Mundo melhor, mas que mundo?

Human Resources
26 de Agosto 2021 | 21:00
Mundo melhor, mas que mundo?

“Por um mundo melhor” é o mantra que orienta o Rock in Rio – de onde surge o Humanorama. E pensar o mundo é também, e acima de tudo, pensar o outro. E, nesse sentido, diverso é o mundo à nossa volta.

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Por Marco Antonio Vieira Souto, head de estratégia do grupo Dreamers, colunista da FastCompany Brasil, activista da questão do idadismo e dinamizador do Rock in Rio Humanorama

 

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Desde que tomei conhecimento da proposta do Humanorama, diversas questões passaram a povoar a minha mente, numa demonstração cabal de que o objectivo esperado de promover conversas que ajudem a despertar e ampliar consciências estava sendo alcançado quase que de imediato.

Afinal, a simples menção de imaginar um mundo melhor e mais humano, por si só, já nos leva para diversos campos de pensamento e actuação, bem como, até prova em contrário, pelo seu carácter amplo e forte propósito, traz para a conversa personalidades, ideias e vontades, o que já teria força para mover diversas barreiras e que, juntas ou somadas, podem ser realmente transformadoras.

“Por um mundo melhor” é o mantra que orienta o Rock in Rio – de onde surge o Humanorama –, desde 2001, num momento em que a conversa sobre propósito ou legado ainda era incipiente e restrita a pouquíssimas marcas e iniciativas.

Essa visão de futuro, que recebeu para o Humanorama o complemento do humano como objectivo e objecto a um só tempo, não tem fim. Sempre haverá algo a tornar ainda melhor o mundo e mais humano.

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Um dos pontos críticos dessa proposta tem sido sempre encontrar o locus que permita as conversas acontecerem com riqueza, diversidade e força. Mas talvez o mais crítico seja o fazer acontecer. E, nesse sentido, mais uma vez o Rock in Rio nos serve de inspiração e exemplo. Fazer acontecer o maior festival do mundo, sempre com algo novo, com melhorias contínuas, é determinante da cultura que tem no sonho a sua força motriz, mas tem na realização a sua melhor expressão.

Essa cultura é que agora se propõe transbordar nas diversas conversas e momentos do Humanorama. Mas nesse ambiente de possibilidades eu trago um ponto de reflexão que se apropria, parcialmente, da pergunta proposta pela escritora Claudia Werneck, especialista na questão da deficiência e também dinamizadora no Humanorama, no título de um livro escrito na década de 90, creio: Quem Cabe no Seu Todos?

Essa pergunta deixava muito evidente que, mesmo com o discurso afinado para nos mostrarmos como pessoas que valorizam e praticam a inclusão, nem sempre o nosso processo de inclusão era para todos. Era, sim, para o nosso todos. No Humanorama, a pergunta que surge, e que admite as mais variadas respostas, advém daí: um mundo melhor para quem?

No nosso dia-a-dia, olhando para o mundo à nossa volta, queremos de facto fazer um mundo melhor para todos? Pensar o mundo é também, e acima de tudo, pensar o outro. E, nesse sentido, diverso é o mundo à nossa volta.

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Mas o mundo mais distante do nosso dia-a-dia, também ele é objecto do nosso desejo de um mundo melhor? Com a pandemia falamos muito sobre empatia, sobre alteridade, sobre entender e respeitar o outro. Fomos além do pensamento e do discurso? Se não fomos, não tem problema.

O que nos trouxe até aqui, a cultura na qual fomos criados, as crenças que adquirimos ao longo da nossa existência não precisam de ser o que vai nos levar adiante. E é para esse adiante, para o futuro que vamos criar, que eu trago a provocação de olharmos para além do nosso quotidiano, das nossas realidades primárias.

Quem seria o outro mais distante do seu dia-a-dia? Consegue imaginar? Traga para a conversa. Vamos falar sobre ele.

Trabalhando com a diversidade, sem precisar de ir tão longe, como propus acima, frequentemente nos confrontamos com a invisibilidade de grupos de pessoas. Pessoas que estão à nossa volta e não vemos, não falamos, não pensamos num mundo melhor para elas.

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Eu tenho trabalhado com a questão do idadismo nos últimos anos, e sempre proponho às pessoas que pensem em quem tem mais idade e fazem parte dos seus círculos primários: família, trabalho, dia-a-dia.

Essas pessoas com mais idade são participantes das conversas, das decisões? Elas estão de facto presentes no seu quotidiano, no seu mundo, ou são deixadas num segundo plano, sem importância, mais como sinónimo de problema do que solução?

Um mundo melhor para essas pessoas pode ser simplesmente trazê-las para a conversa, para a vida no grupo, para as decisões. Dê-lhes espaço e importância e, provavelmente, o seu mundo será melhor. E mais humano também.

Amplie o olhar. Aguce a escuta. Repense. Recrie. Novas perspectivas e novas ideias em prol de um mundo melhor e mais humano exigem como premissa esse esforço.

Esse mundo, que é a um só tempo amplo, diverso, próximo, distante, comum, desconhecido, afável, arisco, simples, complexo, velho, novo. Contamos consigo. Nós, o mundo.

 

Este artigo foi publicado na edição de Agosto (nº.128) da Human Resources nas bancas.

Caso prefira comprar online, tem disponível a versão em papel e a versão digital.

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