Mulheres na tecnologia: um retrato de desigualdade

O sector tecnológico continua a ter mais homens do que mulheres a trabalhar, chegando mesmo a verificar-se casos de discriminação. É o que revela o estudo «A Portrait of Portuguese Women in Tech», que está esta tarde a ser apresentado no Deloitte hub, que destaca ainda a existência de discriminação. 

 

De acordo estudo, 78% das inquiridas já sofreu observações, piadas ou gestos sexistas pelo menos uma vez, 74% já ouviu suposições sobre a sua carreira com base no facto de ser mulher e 72%  já sentiu que não foi ouvida até que um homem dissesse o mesmo e uma média de 20% das mulheres afirma passar por estas situações “com frequência”.

Além disso, metade das mulheres entrevistadas é minoria nos departamentos em que trabalha. Na verdade, uma em cada dez é a única mulher no seu departamento.

No que diz respeito a remuneração, 38% já sentiu que ganhava menos que os seus pares apenas por ser mulher, e 49% já sentiu discriminação nos processos de promoção.

Os problemas de confiança também afectam as mulheres, 34% já sentiu que era menos capaz que os homens e 39% já sentiu falta de reconhecimento pelas conquistas por ser mulher.

Mas as bases para a desigualdade começam na universidade. Das mulheres que participaram no estudo, 39% foi minoria na turma, afirmando que, em cada cinco alunos, quatro eram homens. Já 43% sentiu falta de integração.

 

Soluções
O estudo questionou ainda as mulheres acerca de soluções para a desigualdade de género, nomeadamente na área tecnológica.

As soluções mais votadas relacionam-se com o aumento de iniciativas focadas em capacitar as mulheres para actuar no sector; a intervenção de líderes organizacionais contra actos discriminatórios; e o reconhecimento e a visibilidade atribuídos a mulheres em posição de destaque no sector. A discriminação positiva aparece em último lugar no ranking.

Outra das conclusões do estudo mostra que metade das mulheres entrevistadas afirma que a paixão genuína pela área tecnológica foi o principal motivo para a opção pelo sector, seguido de perto pela estabilidade (uma em cada três mulheres refere este tópico como principal). Trabalho intelectualmente estimulante e oportunidade de contribuir para o desenvolvimento de novos conhecimentos ocupam o terceiro e quarto lugares, respectivamente, no pódio de motivos.

No que diz respeito a emprego, 20% das inquiridas está à procura de forma activa, 35% de forma passiva e 45% não está à procura. As novas oportunidades chegam-lhes principalmente através do LinkedIn (52%) e através de familiares, amigos e colegas (37%). Apenas 11% utiliza plataformas especializadas. As mulheres inquiridas ainda se mostram conservadoras na procura de novo emprego, preocupando-se com a capacidade em preencher todos os requisitos da vaga. De forma geral, candidatam-se a uma posição idêntica àquela que já têm, e muitas vezes vão para empresas concorrentes.

 

O que valorizam
Na avaliação de oportunidades, as mulheres dão prioridade a grandes empresas na área tecnológica, acreditando que a possibilidade de crescer profissionalmente é maior do que em departamentos tecnológicos de empresas de outro sector, ou em pequenas empresas.

O lento crescimento salarial e a baixa possibilidade de crescimento na carreira são factores que as afastam. Pelo contrário, a remuneração competitiva, o crescimento profissional, e o equilíbrio entre vida laboral e pessoal (por esta ordem) são factores que as atraem. Qualidade de chefia e das equipas, afinidade com cultura e valores da empresa, novos desafios e possibilidade de trabalhar com stacks da sua preferência são também factores de atracção.

Já o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional é valorizado, principalmente para as gerações mais recentes. Para as mulheres mais jovens, isto traduz-se em horários flexíveis e trabalho remoto. Para as mais velhas, significa morar perto do trabalho ou encontrar oportunidades na cidade da origem, ficando perto da família. A maternidade é também em destaque, sendo que o sector ainda não proporciona as condições desejadas, as mulheres inquiridas não estão confortáveis com as opções de trabalho a tempo parcial que algumas empresas oferecem e têm receio de ser afectadas na remuneração.

O estudo, que foi elaborado pela comunidade Portuguese Women in Tech (PWIT), em parceria com a Polar Insight e com o apoio da Deloitte, permite contextualizar a realidade das mulheres na tecnologia em Portugal.

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