«O conceito de bem-estar nas organizações tem que se traduzir na sua cultura», defende Mariana Canto e Castro, da Randstad Portugal

Na Randstad, a aposta no bem-estar começou «com conceitos óbvios e de escala mais pequena», que foram aprimorando numa abordagem que pretendem que seja diferenciada. Hoje, existem três “hubs” principais de bem-estar, integrados na sua actividade core: Vida, Saúde, Valores.

 

Bem-estar, substantivo masculino composto hifenizado; refere-se a um estado de boa disposição, satisfação, conforto e segurança, sendo sinónimo de aconchego, comodidade, conforto, felicidade, satisfação, segurança, tranquilidade, saúde, contentamento, alegria e euforia, entre outras emoções.

Bem-estar corporativo é o que acontece quando agarramos no conceito que, de modo mais imediato, associamos aos nossos momentos de lazer, acompanhados por aqueles de quem mais gostamos ou a usufruir da nossa própria companhia, e o transportamos para dentro de uma empresa. Este será sempre um local de trabalho, mas importa que seja possível recriar um ambiente (e aqui gostaríamos de o pensar de uma forma que contemple a sua parte desmaterializada e não tanto o aspecto das instalações propriamente ditas), uma cultura, de conforto, tranquilidade e paz de espírito.

Hoje, com a nova forma de trabalhar que vivemos por força da pandemia, este conceito de bem-estar tem de se traduzir muito na cultura da empresa e na disponibilização aos nossos colaboradores de produtos ou conceitos que os façam sentir-se bem, integrados, parte de, a contribuir para. Igualmente, um ambiente de trabalho seguro onde podem livremente expressar as suas opiniões e testar alguns modelos profissionas, sem medo de que o erro lhes seja apontado.

O sentimento de identidade e pertença em relação à empresa tem de existir de forma cada vez mais profunda e arreigada, pois para aqueles que, como na Por: Randstad Portugal (e em todas as Randstad espalhadas pelo mundo), se encontram a trabalhar em remoto, a existência de fios condutores comuns é precisamente a base para a construção de uma rede de conexões relativamente imateriais, que nos faz sentir ligados uns aos outros, mais próximos, com a sensação de pertencermos a algo maior e que nos une e aproxima, ainda que fisicamente mais distantes.

 

Passo a passo
Quando olhamos para a forma como temos vindo a construir este conceito na Randstad Portugal, verificamos que conseguimos separar o mesmo em três grandes “hubs”, mas não podemos, também, deixar de olhar para a forma como começámos. Ao fazê-lo, verificamos que percorremos um grande caminho.

Começámos com conceitos óbvios e de escala mais pequena e fomos aprimorando uma abordagem que pretendemos seja diferenciada, para que os nossos colaboradores possam sentir uma experiência de bem-estar enquanto são parte da nossa equipa.

Manicure simples ou unhas de gel? Era esta a pergunta que ouvíamos quando se entrava no pequeno gabinete que, na nossa sede, em Lisboa, era partilhado pelas consultas de medicina do trabalho e num canto passou a ter uma decoração mais “zen” para criar um ambiente e espaço de, lá está, bem-estar.

Acreditamos que seja um marco quase incontornável quando falamos de bem- -estar corporativo e também nós cumprimos essa etapa; não oferecíamos o serviço às nossas colaboradoras (75% da nossa população), mas estabelecemos protocolos que o tornavam extremamente apetecível, com a vantagem de, no caso da sede, em Lisboa, implicar apenas uma deslocação de uns andares para outros para poder usufruir do mesmo.

Sendo o espaço das consultas de medicina do trabalho, evoluímos rapidamente para a oferta de consultas de medicina curativa duas vezes por semana, situação essa que conseguimos reproduzir também nos escritórios do Porto, tendo, assim, dois focos geográficos onde os colaboradores (zona Norte ou Sul) podiam agendar as suas consultas. Com a actual situação de pandemia, e por entendermos que a saúde é algo de verdadeiramente essencial, conseguimos já recuperar este benefício que interrompemos durante os meses de confinamento; funciona agora de novo, num modelo de consultas virtuais que oferece segurança e conforto para todos, e alargou a sua abrangência geográfica verdadeiramente a todo o País de forma mais imediata.

Por outro lado, e regressando ao gabinete onde tudo começou, o tal canto com decoração mais “zen” passou a ser dividido com um serviço de massagens terapêuticas de alívio da dor e recuperação desportiva, bem como de relaxamento muscular.

Estava preparado o terreno para o nosso passo seguinte, na sequência de obras de recuperação de todo o edifício da sede: a existência de um pequeno ginásio/sala de treino, preparado com algum equipamento básico, mas necessário para um “workout” de bem-estar e manutenção de forma física. O espaço funcionava em horário alargado relativamente ao horário de trabalho e também durante o mesmo, pois por ser um espaço pequeno permitia apenas a permanência de sete colaboradores em simultâneo, sendo esse também o dimensionamento dos balneários de apoio para que a experiência de bem-estar fosse completa.

Com a pandemia, o espaço não se encontra a ser utilizado, mas a gestão do mesmo – feita através no nosso software de gestão de escalas e turnos (“Youplan”) – revelou-se um caso de sucesso, bem como o facto de termos precisamente permitido a utilização do mesmo também durante o horário de trabalho; responsabilidade, gestão de tempos, adopção de ritmos próprios, são igualmente, na nossa perspectiva de gestão de Recursos Humanos, uma forma de atribuição de bem-estar.

Um refeitório com alimentação saudável, biológica e vegetariana a preços reduzidos face ao mecado, por via de um co-pagamento da empresa; protocolos com farmácias para aquisição de remédios a preços mais vantajosos; oferta de presente de aniversário e casamento aos colaboradores, bem como oferta de presente aquando do nascimento de filhos, são alguns exemplos de outros benefícios de que as nossas pessoas usufruem, tal como seguro de saúde.

 

Três grandes “hubs”
Este foi o caminho que percorremos naquilo que consideramos quase que “higiénico” no proporcionar de experiências de bem-estar aos colaboradores, uma vez que a nossa grande aposta foi a criação dos três principais “hubs” de bem-estar e a forma como os integramos com aquilo que é a nossa actividade “core”. Consideremos, então, para início de conversa:

  • Hub bem-estar Vida;
  • Hub bem-estar Saúde;
  • Hub bem-estar Valores.

E vamos tentar compreender como estão pensados.

Hub bem-estar Vida. Foi pensado para abranger situações de impacto directo na vida dos colaboradores, com uma associação de bem-estar (no sentido genérico) a apoios mais materiais, mas que sabemos que têm, por sua vez, um impacto positivo directo na forma como, mental e emocionalmente, sentimos o bem-estar:

– Adopção de uma plataforma electrónica de benefícios, um market place (ao qual têm acesso o colaborador e até cinco outros membros do seu agregado familiar, desde que maiores de 18 anos, com contas independentes) onde, através de um vastissímo número de parceiros, é possível fazer compras beneficiando de preços mais reduzidos e promoções e descontos competitivos que revertem ainda para um sistema de cash-back a ser utilizado dentro da mesma plataforma. Com isto não estamos a promover o consumismo. Pela escolha dos parceiros que integram a plataforma, a mesma é um local onde se podem adquirir bens essenciais gastando menos, o que é sempre algo que promove tranquilidade em termos de gestão da vida diária.

– Ainda dentro deste “hub”, ocupámo-nos da questão de aprendizagem e valorização de competências. Através de um protocolo com a editora Leya, possibilita-se a aquisição de livros escolares quer com desconto, quer através da utilização dos vouchers MEGA. Os portes são suportados pela empresa, para onde todas as encomendas são enviadas, e, havendo lugar ao pagamento de alguma verba, a mesma pode ser descontada em quatro meses no salário dos colaboradores, tornando, desse modo, menos pesado o impacto financeiro de aquisição deste tipo de material escolar.

– Por outro lado, porque os nossos próprios colaboradores também devem ser olhados através do conceito do “long life learning” e de “up-skilling”, apostamos na valorização de competências através do projecto #BackToSchool. Todos os anos é disponibilizado um determinado número de “bolsas de estudo”, às quais os colaboradores se podem candidatar (preenchendo determinados requisitos exigidos), tendo em vista a valorização dos seus graus académicos, através do pagamento de uma verba destinada a pagar, parcial ou integralmente, as propinas académicas dos próprios colaboradores. Demos prioridade a apoiar quem não tivesse o 12.º ano concluído, seguidamente a quem quissesse iniciar estudos ao nível da licenciatura, e actualmente a quem a queira terminar. Esperamos um dia podermo-nos dedicar apenas a quem pretenda fazer pós-graduações, mestrados, ou até, quem sabe, doutoramentos.

– O último programa a destacar neste “hub” será o Pack Chupeta. Pelas mais variadas circunstâncias, sabemos que a infertilidade é algo que afecta um número considerável de pessoas na nossa população em geral; sabemos também que muitos tratamentos nessa área são dispendiosos e representam um peso acrescido no gerir de uma situação que, já por si, tem alguns desafios de gestão emocional, pelo que facultamos igualmente um determinado número anual de bolsas de apoio financeiro, através de uma verba fixa, a atribuir a colegas que (independentemente do sexo) nos abordem apresentando o seu caso e explicando o porquê da necessidade daquele apoio.

Acreditamos conseguir fazer a diferença; e acreditamos porque existe neste momento um bébé, e um segundo a caminho, directamente resultantes da intervenção deste programa.

Estas são situações que, quando não apoiadas devidamente, podem gerar stress, angústia, ansiedade. Decerto que não só não proporcionam bem-estar, como têm um impacto directo e imediato na nossa saúde. Será então o momento de accionar o Hub bem-estar Saúde.

Hub bem-estar Saúde. Neste âmbito, ocupamo-nos da saúde dos colaboradores de forma mais estruturada. E se o fazemos no ponto de vista físico, através da oferta da vacina da gripe a todos os que a pretendam tomar, dedicamos especial atenção à saúde e bem-estar mental e emocional de quem connosco trabalha. Apoiamos e procuramos ajudar em diversas perspectivas, consoante a situação em si mesma. Damos suporte ao nível do life/professional coaching, patrocinado pela empresa e acompanhado por um coach externo à Randstad; apoio clínico psicológico junto de profissionais de saúde habilitados para o efeito – o qual nalguns casos beneficia de protocolos realizados, reduzindo em quase 50% os valores de mercado pagos, noutros integralmente custeados pela Randstad –, sendo situações directamente identificadas pela equipa de Recursos Humanos ou que resultam de solicitações directas dos próprios, que depois são avaliadas no sentido de validação do apoio que pode ser dado pela empresa; ou ainda, tutoriais internos orientados para diversas temáticas mais transversais e que nos surgem com recorrência – a oferta de sessões de coaching financeiro é algo que destacamos pela relevância e importância que as mesmas assumem perante os colaboradores.

Hub bem-estar Valores. Este hub contribui de forma significativa para a forma como queremos que alguém que pertence à nossa empresa se sinta em relação a determinados aspectos, contribuindo também para um aumento do seu bem-estar, quer por compreender a forma como a empresa se posiciona, quer por se identificar com a mesma e pretender continuar a desenvolver-se pessoal e profissionalmente connosco.

E aqui temos de considerar muitas variáveis. Desde a “Visão” e “Missão” da Randstad, passando pelos seus “Valores” (éticos) – conhecer, confiar, servir, promover em simultâneo os interesses de todos os intervenientes e buscar a melhoria e perfeição –, e culminando no nosso objectivo final, como empresa: até ao ano 2030, tocar a vida profissional de 500 milhões de pessoas em todo o mundo.

E, para nós, a forma como tocamos essa vida profissional de tantas pessoas em todo o mundo só pode ser uma: através da promoção intensiva de políticas e medidas de diversidade e inclusão; pela subscrição do Global Compact Act das Nações Unidas; pela prática de recrutamento inclusivo, chegando a todas as franjas da população e considerando, inclusivamente, candidatos que em circunstâncias usuais ficam quase automaticamente fora de processos de recrutamento – a nossa área de Impacto Social trabalha todos os dias com esta finalidade em vista.

Podemos ficar com a ideia que vivemos numa empresa perfeita e sem problemas. Por muito que emocionalmente a consideremos excelente, a nossa objectividade obriga-nos a reconhecer que temos espaço para melhorar e fazer diferente, fazer mais, fazer melhor. Acima de tudo, aprendermos com os nossos erros e a corrigi-los. Para isso, existe a nossa Misconduct Reporting Policy e a sua “Linha de Integridade” para registo de possíveis violações (via telefónica ou via web), a qual incentivamos que seja profusamente usada de forma a podermos tomar conhecimento das coisas que fazemos e que carecem de melhoria.

“Setting the standard”, é nisso que acreditamos. Queremos ser líderes; líderes não só de mercado, mas de opinião; líderes de boas práticas; líderes em sermos a melhor empresa para trabalhar e com que trabalhar. Ser líder exige muito. Só os melhores o conseguem. É lá, entre esses melhores, que queremos estar. Que precisamos de estar! E querer não basta. Temos de fazer acontecer. Somos uma empresa de pessoas, que trabalha com pessoas e para pessoas – o ser humano é o nosso foco, a nossa actividade “core”.

Para isso, os nossos colaboradores não podem estar cansados e angustiados; não se podem sentir assustados ou com medo; aflitos por não saberem se o dinheiro chega ao fim do mês; preocupados sobre a sua capacidade de entrega profissional, ansiosos com temas de saúde ou de gestão familiar. Precisamos que estejam focados, motivados, envolvidos.

Precisamos que se sintam tranquilos e descansados. Que saibam que têm apoios, seja qual for a dificuldade que atravessam, que há uma estrutura empresarial que se importa verdadeiramente com eles e que não os deixará cair. Precisam de saber que ninguém está sozinho: nem na doença, nem na adversidade, nem na vida, nem nos problemas. Precisam de saber que caminhamos como equipa, lado a lado. E isso é para nós, também, uma das principais fontes de bem-estar!

Esta artigo faz parte do Caderno Especial “Bem-estar nas empresas”, publicado na edição de Novembro (n.º 119) da Human Resources, nas bancas.

Caso prefira comprar online, pode comprar a versão em papel ou a versão digital.

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