafio do ovo e da galinha, onde a criação de novos centros dedicados à formação, em ambientes que simulam o ambiente clínico, tem-se tornado mais comum, quer no sector público, como no privado. Estes centros de simulação médica e biomédica permitem dar acesso a contextos muito próximos da realidade e à experimentação de técnicas e inovação, sem pôr em risco pacientes ou esperar que os processos estejam implementados já nos hospitais.

A transformação digital é um tema em cima da mesa também no sector da saúde. Tendo isto em linha de conta de que forma é possível transmitir as valências necessárias para aqueles que já têm uma carreira mas que terão que se adaptar à digitalização? Como vai ser possível avançar na digitalização da educação médica contínua? 
A transição digital é um dos maiores desafios que a área enfrenta, isto porque a grande maioria dos profissionais teve formação em cuidados de saúde numa época onde não havia acesso a ferramentais digitais. Inclusive, a formação em valências digitais é, ainda hoje, uma das maiores lacunas da formação de base em Portugal. Torna-se, pois, urgente agir, não só na educação dos profissionais de saúde, mas também das lideranças das instituições, por forma a que a transição digital seja algo estratégico para as organizações. Este processo exige libertar tempo das rotinas do dia-a-dia. Um investimento a curto prazo, mas que por certo trará benefícios. Entre estas iniciativas, destaco o curso executivo em Saúde Digital da Escola Nacional de Saúde Pública, que foi reconhecido pela sua qualidade pelo EIT Health.

Existem parcerias com hospitais, centros de pesquisa e empresas, no sentido de integrar os novos profissionais? Como funcionam elas?
Este é um sector onde a inovação tem maior potencial de impacto; porém, nem toda a inovação garante os resultados esperados inicialmente. Assim, é importante que os novos profissionais estejam capacitados para liderar estes processos, que consistem em avaliar e promover a inovação, mas sempre com foco naquilo que é a melhoria dos cuidados de saúde. É neste sentido que ao nível do EIT Health temos desenvolvimento vários programas onde a solução deriva de uma necessidade bem identificada e mapeada. É aqui que se consegue criar uma zona de confiança entre hospitais, centros de investigação e empresas, partindo de um reconhecimento transversal das necessidades. Os profissionais capazes de navegar neste processo, do lado da tecnologia, são essenciais para dirigir o processo de inovação dos nossos sistemas de saúde. Um exemplo de um destes programas onde empresas, hospitais e universidades se juntam para formar os profissionais do futuro é o Starship, liderado pela Universidade de Coimbra, num consórcio a nível europeu.

Quais são hoje os principais desafios quando nos referimos ao Training in Healthcare? Mudou alguma coisa com a pandemia covid-19?
O grande desafio da formação em saúde é o acesso aos melhores conteúdos, já que não é possível dotar cada instituição de competências para formar em todas as áreas. A covid-19 veio pôr um grande foco na educação digital, quebrando resistências para o que não era educação presencial. A pandemia mostrou como os profissionais podem ter de lidar com conhecimento totalmente novo, a ser desenvolvido em qualquer parte do mundo. E o acesso digital a essa informação é crítico para uma disseminação rápida e global. Temos no EIT Health casos, como o programa HelloAI Professionals, que permitiu em 2021 formar mais de 1750 profissionais por toda a Europa num formato digital. Por isso, ainda que seja normal voltar à formação presencial, o impacto de um ensino digital ficou claro, e espera-se que tenha vindo para ficar.

Existem momentos de ensino-aprendizagem em que o contacto presencial e a prática são a fonte de conhecimento. Que ferramentas e que conhecimentos são esses?
A saúde é muito mais do que apenas conhecimento teórico, e aí apenas o contacto presencial e a prática são fontes de conhecimento. Muita da prática clínica requer capacidade dos profissionais para analisar todo um contexto. Ao mesmo tempo, grande parte da tecnologia disponível precisa ainda de uma perícia técnica significativa, o que é uma limitação para o acesso a essas soluções em muitas regiões onde faltam especialistas. Nesse sentido, o Instituto Pedro Nunes viu aprovado para 2022 pelo EIT Health um programa de formação de especialistas no uso de ultrassons, um meio de diagnóstico prático e acessível, mas onde faltam recursos. Este projecto faz uso de uma tecnologia de robot que permite que um especialista ensine remotamente as técnicas necessárias para usar o ultrassom, para um formando em qualquer parte do mundo.

Quais as competências necessárias e que vantagens apresentam para os profissionais de saúde?
Tornou-se cada vez mais óbvio que a realidade pode mudar em poucos anos. Por isso, a formação deve estar desenhada, não para preparar as pessoas para o que vão encontrar, antes para liderar de acordo com as mudanças que vão encontrar. Mais do que a capacidade de memorizar e decorar, é importante os profissionais assumirem um espírito crítico e perceber se a informação é ou não relevante. A tecnologia nunca irá substituir os profissionais de saúde, mas os profissionais de saúde que fazem melhor uso de tecnologia irão substituir aqueles que não o fazem.

Se queremos aproveitar esta oportunidade e dar o salto na formação, quais os caminhos reais que podemos seguir?
Há que perceber que a formação contínua é um requisito dos tempos modernos em saúde a todos os níveis, desde políticos à gestão das organizações e profissionais. Esta é uma área onde o investimento é crítico, dado que muitas das inovações falham por não serem adotadas. E uma das principais razões é a falta de formação e adaptação aos processos pelos utilizadores. Assim, ainda que possa representar um investimento elevado a curto prazo, urge libertar os profissionais em Portugal para se dedicarem mais à sua formação e prepararem-se para as inovações que vão alocar mais recursos no futuro.

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