Nem tudo, em todo o lugar, ao mesmo tempo, a toda a hora

Human Resources
10 de Agosto 2023 | 12:50

Não dá para continuar a assistir a este filme. Continuarmos a fingir que somos super-heróis e que podemos ter/ser/fazer tudo, em todo o lugar, ao mesmo tempo, a toda a hora. Temos de fazer as nossas escolhas e viver com elas. Mesmo que não ganhemos um Óscar, ganhamos em saúde física e mental.

 

Por Rita Oliveira Pelica, Chief Energy Officer ONYOU & Portugal Catalyst – The League of Intrapreneurs

 

Normalizar que todos temos superpoderes e somos super-heróis pode significar o fim da aventura. Pode levar-nos ao extremo e impedir-nos de virar novas páginas. Ou será este vilipendiar um novo normal? Colocarmo-nos uma carga física, cognitiva e emocional tal que perdemos clareza no horizonte da nossa observação e na capacidade de decisão.

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Se ao menos eu tivesse visto isso… De “fogo em fogo”, andamos em “modo avião” e em piloto-automático, com a cabeça nas nuvens, enquanto perdemos a intencionalidade do que fazemos e porque o fazemos. Mesmo sabendo que todas as escolhas implicam uma perda. Aliás, precisamente por isso, as nossas decisões deveriam ser mais estratégicas e pensadas. Algo ficará sempre para trás. Aceita e avança para a linha seguinte. Ou fica a pensar sobre isto… em modo pausa.

Em que moldura quero encaixar? Naquela em que escolho os meus limites, em que os estico, mas não demasiado até uma eventual ruptura.

Sem ressentimentos, penso no mais recente livro de Daniel H. Pink, “O poder do arrependimento”, e na força destas palavras: «Mesmo existindo arrependimentos nascidos de atitudes por nós tomadas, temos sempre a hipótese de recalibrar o presente – de carregar Ctrl+Z no nosso teclado existencial.» O arrependimento torna-nos humanos e pode ajudar-nos a tomar melhores decisões. Agora, escolha!

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No fundo, sabemos que, consistentemente, não podemos ter tudo, a toda a hora. Somos humanamente limitados, física, emocional, comportamental e socialmente. Com a cabeça no ar, não o admitimos. E sem quaisquer vírgulas ou reticências, intrincadas nas linhas que vamos escrevendo e nas histórias que (nos) vamos contando, continuamos a correr, desenfreadamente, sem parar para utilizar pontos de exclamação e de interrogação. E apreciar o dia-a-dia.

E se, realmente, as coisas pudessem ser diferentes? Sem culpas, apenas com escolhas e passos à frente, atrás, aos lados. Mas caminhando com segurança.

Em modo multitasking é difícil sentir as quatro estações do clima organizacional, aproveitando os melhores momentos para semear e planear, e, a posteriori, executar e colher. Tudo, em todo o lugar, ao mesmo tempo, parece antes a receita perfeita para o fracasso. É como comer morangos todo o ano. Para quando o fim desta ilusão?

E se parássemos para pensar? E sentir as dores? As nossas e as da organização? Com o dedo na ferida. Qual é a estratégia a seguir? Caminhar por caminhar não é estratégia, é apatia.

Aceitar que menos pode ser mais é sinal de inteligência. Humana. Assumir as decisões que se tomam, mesmo que não possamos ter tudo. Dizendo não à nossa faceta mais intempestiva. Decidindo e negociando comigo, não porque alguém tem de ceder, mas porque a isto se chama aprender.

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Na minha perspectiva, as pessoas devem escolher os papéis que querem interpretar. Tal como a fruta que querem comprar. E as decisões que querem tomar. Há demasiados figurantes pelas organizações…

Filmes à parte, espero não me arrepender de ter escrito isto, mas entre o que fiz e o que podia ter feito, escolho a primeira opção. E não é uma questão de coragem, é uma questão de princípio, mesmo que não ganhe um Óscar.

 

Este artigo foi publicado na edição de Julho (nº. 151) da Human Resources, nas bancas.

Caso prefira comprar online, tem disponível a versão em papel e a versão digital.

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