Na vereda da fábrica: explorando a cartografia dos afectos na socialização humana

Opinião de Rui Roque, sociólogo

Human Resources
21 de Setembro 2026 | 18:00
Na vereda da fábrica: explorando a cartografia dos afectos na socialização humana

Por Rui Roque, sociólogo

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“ Sou um pouco de todos que conheci, um pouco dos lugares onde fui,

Um pouco das saudades que deixei. E sou muito das coisas que gostei “

                                                                                      (Antoine de Saint Exupéry)

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No seguimento da minha reflexão “Ancestrais – De lideradas a Líderes”, pretendo, com o texto que se segue, reflectir sobre o modo como o espaço geográfico com todas as suas envolventes (nomeadamente a cartografia dos afectos e a topografia emocional) influencia o indivíduo no seu processo de socialização.

Esta reflexão pretende ser o ponto de partida para uma pesquisa mais alargada no âmbito da geografia das emoções, cujo objectivo principal é apurar de que modo a geografia, a sociologia, e a psicologia condicionam/fomentam comportamentos como a resiliência, a superação, o empreendedorismo ou até mesmo a antifragilidade e “cresçam” com o indivíduo durante a sua socialização dentro e fora da comunidade de origem.

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O título “Na vereda da fábrica” é uma singela homenagem aos trilhos e aos caminhos que permitiram, no dia a dia, a vivência desta “industrialização” que proporcionou melhores condições de vida. Na Beira, designamos como vereda, um caminho estreito, que, no entanto, não é impeditivo de nos conduzir onde pretendemos chegar.

Seja na serra, seja na Raia Beirã, foram essas veredas que permitiram que se chegasse mais longe e que permitiram alcançar o que lhes era negado na beira da Serra.

Relativamente ao espaço físico, optei por uma análise num território de baixa densidade, situado nas fraldas da Serra da Estrela.

Este território estende-se desde a Nave de Santo António, passa por Unhais da Serra e termina na freguesia da Erada, no fundo é um prolongamento do Vale Glaciar de Alforfa, que é delimitado pela Nave e Unhais. A Erada surge como um prolongamento deste território.

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Não se trata de identificar apenas o desenvolvimento que a criação da fábrica têxtil de Unhais da Serra proporcionou não apenas aos residentes, mas também nas localidades à volta.

A barragem do padre Alfredo, que para os mais atentos na sua forma se assemelha a um coração, significa isso mesmo: a resiliência, a antifragilidade, a superação, e porque não o empreendedorismo, das gentes serranas que, independentemente do relevo e do clima agreste, tiveram o engenho de preparar as várias gerações, que singraram seja nos grandes centros (Lisboa e Porto), seja além-fronteiras, ou mesmo à escala mundial.

A barragem (na imagem), mandada construir pelo padre Alfredo, permitiu, além do fornecimento de electricidade à fábrica e à vila de Unhais da Serra, que tivessem acesso em primeira mão ao processo de industrialização que ocorreu no início dos anos cinquenta: “Foi lá no fundo, no Covão do Ferro, entalada entre o sopé do terroeiro e do Piorno, que se lançou a barragem para a geradora elétrica da Empresa de Transformação de Lãs, de Unhais.”

Estas gentes, através da simbiose com o meio ambiente e modos saudáveis de vida, tiravam o sustento da terra. Tiravam tudo o que a terra dava, fosse da agricultura, fosse da pastorícia, dos numerosos rebanhos que produziam a lã, que seria manufacturada não apenas pela indústria local.

Esta “transumância” de saberes, passada de geração em geração, permitiu que gradualmente o sentimento de pertença fosse crescendo em quem ali vivia, no sopé da Serra da Estrela, que Miguel Torga apelida de “Alta, imensa, enigmática”; a Estrela que é a origem de tudo: “Há rios na Beira? Descem da Estrela. Há queijo na Beira? Faz-se na Estrela. Há roupa na Beira? Tece-se na Estrela.  Há vento na Beira? Sopra-o a Estrela. Há energia elétrica na Beira? Gera-se na Estrela. Tudo se cria nela, tudo mergulha as raízes no seu largo e materno seio.”

O comportamento do homem desde sempre foi reflexo do meio envolvente, que não apenas condicionou o seu modo e viver, mas também a sua resiliência relativamente a esse mesmo habitat. Face a esta realidade, somos confrontados com algumas questões:

Qual o papel que a topografia emocional desempenha no processo cognitivo do indivíduo?

De que modo a topofilia e a topofobia influenciam a ligação do Homem ao espaço. A topofilia pode ser descrita como o elo afectivo positivo que temos relativamente ao espaço. Já a topofobia pode ser considerada como a aversão, ou o pânico que sentimos perante determinados espaços.

O que são territórios afectivos e de que modo a cartografia dos sentimentos influencia o indivíduo, na sua socialização?

Relativamente ao conceito de cartografia das emoções, optei por seguir a definição dada pela wikipédia: “a arte ou técnica de mapear o nosso mundo interior”, ou seja, a cartografia das emoções ajuda a localizar os sentimentos, permitindo uma melhor compreensão do interior do indivíduo e da forma como ele comunica com o exterior, através de registos visuais, científicos ou literários.

Os territórios afectivos correspondem aos espaços físicos ou simbólicos que ganham significado especial através das nossas emoções, das memórias, das nossas experiências vivenciadas na comunidade. Estes territórios não se limitam apenas ao espaço físico, embora possam estar condicionados por ele.

Ou seja, um território afectivo é fruto da simbiose do espaço e com a vivência na comunidade/ grau de sentimento de pertença e, quando este se estabelece, podemos concluir que teremos reunidas as condições que permitem ao indivíduo, a superação, a resiliência ou mesmo a antifragilidade.

Tal como refere Susana Teixeira: “O segredo da felicidade é conquistares ao longo da vida tudo aquilo que não se compra. Porque para se ser feliz não é preciso dinheiro, mas sim aquilo que o dinheiro não consegue comprar”.

 

Bibliografia

GUIA de PORTUGAL, 3º Volume – BEIRA II – BEIRA BAIXA E BEIRA ALTA – Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Janeiro 2014

MINEIRO, Adélia Carvalho: “Valores e Ensino no Estado Novo – Análise dos Livros Únicos”, Edições Sílabo, 1ª Edição Lisboa 2007.

ROQUE, Rui: “Ancestrais – de lideradas a líderes (parte I), Human Resources Julho de 2025

ROXO, Maria José: “Desertificação em Portugal”, Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa, setembro de 2023

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de: “O Principezinho”, Bertrand Editora Lda, Lisboa, Março 2024

SILVA, Manuel dos Santos: “Geografia dos Afetos”, Universidade da Beira Interior, Covilhã, Maio 2026

TEIXEIRA, Susana: “Tu és capaz”, Oficina do Livro, 3ª edição, Alfragide, Setembro 2022

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