Por António Saraiva, Business partner SFORI
Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) constituem muito mais do que um indicador do desempenho do sistema educativo. Representam também um importante sinal de alerta da qualidade do capital humano que irá integrar o mercado de trabalho nas próximas décadas. Para as organizações, compreender estas tendências é fundamental para antecipar desafios relacionados com recrutamento, desenvolvimento de competências e competitividade.
O PISA avalia jovens de 15 anos em áreas fundamentais como a leitura, a matemática e as ciências. Os seus resultados permitem medir não apenas a aquisição de conhecimentos, mas também a capacidade dos alunos para aplicar essas competências na resolução de problemas do mundo real. Em Portugal, a evolução observada ao longo dos últimos ciclos tem demonstrado progressos significativos quando comparados com a realidade registada há duas décadas.
Contudo, os resultados mais recentes também evidenciam desafios associados às aprendizagens, às desigualdades educativas e aos efeitos de contextos disruptivos, como a pandemia. Mais preocupante do que a comparação internacional é a identificação de lacunas em competências consideradas críticas para o futuro, nomeadamente o pensamento crítico, a capacidade analítica, a literacia matemática, a compreensão e interpretação de informação complexa, a resolução de problemas e a adaptabilidade à mudança. Estas competências são precisamente aquelas que as organizações mais valorizam num contexto cada vez mais digital, tecnológico e global.
Os jovens avaliados pelo PISA serão, dentro de poucos anos, os profissionais que ocuparão posições em empresas públicas e privadas. Quando os indicadores educativos revelam fragilidades persistentes, os seus efeitos acabam por reflectir-se no mercado laboral. As organizações podem vir a enfrentar dificuldades no recrutamento de talento qualificado, a necessidade crescente de programas de formação básica e complementar, uma menor velocidade de adaptação à transformação digital, a redução da capacidade de inovação e o aumento dos custos associados ao desenvolvimento de competências. Numa economia baseada no conhecimento, a qualidade das competências disponíveis torna-se um factor decisivo para a produtividade e para a competitividade das empresas.
Perante este cenário, a Gestão de Pessoas assume um papel cada vez mais estratégico. As empresas já não podem limitar-se a seleccionar profissionais que possuam as competências necessárias. Terão de assumir um papel activo na sua construção e desenvolvimento. Isso implica uma mudança de paradigma em três dimensões principais. Por um lado, reforçar a aprendizagem contínua, ou seja, o conceito de aprendizagem ao longo da vida deixa de ser uma vantagem competitiva para se tornar uma necessidade organizacional. As empresas devem criar culturas de desenvolvimento permanente, promovendo programas de upskilling e reskilling que permitam acompanhar a evolução tecnológica e das funções.
Por outro, há que valorizar competências além dos conhecimentos técnicos. Os resultados do PISA lembram-nos que o sucesso profissional depende cada vez mais da capacidade de pensar, colaborar e aprender. Assim, competências comportamentais como comunicação, criatividade, empatia, resiliência e resolução de problemas devem ganhar destaque nos processos de recrutamento e desenvolvimento. Finalmente, a premência de se construir parcerias com o sistema educativo. A aproximação entre empresas, universidades, escolas e centros de formação será determinante para reduzir o desfasamento entre as competências ensinadas e as exigidas pelo mercado. Organizações que investem em programas de estágios, academias corporativas e iniciativas de cooperação educativa tendem a preparar melhor o talento do futuro.
Há, pois, que se saber liderar num contexto de transformação. A inteligência artificial, a automação e a digitalização estão a redefinir rapidamente o mundo do trabalho. Neste contexto, o verdadeiro diferencial competitivo não será apenas a tecnologia disponível, mas a capacidade das pessoas para a utilizar de forma eficaz. Os resultados do PISA devem, portanto, ser encarados como um indicador estratégico para líderes e gestores de Recursos Humanos. Eles oferecem pistas importantes sobre os desafios que as organizações poderão enfrentar na construção das suas equipas futuras.
Em resumo, os resultados do PISA não são apenas uma avaliação do sistema educativo. São também um reflexo do potencial humano disponível para sustentar o crescimento económico e a inovação. Para a Gestão de Pessoas, os sinais emitidos por estes indicadores reforçam a necessidade de investir continuamente no desenvolvimento de competências, na aprendizagem ao longo da vida e na preparação das organizações para um futuro em constante mudança. As empresas que compreenderem esta ligação entre educação e competitividade estarão mais bem posicionadas para atrair, desenvolver e reter o talento necessário para se prosperar na economia do conhecimento.

















