Por Daniel Sá, director executivo do IPAM
O mercado de trabalho mudou. Rápido. Profundo. Irreversível. O ensino superior não. E isso já deixou de ser um problema académico. É um problema económico.
Segundo o “Future of Jobs Report” do World Economic Forum, 39% das competências centrais dos trabalhadores vão mudar até 2030. Quase quatro em cada dez. Em apenas cinco anos.
No mesmo relatório, 86% das empresas dizem que a inteligência artificial vai transformar profundamente os seus negócios. A maioria já sente falta de talento com as competências certas.
O paradoxo é simples. Nunca se falou tanto de qualificação. Nunca houve uma distância tão grande entre o que se ensina e o que o mercado precisa.
A OCDE confirma: o skills mismatch, ou seja, o desencontro entre formação e trabalho, continua a penalizar produtividade, salários e competitividade. Não é um problema marginal. É estrutural.
Enquanto isso, muitas universidades continuam organizadas por lógicas que fazem cada vez menos sentido: ciclos longos, currículos rígidos, validações lentas, decisões tomadas para proteger o sistema e não para servir o mercado.
Formamos para diplomas. Quando o mercado contrata por competências. Formamos para funções. Quando as funções desaparecem. Formamos para carreiras lineares. Quando o trabalho se tornou tudo menos linear.
A McKinsey é clara: até 2030, até 30% das horas de trabalho actuais podem ser automatizadas, aceleradas pela IA generativa. Profissões inteiras vão mudar de perfil. Outras vão simplesmente desaparecer.
Perante isto, insistir em modelos educativos lentos não é conservadorismo. É irresponsabilidade. As empresas já perceberam.
Cada vez mais recrutam por competências, não por títulos. Grandes grupos internacionais estão a remover exigências formais de grau académico porque sabem que isso já não garante adequação ao papel.
O ensino superior, em demasiados casos, continua a agir como se tivesse tempo infinito. Não tem. Relevância não se herda. Constrói‑se. E constrói‑se com velocidade. O futuro não vai esperar que conselhos científicos deliberem. Não vai aguardar ciclos de acreditação. Não vai respeitar tradições.
Ou o ensino superior acelera, ou torna‑se periférico. Pode manter prestígio interno durante algum tempo. Mas perderá impacto real. E quando uma instituição forma pessoas para um mercado que já não existe, o custo não é dela. É dos estudantes. Das empresas. Do país.
A velocidade deixou de ser uma vantagem competitiva. Passou a ser uma condição mínima de sobrevivência.














