No mercado de trabalho, a competência mais importante já não é técnica

Opinião de Melissa Pairazamán, co-fundadora da KAI e da Bamble

Human Resources
24 de Setembro 2026 | 11:00
No mercado de trabalho, a competência mais importante já não é técnica

Por Melissa Pairazamán, co-fundadora da KAI e da Bamble

Escolha a Human Resources como fonte preferida no Google Escolher ›

 

Durante muito tempo, o conhecimento técnico foi a principal moeda de troca no mercado de trabalho. A maior parte das decisões de recrutamento começava pela mesma pergunta: “o que é que esta pessoa sabe fazer?”. Hoje, essa pergunta continua a ser importante. Mas deixou de ser suficiente.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

As empresas já não recrutam da mesma forma que recrutavam há cinco ou dez anos. Nessa altura, as competências técnicas eram o principal factor de diferenciação. As chamadas soft skills já eram valorizadas, mas tinham um papel secundário. O ponto de viragem chegou com a democratização da Inteligência Artificial (IA). Muitas das tarefas que antes exigiam competências altamente especializadas já podem ser executadas com o apoio destas ferramentas. Não a cem por cento, claro. Continua a ser indispensável alguém que formule os inputs certos, interprete os resultados e audite a qualidade do trabalho produzido. Mas o perfil exigido para isso mudou.

Esta transformação é confirmada pelos dados. Segundo o World Economic Forum, cerca de 39% das competências-chave no mercado de trabalho vão mudar até 2030, sendo o pensamento analítico, a resiliência e a liderança algumas das competências com maior crescimento. Já a McKinsey estima que, até ao final da década, cerca de 27% das horas de trabalho na Europa poderão ser automatizadas, ao mesmo tempo que a procura por competências sociais e emocionais deverá crescer 11%.

Para mim, a discussão não é (nem nunca foi) sobre substituição. Foi sempre sobre integração estratégica. As empresas não procuram profissionais que entreguem o seu trabalho à IA. Procuram pessoas capazes de utilizar estas ferramentas para criar mais valor. Porque a tecnologia pode acelerar processos, mas continua a ser a pessoa que traz a experiência, o pensamento crítico e o contexto necessários para decidir se um resultado faz (ou não) sentido. Sem esse elemento humano, a IA perde grande parte do seu valor.

Continue a ler após a publicidade

Sim, a IA vai substituir determinadas tarefas. Tal como aconteceu em todas as grandes revoluções tecnológicas, as tarefas repetitivas e previsíveis serão cada vez mais automatizadas. Isso faz parte da evolução natural. Mas daí até concluir que todas as competências estão em risco vai uma distância enorme.

Até porque há uma dimensão que, na minha opinião, continua a ser pouco discutida: a ética. A pergunta não deve ser apenas “o que é que a IA consegue fazer?”. É também “o que é que deve fazer?”. Existem decisões que continuam a exigir responsabilidade e sensibilidade. A tecnologia pode apoiar essas decisões. Não deve substituir quem responde por elas.

Continue a ler após a publicidade

A verdade é que reconhecer o potencial da IA não significa saber utilizá-la estrategicamente. É aqui que muitos profissionais continuam a falhar: tratando-a como uma buzzword. De repente, a IA passou a aparecer em todo o lado: em currículos, entrevistas e apresentações. Mas, quando aprofundamos a conversa, poucos conseguem explicar como é que essas ferramentas criam valor no seu trabalho.

Continue a ler após a publicidade

Abrir o ChatGPT, o Claude ou qualquer outra plataforma não significa saber trabalhar com IA. Isso seria o equivalente a dizer que alguém sabe fazer apresentações porque conhece o PowerPoint. A utilização estratégica começa muito antes da ferramenta. Começa por compreender o próprio trabalho: identificar tarefas repetitivas, oportunidades de eficiência e aquilo que continua a exigir julgamento humano. Só depois faz sentido escolher a tecnologia.

É precisamente por isso que as soft skills nunca foram tão importantes. O pensamento crítico e estratégico, a comunicação, a criatividade, a empatia e a liderança são hoje algumas das competências mais difíceis de encontrar e mais valorizadas pelas empresas. Porque a verdade é que nenhuma ferramenta consegue substituir a capacidade de inspirar uma equipa, gerir relações humanas, tomar decisões num contexto de incerteza ou adaptar uma mensagem ao interlocutor que temos à nossa frente.

No fundo, muita coisa depende de uma única capacidade: continuar a aprender. E há um conceito que ajuda a explicá-la particularmente bem: a neuroplasticidade. Ao longo de mais de dez anos a trabalhar com startups, vi esta capacidade de adaptação fazer toda a diferença. Vi equipas mudarem completamente de estratégia e empresas passarem de situações muito difíceis para situações rentáveis graças à capacidade de experimentar, aprender rapidamente e utilizar os recursos disponíveis de forma criativa.

Continue a ler após a publicidade

Ao longo destes anos, encontrei essa capacidade de adaptação em contextos muito diferentes. Tanto na América Latina – onde iniciei o meu percurso – como em Portugal, há uma enorme capacidade de fazer muito com pouco. Essa agilidade tornou-se uma vantagem competitiva que nenhuma formação académica, por si só, consegue garantir.

Costuma dizer-se que a IA vai mudar o mercado de trabalho. Na verdade, já mudou. Não porque tenha tornado as competências técnicas irrelevantes, mas porque nos obrigou a aceitar uma realidade que durante muito tempo ignorámos: o conhecimento tem prazo de validade.

Quem quiser continuar profissionalmente relevante não precisa de correr atrás de todas as novas ferramentas. Precisa de desenvolver a capacidade de aprender continuamente. E aprender não significa apenas dominar a tecnologia mais recente. Significa cultivar curiosidade, desafiar as próprias ideias e manter a capacidade de evoluir. Porque essa vai passar a ser a competência que dá valor a todas as outras.

Partilhar


Mais Notícias