Mobilidade e desigualdades regionais continuam a condicionar o acesso ao ensino superior

Margarida Lopes
28 de Janeiro 2026 | 07:50

Um estudo do Edulog, o think tank para a Educação da Fundação Belmiro de Azevedo, mostra que, apesar da expansão e massificação do ensino superior, a mobilidade estudantil permanece fortemente condicionada por factores socioeconómicos e territoriais, que continuam a moldar o acesso, o sucesso e a distribuição regional do capital humano.

O estudo, que analisa as desigualdades regionais e a mobilidade dos estudantes no acesso ao ensino superior ao longo da última década, conclui que a distância é um dos factores mais penalizadores da mobilidade dos estudantes, reduzindo significativamente os fluxos, sobretudo entre os diplomados de cursos científico-humanísticos. Já os diplomados de cursos profissionais tendem a realizar percursos mais curtos e concentram as suas escolhas em instituições politécnicas e opções de proximidade.

As condições socioeconómicas, bem como a presença, ou ausência, de instituições de ensino superior no município de origem revelam-se igualmente determinantes nas decisões de candidatura. Também as perspectivas salariais e os custos de vida nos municípios onde se encontram as instituições exercem um papel crucial nessas escolhas.

Nas áreas metropolitanas, onde a oferta é mais ampla e diversificada, os estudantes revelam uma maior sensibilidade à distância. Já nos territórios do interior, a mobilidade é frequentemente uma necessidade, devido à escassez de alternativas locais, levando muitos estudantes a percorrer distâncias mais longas.

Ainda segundo a análise, as universidades de grande dimensão, bem como as instituições com especializações em determinadas áreas, conseguem atrair estudantes além da sua região. Em contraste, os institutos politécnicos continuam a afirmar-se essencialmente como uma opção de proximidade.

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Este enquadramento, conclui o estudo, evidencia um duplo desafio nacional: garantir que a origem geográfica não condiciona o acesso ao ensino superior e promover uma maior eficiência do sistema, reduzindo custos e mitigando o risco de abandono.

O estudo faz, ainda, uma análise específica ao curso de Medicina, que acolheu, em média, apenas 2% dos diplomados que prosseguem para o ensino superior, um sinal da elevada selectividade e da forte concentração institucional.

Os resultados mostram que um aumento de 10% na distância entre o município de origem e a instituição de ensino superior traduz-se numa queda de apenas 1,5% nos fluxos de entrada, cerca de metade do observado no conjunto dos cursos científico-humanísticos. A menor sensibilidade à distância evidencia a forte atractividade de Medicina, cujos elevados retornos e prestígio levam os estudantes a aceitar maiores custos de deslocação, atenuando o efeito dissuasor da distância.

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Pelo contrário, os factores socioeconómicos revelam um peso significativo. Um aumento de 10 p.p. na proporção de alunos que frequentam o ensino secundário privado está associado a um acréscimo de 3% nos fluxos para Medicina.

Com base na evidência recolhida, o EDULOG sublinha a necessidade de reforçar políticas públicas que reduzam as barreiras territoriais e evitem que a diferenciação institucional aprofunde as desigualdades existentes, nomeadamente através de apoios diferenciados à mobilidade; o reforço do ensino superior no interior em áreas estratégicas, como a saúde, a tecnologia e as energias renováveis; e a mitigação da desigualdade económica, através da monitorização de desigualdades no acesso consoante o background escolar e do reforço dos mecanismos de ação social escolar.

Além disso, o think thank sugere o ajustamento da oferta territorial e institucional e a monitorização da transição para o mercado de trabalho, designadamente através do acompanhamento de salários, estabilidade e progressão.

Baseado em dados administrativos de cerca de 724 mil diplomados do ensino secundário residentes em todos os municípios de Portugal Continental, o estudo recorre a um modelo gravitacional para estimar os fluxos de entrada nas diferentes instituições de ensino superior.

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