O mundo do trabalho não vai voltar ao que era

A expressão “novo normal” já entrou no vocabulário de todos e amiúde se tem ouvido que, no pós-COVID, nada vai voltar ao que era, nomeadamente nas empresas e nos modelos de trabalho. Os resultados da 32.ª edição do Barómetro Human Resources parecem corroborar essas “previsões”. E se o digital se vai intensificar, quisemos também saber como estão as empresas portuguesas em termos de competências tecnológicas.

 

Por Ana Leonor Martins

 

Fez no passado dia 2 de Setembro seis meses que foram confirmados os primeiros dois casos de infecção pelo novo coronavírus em Portugal. Logo no dia 2 de Março, o Governo lançou o despacho que determinou que os funcionários públicos iriam ser colocados em teletrabalho (medida que se efectivou 11 dias depois). No dia 7, já com 21 casos de COVID-19 positivos, foram suspensas as visitares em hospitais, lares e estabelecimentos prisionais; a 9 cancelados diversos grandes eventos e encerrados ou condicionados vários serviços públicos; as escolas foram encerradas a 12 de Março, data em que foram também suspensas todas as competições nacionais de futebol e, a 18 de Março, o Presidente da República decreta o Estado de Emergência. No dia seguinte, o primeiro-ministro anuncia as medidas que entrariam em vigor, entre elas o teletrabalho generalizado, obrigatório em todas as empresas onde isso fosse possível.

A obrigatoriedade para o teletrabalho cessou no final de Maio, mas muitas foram as empresas que optaram por manter essa modalidade, pelo menos para parte da equipa. Isso mesmo revela o Barómetro Human Resources, que questionou o seu painel de especialistas (que representam diversos sectores, de algumas das empresas mais relevantes em Portugal) sobre “quando é que espera que pelo menos 90% da sua força de trabalho regresse ao regime presencial”. Apenas 17% responderam que esse regresso aconteceu logo em Junho. No pós-férias de Verão, a percentagem sobe ligeiramente, com 21% a afirmarem que em Setembro já terão quase toda a gente (convém não esquecer que continua a existir regime de excepção para os doentes crónicos) de volta ao escritório. Mas a maioria – 27% –, só conta fazê-lo em Janeiro de 2021. Sendo de assinalar que 10% ainda não sabem (ou não respondem) quando – ou se – terão 90% da força de trabalho em regime presencial, bastante relevante é facto de 23% afirmarem que essa realidade não vai voltar a existir na sua empresa.

Neste sentido, não é de estranhar que, à pergunta “Acredita que os modelos de trabalho flexível, nomeadamente o teletrabalho, vieram para ficar”, a maioria (56%) não tenha tido dúvidas em afirmar que sim, em todas as empresas onde isso seja viável, sendo que 36% também acham que sim, na maioria das empresas, o que resulta numa percentagem acumulada de 92%. Ainda que 8% defendam que o teletrabalho não veio para ficar e que só se vai verificar onde já era prática, ninguém é peremptório em afirmar que não.

No que respeita à motivação e engagement das equipas, parece que a pandemia não teve grande impacto. É pelo menos o que constatam 63% dos inquiridos. E, enquanto 17% admite que a motivação e engament está em níveis inferiores ao que a empresa registava em Fevereiro, 13% acreditam que o actual contexto teve um impacto positivo nestas variáveis.

Muito se tem escrito e dito sobre como as empresas – e as lideranças – têm reagido e gerido a actual crise, que é não só de saúde pública, mas também económica. Interessa agora perceber como perspectivam o futuro. Em Julho, os especialistas do Barómetro Human Resources, quando questionados sobre por quanto tempo antecipavam que os efeitos da COVID-19 se iriam manifestar nas suas empresas, a maioria (29%) referiu um horizonte temporal de um ano. E ninguém antecipava que três meses fossem suficientes. Volvidos dois meses, as lideranças parecem estar optimistas. Quanto questionados sobre “que abordagem está a adoptar a liderança da sua empresa em relação ao “novo normal”, 27% revelam que estão optimista e a rever a estratégia para se adaptar, rapidamente. No entanto, e ainda que também a rever a estratégia para se adaptar, 21%  admitem que a liderança da empresa está apreensiva. Já 17% estão igualmente apreensivos, mas ainda a “navegar à vista”, dada a incerteza do actual contexto. Neste âmbito, é de destacar ainda dois aspectos: 13% garantem que a liderança da sua empresa está optimista e já se adaptou ao novo normal, e apenas 4% reconhecem que está pessimista.

Não obstante este optimismo, 52% dos inquiridos antevêem que, em Janeiro de 2021, o emprego total na sua empresa, em comparação com a realidade existente em Janeiro de 2020, esteja mais baixo (sendo que 44% acreditam que estará ligeiramente abaixo, mas 8% antecipam que este esteve significativamente abaixo. É um cenário mais pessimista do que há dois meses, pois, em Julho, “apenas” 25% do painel do Barómetro Human Resources afirmou que a sua empresa iria despedir pessoas. Por outro lado, 33% acham que o número de colaboradores se irá manter igual no próximo ano, enquanto 13% acreditam que irá ter mais pessoas na empresa (inclusive, para 4%, o headcount estará significativamente acima).

 

Competências digitais: a nova literacia
Vários especialistas têm afirmado que a pandemia veio obrigar as empresas a dar um salto tecnológico de cinco a 10 anos. Mas para que esta evolução seja efectiva, é preciso mais do que disponibilizar novas ferramentas digitais, serão também precisas novas competências. No momento actual, a maioria das empresas (72%), tem mais de 40% de colaboradores a exercer funções para as quais é relevante possuir competências digitais: 29% garantem que essa percentagem se situa entre os 80% e 100%, estando os restantes 43% divididos de forma igual entre os 40 a 60% e os 60 a 80%). De referir ainda que não chega a 6% as empresas inquiridas que têm menos de 10% dos colaboradores a desempenhar funções que não exigem competências digitais. O que demonstra que, hoje, ter competências digitais já não é um factor distintivo, é algo essencial em praticamente todas as funções.

Esta tendência deverá intensificar-se, visto que os números aumentam quando o horizonte é o próximo ano: 38% (ou seja, mais nove pontos percentuais) garantem que entre 80 a 100% dos colaboradores terão funções para as quais são imprescindíveis as competências digitais, e no “intervalo” entre 60 a 80% também sobe quatro pontos percentuais (de 21 para 24%). E ninguém perspectiva que mais de 5% das pessoas tenham funções que não impliquem estas competências.

Por outro lado, não deixa de ser interessante (ou preocupante) notar que, apesar de os números demonstrarem uma intensificação da digitalização das empresas, 27% do total de colaboradores das empresas que exercem funções para as quais é relevante possuir competências digitais (já vimos que a maioria) não possui qualquer formação nas áreas das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). Só uma minoria (13%) possui formação superior nesta área, sendo que 56% têm formação de nível não superior (técnica, portanto).

Sobre o âmbito onde os especialistas identificam maior necessidade de desenvolvimento de competências digitais nas suas empresas, podendo escolher até três diferentes, destacam-se as ferramentas de produtividade e colaboração (60%). Segue-se a análise de dados (52%) e a cibersegurança (35%). No espectro oposto, como áreas onde as empresas não sentem tanta necessidade de desenvolvimento destas competências, surgem a programação de conteúdos web mobile (8%), a programação para web (10%) e a gestão de redes informáticas (13%). Estes resultados podem significar uma de duas coisas: ou são áreas onde já contam com profissionais altamente especializados, ou então não são áreas prioritárias em termos de apostas das empresas.

A próxima pergunta traz um dado curioso: o âmbito onde os inquiridos identificaram maior necessidade de desenvolvimento de competências – ferramentas de produtividade e colaboração – não surge no top 3 como área para a qual pensam contratar no próximo ano (15%). Como área prioritária para fazer contratações para o próximo ano destaca-se, com 37%, a análise de dados, seguindo-se a cibersegurança (27%) e o e-commerce e CRM, com 17% cada. Mais uma vez, regista-se uma percentagem elevada (17%) de inquiridos que não sabem (ou não respondem).

Fique a conhecer todos os resultados do XXXII Barómetro Human Resources na edição de Setembro da Human Resources, nas bancas, e o comentário dos especialistas:

– Ana Côrte-Real, associate dean para a Formação Executiva da Católica Porto Business School

– Sandra Brito Pereira, directora de Recursos Humanos do Banco Montepio

– Vanda de Jesus, Executive director do Portugal Digital

– Ricardo Parreira, CEO da PHC Software

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