Miguel Muñoz Duarte, Fledge Institute: «Há muito talento desaproveitado na sociedade e sobretudo nesta nova economia digital»

Cinco anos depois, o No Code Institute mudou de nome e de ambição. O Fledge Institute surge como resposta a um desafio mais amplo: preparar profissionais não técnicos para liderar numa economia marcada pela IA, automação e mudança constante. Para o fundador Miguel Muñoz Duarte, o maior risco já não é a tecnologia em si, mas o afastamento de uma parte significativa do talento do futuro do trabalho.

Tânia Reis
17 de Abril 2026 | 10:40

Por Tânia Reis

 

A transformação digital só será verdadeiramente bem‑sucedida se deixar de ser um privilégio reservado a perfis técnicos, defende o fundador do Fledge Institute. Por isso, na era da inteligência artificial, preparar pessoas para trabalhar com tecnologia tornou‑se uma condição básica para a competitividade das organizações. A empregabilidade futura, sublinha, dependerá menos da especialização técnica e mais da capacidade de trabalhar eficazmente com tecnologia.

 

Passados 5 anos, o No Code Institute passou a Fledge. O que levou a essa mudança?

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A transformação do NoCode Institute em Fledge Institute reflecte a evolução da nossa missão. O nosso foco continua a ser democratizar a transição digital, mostrando que qualquer pessoa poderia criar soluções tecnológicas sem escrever código, mas com a aceleração da inteligência artificial e a crescente integração de tecnologias digitais, percebemos que o desafio é mais amplo: não se trata apenas de utilizar ferramentas, mas de preparar pessoas e organizações para uma economia digital em constante transformação. O novo posicionamento traduz a nossa ambição de formar profissionais que se tornem agentes de mudança, capazes de liderar projetos digitais e de IA, independentemente do seu background técnico.

 

Que objectivos foram definidos para esta nova fase?

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Os nossos principais objectivos nesta nova fase passam por preparar profissionais não-técnicos para não ficarem para trás numa economia cada vez mais moldada pela transformação digital e pela inteligência artificial. Queremos capacitar uma nova geração de agentes de transformação digital — pessoas capazes de impulsionar a inovação dentro das suas organizações ou de apoiar empresas de forma independente nesse processo.

Para isso, estamos a reforçar a nossa aposta em percursos formativos altamente práticos, focados na aplicação imediata em contexto real de trabalho, complementados por certificações reconhecidas internacionalmente e por uma ligação mais forte ao mercado.

No fundo, o nosso objectivo é tornar a transição digital mais inclusiva e acessível, garantindo que mais profissionais e mais empresas tenham acesso ao talento e às competências necessárias para prosperar nesta nova era.

 

Porque é que, na sua perspectiva, democratizar o acesso à criação tecnológica é fundamental?

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Porque acreditamos que há muito talento desaproveitado na sociedade e sobretudo nesta nova economia digital. Temos vindo a observar que há muito talento por aproveitar que continua excluído e sem acesso às oportunidades certas, mais ainda no digital e com a explosão da IA.  Durante demasiado tempo, a capacidade de acreditar que o talento está distribuído de forma muito mais ampla do que as oportunidades. Durante demasiado tempo, a capacidade de criar, transformar ou liderar inovação tecnológica esteve reservada a uma pequena minoria com formação altamente técnica, deixando grande parte dos profissionais de fora da economia digital.

Democratizar esse acesso é fundamental para garantir que mais pessoas possam participar activamente na transformação das empresas e da sociedade, independentemente do seu background ou percurso académico. Quando tornamos a tecnologia mais acessível, desbloqueamos talento que estava até aqui subaproveitado, aumentamos a empregabilidade, fomentamos inovação mais diversa e ajudamos mais organizações a adaptar-se aos desafios do mercado.

No fundo, acreditamos que a transformação digital só será verdadeiramente bem-sucedida, se deixar de ser um privilégio de poucos e passar a ser uma oportunidade para muitos.

 

E por que continua tão longe de estar garantido?

Porque, apesar de a tecnologia estar mais acessível do que nunca, continuam a existir barreiras muito profundas ao nível da mentalidade, da educação e da forma como o mercado está estruturado. Muitas pessoas ainda sentem que “a tecnologia não é para elas”, enquanto grande parte da oferta formativa continua a ser excessivamente técnica, complexa ou pouco adaptada à realidade da maioria dos profissionais e das PME.

Ao mesmo tempo, a velocidade a que tudo está a evoluir exige uma aprendizagem contínua que muitas pessoas e organizações ainda não estão preparadas para acompanhar. No fundo, a tecnologia avançou mais depressa do que a capacidade colectiva de adaptação a ela.

 

Que tipo de formação disponibiliza o Fledge e para quem?

Mais do que oferecer formação tradicional, o Fledge Institute pretende ser uma plataforma de capacitação e transformação digital para os talentos não-técnicos e não-óbvios, preparando assim profissionais e organizações para prosperar numa economia cada vez mais tecnológica.

Fazemo-lo através de programas práticos de reskilling e upskilling focados em áreas como inteligência artificial, automação, ferramentas no-code e low-code, sempre com uma forte componente de aplicação real ao contexto de trabalho.

Para isso, contamos com percursos de transformação progressivos que combinam aprendizagem, prática, certificação e aplicação real, permitindo aos participantes desenvolver competências digitais de forma gradual e orientada para resultados concretos.

Mais do que ensinar ferramentas ou competências puramente técnicas, procuramos desenvolver e treinar o “músculo” capaz de aprender mais rápido, para acompanhar e liderar a mudança.

 

Muitas organizações reconhecem a urgência da requalificação, mas continuam a não investir o suficiente. Porquê?

Não estou certo de que todos reconheçam a urgência e importância da requalificação. Creio até que no curto prazo, as pessoas poderão ser o “elo mais fraco” desta transição para algumas organizações como já está a acontecer nalguns mercados.

Mas de facto, para as muitas organizações que estão conscientes da necessidade de requalificação, é difícil agir porque reconhecer o problema não significa saber como resolvê-lo. Muitas organizações sabem que precisam de evoluir, actualizar e aproveitar os seus talentos, mas continuam sem clareza sobre que competências desenvolver, por onde começar ou como integrar essa transformação no ritmo diário da operação.  Há muita incerteza e risco.

No caso das PME, essa dificuldade é ainda maior: há menos tempo, menos recursos e menos estrutura interna para parar e pensar estrategicamente na qualificação das equipas.

Além disso, muitas empresas ainda encaram a formação como um custo e não como um investimento estratégico, o que faz com que a urgência seja reconhecida, mas frequentemente adiada.

 

Que obstáculos afastam as pessoas da tecnologia, mesmo quando as ferramentas estão disponíveis?

O maior obstáculo hoje já não é tecnológico — é humano. Muitas pessoas continuam a sentir que a tecnologia “não é para elas”, seja por falta de confiança, medo de errar ou pela ideia enraizada de que o digital está reservado a perfis altamente técnicos.

Durante anos criou-se a percepção de que tecnologia era sinónimo de programação e complexidade, e isso afastou muita gente. A verdade é que as ferramentas evoluíram, mas a mentalidade colectiva ainda não acompanhou essa mudança.

A isso junta-se o facto de muitas ofertas de aprendizagem continuarem demasiado teóricas, técnicas ou desligadas da realidade prática de quem trabalha. O desafio está em tornar a tecnologia mais acessível, mais prática e mais próxima do contexto real das pessoas. O Fledge Institute aborda estes obstáculos “invisíveis”, permitindo que os profissionais ganhem autonomia, confiança e percebam que podem criar ainda mais valor através da tecnologia e tornar-se mais produtivos, atractivos e competitivos no mercado de trabalho.

 

Que mudanças concretas tem observado no mercado de trabalho devido à IA generativa e à automação?

Estamos a assistir a uma transformação profunda do trabalho, em que a IA generativa e a automação estão a redefinir funções, processos e perfis profissionais. Muitas tarefas repetitivas, operacionais ou administrativas estão a ser automatizadas, e isso está a libertar tempo para funções de maior valor acrescentado, como pensamento estratégico, criatividade e tomada de decisão.

Ao mesmo tempo, está a surgir uma nova exigência no mercado: profissionais que, mesmo não sendo técnicos, saibam trabalhar com ferramentas digitais, automação e inteligência artificial.

Cada vez mais, a diferença competitiva não estará apenas no conhecimento técnico de uma função, mas na capacidade de potenciar esse conhecimento através da tecnologia.

 

Que competências são agora fundamentais em qualquer profissional?

Hoje já não basta dominar apenas a componente técnica da sua profissão. E também não é suficiente ter literacia digital e usar a IA de forma básica.  É fundamental desenvolver fluência digital — ou seja, a capacidade de compreender, utilizar e adaptar tecnologia no dia-a-dia profissional, para além dos chats, explorando tudo o que estas tecnologias têm para oferecer.

A isto juntam-se competências como capacidade analítica, pensamento crítico, resolução de problemas, adaptabilidade e aprendizagem contínua, que se tornam cada vez mais essenciais num mercado em rápida mudança.

No fundo, os profissionais mais valorizados serão aqueles que conseguirem combinar conhecimento humano com capacidade de trabalhar eficazmente com tecnologia.

 

Nos últimos anos, o discurso sobre IA oscilou entre o entusiasmo e o medo. Qual a sua perspectiva sobre o tema?

Como qualquer grande transformação tecnológica, extremam-se as posições e galvanizam-se as emoções. A IA gera naturalmente entusiasmo por um lado, mas receio por outro.

Dizem vários especialistas mundiais que “o maior risco não é sermos substituídos pela IA, mas sim por outros profissionais que usem a IA melhor”. O verdadeiro risco não está na tecnologia em si — mas sim em não preparar as pessoas para trabalhar com ela.

Por isso, na nossa perspectiva, deve ser vista como uma ferramenta de amplificação, e não de substituição. Quando integrada correctamente, a IA amplifica competências humanas, potencializa criatividade, acelera processos e permite tomada de decisão mais informada. O verdadeiro desafio está em formar profissionais capazes de trabalhar com IA, em vez de apenas consumir tecnologia, tornando-os protagonistas da transformação digital nas suas organizações e sectores.

Quem souber integrar a IA no seu trabalho será mais produtivo, mais criativo e mais competitivo. Quem não o fizer arrisca-se a perder relevância. Por isso, o debate não deve centrar-se em “a IA vai substituir pessoas?”, mas sim em “como capacitamos pessoas para trabalhar melhor com IA?”.

 

Como é que o Fledge está a medir impacto? Quais são os indicadores que mais revelam se a capacitação digital está, de facto, a tornar-se mais inclusiva?

No Fledge Institute, medimos impacto não só pela participação ou pelas horas de formação, mas sobretudo pela transformação gerada.

Olhamos para indicadores como fluência e destreza digital, aplicação prática de competências, a evolução da confiança digital dos participantes e a progressão profissional para novas oportunidades.

Mas um dos indicadores mais importantes para nós é a diversidade dos perfis que conseguimos envolver — porque a inclusão digital só existe verdadeiramente quando conseguimos capacitar pessoas de diferentes idades, backgrounds, sectores e níveis de experiência.

O nosso objectivo não é formar apenas quem já estava predisposto para o digital, mas precisamente chegar a quem historicamente ficou mais afastado dessa realidade. A inclusão avalia-se pela capacidade de chegar a profissionais de diferentes sectores, níveis de experiência e contextos. Estes indicadores permitem perceber se a requalificação digital está, de facto, a democratizar o acesso à economia digital.

 

A legislação existente promove a aceleração da requalificação digital? O que falta?

Em Portugal têm existido avanços importantes e um reconhecimento crescente da importância da requalificação digital, com governos, entidades públicas como o IEFP, empresas e organizações da sociedade civil a apostar cada vez mais nesta área.

Apesar destes esforços, a dimensão e a velocidade desta transição fazem com que a resposta actual ainda não seja suficiente. A legislação, as políticas públicas e a resposta institucional continuam longe de acompanhar o ritmo da transformação tecnológica que estamos a viver.

Grande parte dos mecanismos existentes foi pensada para modelos de formação mais tradicionais e nem sempre tem a agilidade necessária para responder às novas exigências do mercado. Além disso, continua a faltar maior articulação entre políticas públicas, sistema educativo, entidades formadoras e as necessidades reais das empresas e das pessoas.

Dada a dimensão do desafio, é também essencial reforçar incentivos para que as empresas invistam de forma contínua na capacitação das suas equipas.

Na era da IA, se queremos preparar verdadeiramente o país para a nova economia, não basta acompanhar a mudança — é necessário antecipá-la, promovendo modelos mais flexíveis, contínuos e orientados para competências práticas e imediatamente aplicáveis. Mas acima de tudo, é fundamental garantir que esta transformação não beneficia apenas uma minoria mais preparada ou privilegiada: temos de assegurar que chega a todos, reduzindo o AI & Digital Gap e construindo uma transição digital verdadeiramente inclusiva, onde ninguém fica para trás.

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