Por Kelly Soyan, VMO (Value Management Office), Inetum Portugal
A gestão de projectos deixou de ser apenas uma disciplina de controlo, planeamento e execução. Hoje, é uma das frentes onde se decide a capacidade das organizações para transformar tecnologia em valor real. Num contexto marcado por ciclos de decisão mais curtos, maior pressão sobre resultados e uma evolução acelerada da Inteligência Artificial, gerir projectos passou a exigir mais do que método: exige visão, critério e liderança humana.
Neste cenário, a Inteligência Artificial já não pertence apenas ao domínio da experimentação. Passou a fazer parte do dia a dia dos projectos e dos serviços, com impacto directo nas decisões, nos processos e nas expectativas dos clientes. A sua relevância está menos na novidade da tecnologia e mais na capacidade de a aplicar com pragmatismo, responsabilidade e foco em resultados concretos.
É neste contexto que o papel do gestor de serviços e do project manager se torna mais exigente. O valor não está apenas em cumprir prazos ou controlar tarefas, mas em garantir uma entrega consistente e uma leitura clara do que cada projecto deve realmente resolver. Para isso, competências técnicas são essenciais, mas já não chegam: é preciso colaborar, questionar, adaptar prioridades e manter resiliência perante mudanças constantes.
Um gestor de projecto deve ter uma visão holística e crítica. Deve compreender o contexto, antecipar riscos e perceber que nem sempre aquilo que é pedido corresponde ao que o cliente realmente precisa. Questionar não significa bloquear. Significa clarificar, alinhar expectativas e proteger o valor final da entrega.
Perante um pedido de implementação rápida de uma nova solução, por exemplo, importa perceber se o objectivo é reduzir custos, melhorar a experiência do utilizador, aumentar a eficiência operacional ou responder a uma obrigação regulatória. Essa leitura muda o desenho do projecto e os indicadores de sucesso.
A IA pode ajudar neste caminho, ao apoiar tarefas como planeamento, estimativas, validação documental, priorização ou reporting. Com isso, o foco do gestor passa da produção manual de informação para a sua avaliação crítica. É preciso ler os outputs com atenção, compreender os limites dos modelos e assumir a responsabilidade final pelas decisões.
Na gestão de serviços, a IA também vai ajudar a acelerar a automação, detectar incidentes, priorizar respostas e optimizar recursos. Pode, por exemplo, sinalizar padrões recorrentes antes de uma falha ganhar escala. Mas o seu verdadeiro potencial depende da capacidade humana de interpretar dados, enquadrar decisões e orientar a tecnologia para resultados que façam sentido para o negócio.
Esta visão deve estar presente também na passagem entre equipas, como no Gate 5, em que a área comercial entrega o projecto ao delivery. É aí que devem ficar claros o âmbito, os riscos identificados e as necessidades reais do cliente. Quando esta transição é bem feita, a execução começa com maior alinhamento e menor margem para ruído.
Governance, ética e o uso responsável da IA passam também a fazer parte da gestão de projectos. O gestor deve garantir que são usadas ferramentas aprovadas, que os dados sensíveis são protegidos e que os requisitos legais, contratuais e de propriedade intelectual são respeitados.
No fim, a transformação digital não se mede apenas pela tecnologia que uma organização adopta, mas pela forma como essa tecnologia melhora decisões, simplifica processos e cria valor para pessoas e negócios. A IA vai continuar a acelerar a mudança, mas são as equipas que lhe dão direcção, sentido e responsabilidade. O futuro da gestão de projectos não vai pertencer apenas a quem domina novas ferramentas. Vai pertencer a quem souber combinar inteligência tecnológica com inteligência humana para entregar resultados que contam.


















