Nadim Habib, Nova SBE: «A maioria das organizações tem pessoas a mais»

Margarida Lopes
21 de Março 2025 | 12:09

Nadim Habib, professor na Nova School of Business & Economics e keynote speaker da 29.ª Conferência Human Resources, que teve lugar ontem, no Museu do Oriente em Lisboa, destacou que «a maioria das organizações tem pessoas a mais, apesar de dizerem que têm falta de pessoas». E defendeu que “a missão da Gestão de Pessoas é tornar as organizações mais fortes”.

 

«A maioria das organizações tem 20 pessoas a mais. E é estranho porque a maioria das organizações dizem que faltam pessoas. E é complicado, porque quando há pessoas a mais aumenta a complexidade da organização, os custos tendem a aumentar, as carreiras tendem a estagnar, e muita gente tem mais reuniões e mais emails para lidar com a crescente complexidade. Foi assim que Nadim Habib deu início à sua intervenção, ressalvando que «e, de repente, há um problema horrível, em que há pessoas a mais, mas diz-se que há pessoas a menos nas organizações. E andamos todos zangados uns com os outros, a tentar perceber o caminho.»

E por isso, destacou o professor da Nova School of Business & Economics «é preciso ter esta conversa, que as organizações têm pessoas a mais.
E é uma conversa dura porque tipicamente os profissionais de recursos humanos tendem a gostar muito de pessoas, mas gostam menos da organização. E o papel tem mais a ver com a organização, do que com as pessoas. Eu sei que o nome é Human Resources, mas o facto é que utilizarem a palavra Resources depois do Human, não faz sentido porque não somos recursos, somos pessoas que querem trabalhar.»
Neste contexto, o responsável identificou que o principal desafio é a forma como são organizadas para as ambições do negócio. «O principal problema é que a forma de organizar muitas vezes não está à altura das ambições do negócio. E quando as ambições e a capacidade de organização não estão alinhadas, há um gap. E para tentar tapar o buraco contratam-se mais pessoas, o que não resolve o problema, porque a função essencial é construir organizações que entregam potencial. E por isso, a organização tem que ver com a forma como organizamos o trabalho juntos.»
Destacando que a grande preocupação «é que não são os recursos humanos que tratam disso. Há vários departamentos, todos organizados separadamente, mas isso não é organização. E quando questionados sobre o que é que querem dizer com organização, e começam a falar em processos, percebe-se que não estão a falar de organização. Estão a falar de uma coisa um pouco mais, ou menos sofisticada, que é controlo.»
Para Nadim Habib «controlar não é organizar» e «tirar férias, em Portugal, é um exercício fascinante, porque na essência o processo de marcação de férias não é para organizar, é para controlar para que ninguém tire dias a mais, assim como as políticas de trabalho remoto.» E por isso, defende que «é preciso falar, porque é preciso organizar com base nos desafios que surgem e não organizar com base na necessidade de sentir controlo, mas para melhorar a produtividade, porque ao melhorar a produtividade, os resultados da empresa crescem e ao crescer, consegue-se pagar melhores salários, investir mais em inovação, arriscar mais.»

O professor da Nova School of Business & Economics fez notar ainda que «actualmente há pessoas muito mais qualificadas e há mais tecnologia e por isso é preciso ter empresas muito mais rápidas e adaptativas. Empresas que precisam de muito menos pessoas porque se tiverem menos pessoas, vão ter carreiras muito mais interessantes». Frisando que «isto é muito contra-intuitivo, porque as pessoas não gostam desta ideia de ter menos pessoas nas organizações, tradicionalmente querem mais pessoas. Mas são precisas menos pessoas para ter carreiras mais interessantes para as pessoas. Para ter mais produtividade para as pessoas.»

O responsável deixou ainda o alerta que «é preciso redesenhar a organização» e destacou três áreas em que se tem visto uma enorme experimentação na área de redesenhar a organização.
A primeira são organizações muito mais planas, muito mais flat. E porquê? «Porque não é precisa tanta hierarquia. A Igreja Católica tem cinco níveis hierárquicos e factura centenas de milhões. Há empresas portuguesas que têm 17 ou 18 níveis hierárquicos. São precisas organizações mais flat, mas isto levanta desafios significativos. Porque cada pessoa que gere equipas, quando está numa organização com uma estrutura mais flat, passa de uma média de quatro pessoas para 17 pessoas a reportar a si,  e é preciso mudar a forma de liderar pessoas. E por isso, é importante  investir em formar novos líderes porque vai-vos permitir criar uma organização com menos níveis hierárquicos, que vai permitir trabalhar com menos pessoas e já mais rentabilidade.»
A segunda é a chamada matriz. Segundo Nadim Habib «nesta lógica, um colaborador pode estar nos recursos humanos e pode trabalhar uma equipa transversal, que trabalha clientes de outros mercados. Mas a matriz implica trabalhar em duas equipas. A matriz mais clássica é a comissão executiva. Tem o CFO, tem o Chief Human Resources Officer, o Chief Marketing Officer, e cada um deles tem uma equipa.»
Por fim, a terceira área que precisa de ser trabalhada é a que o responsável gosta de chamar de «fluxo de informação». «Pede-se às pessoas para serem proactivas, para trazerem soluções e não problemas, até se diz às pessoas que podem cometer erros. Se for uma empresa mais sexy, dizem que é bom cometer erros. Mas depois não se coloca informação nas mãos das pessoas. Dizem às pessoas que têm de tomar mais decisões, mas nenhuma pessoa tem no seu job description, quais os tipos de decisões que esperam que tomem no seu dia-a-dia», refere o responsável
Para que isto seja possível, o professor da Nova acredita que os recursos humanos têm de ser mais estratégicos. «É preciso começar a perceber que a função dos Recursos Humanos é tornar a organização mais forte porque só assim é que terá sucesso». Em vez disso, muitas vezes nos recursos humanos e espírito é, «isto é uma fase difícil, é preciso aguentar a organização até as coisas melhorarem» mas na opinião do académico «não vão melhorar, porque não estão a fazer nada para melhorar. E tornam o trabalho duro». O responsável não tem dúvidas «não há falta de talento, quando são precisas menos pessoas, o que há é uma enorme oportunidade para transformar, que não é aproveitada porque andamos ocupados com outras coisas.»
Por último, Nadim Habib salientou que «as empresas de enorme sucesso, muitas vezes emergem de um processo de cinco, seis anos a fazer as coisas certas, dia após dia, gradualmente, e um dia os resultados começaram a aparecer. E é por isso que é difícil porque é um trabalho invisível». Neste sentido e para concluir o professor utilizou uma citação, de Ernest Hemingway, no Velho e o Mar, «alguém declara falência, um amigo pergunta-lhe como é que foi esta falência, ele diz duas formas, gradualmente e depois de repente».
E deixou claro que «este é o grande desafio das organizações», alertando que «tem de ser feito em equipa, e por isso que os recursos humanos têm uma coisa que muitos outros departamentos não têm, têm uma empatia profunda, têm um espírito de equipa profundo. Mas em vez de tentar salvar pessoas e ajudar pessoas, tentam redesenhar a organização em que as pessoas podem crescer, para um dia ser muito mais fácil atrair o produto.»
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