Não trate as outras pessoas como gostaria de ser tratado

Por Rita Vilas Boas, gestora

 

Olhe para o seu lado, e observe se as pessoas à sua volta são parecidas consigo, com hábitos similares e formas de pensar; se têm estilos de vida idênticos. Agora imagine que, em vez de portugueses são chineses, suíços, dinamarqueses ou angolanos.

Aprender a lidar com as diferentes culturas foi fundamental para a minha integração e crescimento profissional, mas também pessoal. Uma das aprendizagens que gostaria de partilhar é a forma de se construírem as relações. Se em países como na Suíça ou na Dinamarca é comum as pessoas irem para uma reunião, não se conhecerem, discutirem abertamente os assuntos, tomarem decisões e chegarem a acordo, já na China ou em Angola é tudo muito diferente. Na China chama-se Guanxi; em Angola tem conceitos mais alargados relacionados com família cuja expressão “estamos juntos” sumariza bem. Ou seja, nunca devemos assumir que a forma de fazer negócios na China ou em Angola vai ser apenas numa reunião de trabalho. Leva muito tempo até criar uma relação de confiança, tendo-se por vezes de “perder a cara”.

A primeira vez que fui a Chengdu (capital da província de Sichuan, com 87 milhões de habitantes), acabámos por jantar uns oito da equipa, num hot-pot local. O hot-pot é um tipo de panela ou fondue, que muitas vezes está incorporado nas mesas dos restaurantes, tornando mais fácil mergulhar os garfos. Sichuan também é uma região conhecida pela pimenta, dando nome a uma. Eu não sabia, mas o objectivo dos colegas chineses, ao levar-me ali, era apenas um: fazer-me “perder a cara”. Dessa forma, podíamos todos baixar a guarda num momento social, e percebermos como somos e quem somos, por detrás das pessoas profissionais, de forma a criar relações “reais”, tão importantes na Ásia.

Um dos hot-pots mais tradicionais em Chengdu é o de tripas ou intestinos. O que a equipa não esperava era que eu começasse tranquilamente a mergulhar os “folhinhos” nas panelas cheias de picante. Expliquei então que tinha crescido no Porto, onde as tripas são o prato tradicional, e que o meu pai era angolano, e por isso cresci com picante desde miúda. Não tinha sido desta vez que “perdi a cara”.

Também recordo a vez em que, para comemorar o dia da mulher africana, decidimos comprar um pano tradicional angolano para cada uma das mulheres da equipa, com a tarefa de transformarem o tecido numa peca de vestuário, com encontro marcado umas semanas depois daquela data. Tendo em conta toda a azáfama do dia-a-dia, as inúmeras tarefas e obrigações das mulheres da equipa, sobretudo fora do trabalho, não esperava ver a adesão de todas. Não só vestiram com orgulho os panos, como muitas delas tinham criado peças de vestuário incríveis. Foi um momento que criou laços de união entre toda a equipa. Ao ponto de os homens terem ficado com ciúmes (dos bons!) e também quererem fazer parte do projecto. Terei de os incluir na próxima vez.

Outra aprendizagem a referir tem que ver com o protocolo. Se, numa reunião com americanos, olhar nos olhos e ser assertivos é a maneira de sermos respeitados, já na China, a arte do protocolo é muito mais subtil. No momento em que as pessoas se conhecem, não só na China como em toda a Ásia, é comum trocarem cartões de visita. Deve-se receber com as duas mãos, fazer uma leve vênia, em forma de respeito e olhar o cartão de forma a saber o nome da pessoa e entender a posição que esta ocupa. Nunca me vou esquecer da primeira vez que um empresário chinês me deu um cartão de visita, anos antes de lá viver. Peguei com uma mão e não olhei para o cartão e percebi imediatamente que tinha perdido aquela pessoa para sempre. Este respeito inicial duma relação é fundamental. Nunca mais cometi o mesmo erro e abracei este costume de tal forma que passei a adoptar esta atitude em ambientes ocidentais e tem sido um excelente quebra-gelo.

E por isso acredito que não devemos tratar os outros como nós gostaríamos de ser tratados, mas sim de os tratar como eles gostariam de ser tratados. Esta é talvez a lição mais importante quea aprendi enquanto líder e gestora.

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