O mito da carreira como escada para a liderança

Opinião de Rodrigo Maia Prinzo, head of People & Culture na InnoTech

Human Resources
8 de Julho 2026 | 11:00

Por Rodrigo Maia Prinzo, head of People & Culture na InnoTech

 

Há uma conversa que se repete em muitas empresas, quando a avaliação corre bem, os objectivos são globalmente cumpridos e o feedback é positivo: “Qual é o próximo passo?”. Traduzindo para linguagem corporativa: “Quando é que sou promovido?”.

Não há nada de errado com a ambição. Pelo contrário. As organizações precisam de pessoas que queiram crescer, assumir desafios e aumentar o seu impacto. O “vestir a camisola” é, hoje, muito isto. (Já) Não é o entrar mais cedo ou sair mais tarde. Muito menos o número de horas passadas no escritório. Felizmente. É a vontade de contribuir, de fazer a diferença e de sentir que a própria pegada deixa marca na organização. É sentir a empresa como sua.

O problema começa quando confundimos crescimento com promoção. E, mais ainda, quando confundimos promoção com liderança.

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Durante anos, convencemos as pessoas de que crescer na carreira significava subir uma espécie de pirâmide invisível, mas bem presente nos corredores das empresas. E subir significava liderar pessoas. Agora, surpreendemo-nos quando alguém com pouco tempo de casa pergunta quando será promovido a manager. Essa expectativa não surgiu do nada.

A carreira era apresentada como uma escada. Primeiro especialista. Depois sénior. Depois team leader. Depois manager. Depois director. Como se cada degrau fosse uma consequência natural do anterior.

Não é. E não deve ser.

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Entretanto, as hierarquias tornaram-se mais planas, os organogramas mais modernos e as estruturas mais flexíveis. Falamos de organizações horizontais, modelos flat e liderança distribuída. Mas, na prática, continuamos muitas vezes a medir o sucesso profissional da mesma forma: quantas pessoas lideras e qual é o teu cargo.

Ser um excelente profissional não significa ser um excelente líder. Da mesma forma que um grande jogador de futebol não se transforma automaticamente num grande treinador quando termina a carreira. São competências diferentes. Exigem motivações diferentes. E, muitas vezes, até personalidades diferentes.

Ainda assim, continuamos a tratar a liderança como a principal recompensa disponível. Cumpriu os objectivos? Promove-se. Tem uma performance acima da média? Promove-se. É uma referência técnica na equipa? Promove-se.

E, de repente, alguém que era excelente a resolver problemas passa a ter como principal responsabilidade desenvolver pessoas, gerir conflitos, alinhar expectativas, conduzir conversas difíceis e tomar decisões que nem sempre agradam a todos.

Nem todos querem isso. E nem todos são bons nisso.

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Existe uma ideia curiosa nas organizações: a de que a gestão de pessoas representa o nível seguinte da carreira. Como se liderar equipas fosse uma evolução natural de qualquer percurso profissional. Mas basta conversar com profissionais experientes para perceber que muitos deles preferem continuar a aprofundar a sua especialização, influenciar projectos estratégicos ou assumir responsabilidades mais complexas sem terem de gerir equipas.

E está tudo bem.

O mais curioso é que esta reflexão acontece numa altura em que tanto se fala de personalização. Personalizamos benefícios, modelos de trabalho, planos de desenvolvimento e experiências dos colaboradores. Criámos sistemas onde cada pessoa pode escolher como utilizar parte da sua compensação, onde trabalha e até quando.

Mas continuamos, muitas vezes, a tratar as carreiras como um percurso único e previsível. Como se todos quisessem chegar ao mesmo sítio. Como se todos devessem querer chegar ao mesmo sítio.

A verdade é que algumas das pessoas mais valiosas de uma organização nunca deveriam liderar equipas. Não porque lhes falte ambição ou competência, mas porque liderança não é um prémio atribuído ao melhor desempenho técnico.

Quando promovemos alguém para uma função que não deseja ou para a qual não está preparado, raramente ganhamos um líder excepcional. O mais provável é perdermos um excelente especialista.

E, curiosamente, foi exactamente para o reter que o promovemos. No fim, perdemos duas vezes: o especialista que tínhamos e a equipa que agora lhe reporta.

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