O intraempreendedor alterista: Altruísmo com propósito

Human Resources
17 de Julho 2024 | 14:00

Na dança organizacional, há quem tome sempre a iniciativa, dando o primeiro passo em seu proveito próprio sem consideração pelos demais; pelo oposto, também há quem se dedique tanto aos outros que acabe por se esquecer de si. Idealmente, parece fazer sentido “dar e receber”, com propósito, evitando estas posições extremadas. Chamemos-lhe ingenuidade. Ou alterismo?

 

Por Rita Oliveira Pelica, Chief Energy Officer ONYOU & Portugal Catalyst – The League of Intrapreneurs

 

Nem só de talento individual vivem as organizações, e cada vez mais se percebe a importância dos relacionamentos na esfera profissional. Reconhecer esta “inteligência social” como uma competência-chave é vital para os colaboradores, principalmente para aqueles que se identificam como intraempreendedores. Adam Grant, no seu livro “Dar e Receber”, ajuda-nos a perceber que as pessoas, nas organizações, se comportam como tomadores, compensadores ou doadores, com diferentes níveis de generosidade associados.

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Os tomadores ou “sacadores” (em bom português) são aqueles que se regem unicamente pela sua agenda e umbigo; não sabem o nome das outras pessoas até ao dia em que “precisam de um favor” – criam “relações” de forma unidireccional, com um único ponto de foco, que é o do seu próprio interesse. Já os compensadores jogam ao “toma lá-dá-cá”, ou seja, só dão algo se receberem algo em troca; estão sempre à espera de uma recompensa pelo seu favorecimento – só dançam consoante a música que toca. Finalmente, os doadores, aqueles que se focam mais no outro do que em si, por vezes até acabando por se penalizar a si próprios, são os chamados altruístas.

Curiosamente, nos seus estudos, Grant constatou que as pessoas mais bem-sucedidas, nas mais variadas carreiras, não são as mais egoístas e implacáveis (vulgo tomadores), nem as que agem com base no “toma lá-dá cá”. As que chegam mais longe são as doadoras, as que dão o seu melhor aos outros sem reservas nem exigências, mas… (entra o som da surpresa e da estupefacção!) os doadores também estão entre os menos bem-sucedidos. Como assim? Venha o momento Aha!

O altruísmo em excesso acaba por ser penalizador e, provavelmente, a maioria de nós já sentiu esta amargura na pele. Saber dar e receber, de forma “inteligente”, é outra coisa, designa-se por alterismo. Ser alterista é saber doar de forma consciente, com um propósito; pessoas alteristas sabem como, quando e a quem ajudar, o que significa que os alteristas ajudam outras pessoas sem prejudicar as suas decisões e os seus próprios interesses – o que é sobejamente diferente do “perfil compensador”. Matematicamente, podemos utilizar a seguinte fórmula: tempo + energia + ajuda = recompensa mútua. Emocionalmente, podemos sentir o prazer por ajudar. Em esforço, desequilibrado, podemos sentir a dor.

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Quantos de nós se debatem e desgastam para conseguir dizer “não” aos pedidos interesseiros que nos chegam? Chegam por diferentes vias e formatos (convites?), de forma mais ou menos camuflada, mas manifestamente sem interesse pessoal. É tempo de reconhecer que o tempo tem muito valor e que é impossível e desinteressante dizer “sim” a tudo e a todos. Ser generoso não se resume a satisfazer todas as solicitações que recebemos, aliás muito pelo contrário. Só podemos ser generosos com os outros quando aprendermos a ser generosos connosco, em primeiro lugar; e não sentirmos que nos estamos a afogar num mar de hipersolicitações (pro bono?), presos em folhas de agendas que não são as nossas.

O alterista é um praticante convicto das modalidades de networking, colaboração, influência, negociação e liderança pessoal. E aqui se estabelece o paralelismo com o intraempreendedor, enquanto agente proactivo e relacional: um agente que escolhe as missões a que se quer dedicar, canalizando os seus recursos para esse efeito e, quando necessário, recorrendo a aliados estratégicos.

Por minha escolha e por aprendizagem pessoal e profissional, alterista me confesso. E no seu caso, alimenta-se de favores, ou de boas doses de confiança e de generosidade com limites?

 

Este artigo foi publicado na edição de Junho (nº. 162) da Human Resources, nas bancas.

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