Por Maria João Maia, Legal & HR director Astrazeneca Portugal
Há uma pergunta que fazemos pouco quando falamos sobre o futuro do trabalho: o que é que os Recursos Humanos vão deixar de fazer?
A discussão pública tem sido dominada por tudo aquilo que os RH devem acrescentar: inteligência artificial, people analytics, desenvolvimento de novas competências e skills, reskilling and upskilling, gestão de talento, engagement, adaptação de novos modelos e formas de trabalho, compensação e benefícios, bem-estar, novas formas de liderança, coaching aos líderes, novas experiências para os colaboradores e adaptação a novas gerações de colaboradores que têm diferentes expectativas do trabalho. Tudo isto é relevante. Mas nem tudo tem o mesmo peso. E nem tudo merece ser seguido.
A maturidade dos Recursos Humanos nos próximos anos não será medida pela capacidade de aderir a todas as tendências. Será medida pela capacidade de escolher. E, sobretudo, pela coragem de abandonar práticas que já não servem as pessoas nem as organizações.
Nos próximos cinco anos, acredito que os RH terão de deixar de ser, antes de mais, gestores de ruído.
Ruído burocrático, quando demasiados processos internos consomem tempo e energia sem acrescentarem valor. É aqui que entra, e muito bem, a inteligência artificial.
Ruído conceptual, quando se importam modas de gestão sem contexto.
Ruído cultural, quando se confundem iniciativas visíveis com impacto real.
Esta é talvez uma das mudanças mais importantes: os RH são cada vez mais uma função estratégica e fundamental para o sucesso de qualquer organização.
Numa organização como a AstraZeneca, onde convivem equipas locais, funções globais, perfis científicos, digitais, comerciais, operacionais e corporativos, esta distinção é essencial. O futuro do trabalho não é uma abstracção. É uma realidade diária: atrair talento qualificado, integrar equipas multiculturais, desenvolver competências para funções em transformação e garantir que as pessoas conseguem trabalhar com clareza num contexto cada vez mais exigente.
Por isso, a primeira coisa que os RH terão de deixar de fazer é ocupar talento com fricção desnecessária.
A tecnologia terá aqui um papel inevitável. Muitos processos administrativos, repetitivos e transaccionais serão simplificados ou automatizados. Mas reduzir burocracia não significa desumanizar. Significa precisamente o contrário: libertar tempo para aquilo que exige julgamento, proximidade, escuta e decisão.
A segunda coisa que os RH terão de deixar de fazer é seguir tendências por pressão externa.
Nem todas as organizações precisam das mesmas respostas. Nem todos os colaboradores vivem o trabalho da mesma forma. Nem todos os benefícios respondem às mesmas necessidades. Nem todas as soluções tecnológicas resolvem problemas reais.
Liderar em Recursos Humanos será, cada vez mais, resistir à tentação de aplicar receitas universais.
Na AstraZeneca, esta escolha é particularmente importante. Uma empresa orientada para a ciência e para a inovação não pode confundir velocidade com precipitação. Inovar também é testar, avaliar impacto, corrigir e decidir com base em evidência. Essa lógica deve aplicar-se igualmente à Gestão de Pessoas.
A terceira coisa que os RH terão de deixar de fazer é tratar todos os colaboradores como se tivessem as mesmas expectativas, os mesmos ritmos e os mesmos desafios.
O futuro do trabalho será mais personalizado, mas não necessariamente mais individualista. Haverá diferentes modelos de trabalho, diferentes percursos de carreira (e estes são cada vez menos óbvios), diferentes necessidades de desenvolvimento e diferentes formas de criar impacto. O papel dos RH será garantir coerência sem cair na uniformização.
Isto exige uma função de RH menos centrada em políticas e mais centrada em discernimento.
Discernimento para perceber onde a inteligência artificial acrescenta valor e onde não substitui a inteligência humana. Discernimento para distinguir bem-estar de benefícios cosméticos. Discernimento para saber quando a flexibilidade aumenta a produtividade e quando compromete a colaboração. Discernimento para apoiar líderes, mas também para os desenvolver, para os desafiar e, quando necessário, ter coragem para os substituir.
Porque há uma verdade que o futuro do trabalho não vai apagar: as pessoas não saem apenas de empresas. Saem de más lideranças, de falta de clareza, de culturas incoerentes e de organizações que prometem mais do que praticam.
No Dia Internacional dos Recursos Humanos, talvez valha a pena não apenas celebrar a expansão da função, mas a sua responsabilidade.
Os RH do futuro não serão os que fizerem mais. Serão os que fizerem melhor. E, para isso, terão de deixar de fazer muita coisa.














