O mundo do trabalho não vai voltar ao que era

Leonor Martins
23 de Setembro 2020 | 10:00

A expressão “novo normal” já entrou no vocabulário de todos e amiúde se tem ouvido que, no pós-COVID, nada vai voltar ao que era, nomeadamente nas empresas e nos modelos de trabalho. Os resultados da 32.ª edição do Barómetro Human Resources parecem corroborar essas “previsões”. E se o digital se vai intensificar, quisemos também saber como estão as empresas portuguesas em termos de competências tecnológicas.

 

Por Ana Leonor Martins

 

Fez no passado dia 2 de Setembro seis meses que foram confirmados os primeiros dois casos de infecção pelo novo coronavírus em Portugal. Logo no dia 2 de Março, o Governo lançou o despacho que determinou que os funcionários públicos iriam ser colocados em teletrabalho (medida que se efectivou 11 dias depois). No dia 7, já com 21 casos de COVID-19 positivos, foram suspensas as visitares em hospitais, lares e estabelecimentos prisionais; a 9 cancelados diversos grandes eventos e encerrados ou condicionados vários serviços públicos; as escolas foram encerradas a 12 de Março, data em que foram também suspensas todas as competições nacionais de futebol e, a 18 de Março, o Presidente da República decreta o Estado de Emergência. No dia seguinte, o primeiro-ministro anuncia as medidas que entrariam em vigor, entre elas o teletrabalho generalizado, obrigatório em todas as empresas onde isso fosse possível.

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A obrigatoriedade para o teletrabalho cessou no final de Maio, mas muitas foram as empresas que optaram por manter essa modalidade, pelo menos para parte da equipa. Isso mesmo revela o Barómetro Human Resources, que questionou o seu painel de especialistas (que representam diversos sectores, de algumas das empresas mais relevantes em Portugal) sobre “quando é que espera que pelo menos 90% da sua força de trabalho regresse ao regime presencial”. Apenas 17% responderam que esse regresso aconteceu logo em Junho. No pós-férias de Verão, a percentagem sobe ligeiramente, com 21% a afirmarem que em Setembro já terão quase toda a gente (convém não esquecer que continua a existir regime de excepção para os doentes crónicos) de volta ao escritório. Mas a maioria – 27% –, só conta fazê-lo em Janeiro de 2021. Sendo de assinalar que 10% ainda não sabem (ou não respondem) quando – ou se – terão 90% da força de trabalho em regime presencial, bastante relevante é facto de 23% afirmarem que essa realidade não vai voltar a existir na sua empresa.

Neste sentido, não é de estranhar que, à pergunta “Acredita que os modelos de trabalho flexível, nomeadamente o teletrabalho, vieram para ficar”, a maioria (56%) não tenha tido dúvidas em afirmar que sim, em todas as empresas onde isso seja viável, sendo que 36% também acham que sim, na maioria das empresas, o que resulta numa percentagem acumulada de 92%. Ainda que 8% defendam que o teletrabalho não veio para ficar e que só se vai verificar onde já era prática, ninguém é peremptório em afirmar que não.

No que respeita à motivação e engagement das equipas, parece que a pandemia não teve grande impacto. É pelo menos o que constatam 63% dos inquiridos. E, enquanto 17% admite que a motivação e engament está em níveis inferiores ao que a empresa registava em Fevereiro, 13% acreditam que o actual contexto teve um impacto positivo nestas variáveis.

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Muito se tem escrito e dito sobre como as empresas – e as lideranças – têm reagido e gerido a actual crise, que é não só de saúde pública, mas também económica. Interessa agora perceber como perspectivam o futuro. Em Julho, os especialistas do Barómetro Human Resources, quando questionados sobre por quanto tempo antecipavam que os efeitos da COVID-19 se iriam manifestar nas suas empresas, a maioria (29%) referiu um horizonte temporal de um ano. E ninguém antecipava que três meses fossem suficientes. Volvidos dois meses, as lideranças parecem estar optimistas. Quanto questionados sobre “que abordagem está a adoptar a liderança da sua empresa em relação ao “novo normal”, 27% revelam que estão optimista e a rever a estratégia para se adaptar, rapidamente. No entanto, e ainda que também a rever a estratégia para se adaptar, 21%  admitem que a liderança da empresa está apreensiva. Já 17% estão igualmente apreensivos, mas ainda a “navegar à vista”, dada a incerteza do actual contexto. Neste âmbito, é de destacar ainda dois aspectos: 13% garantem que a liderança da sua empresa está optimista e já se adaptou ao novo normal, e apenas 4% reconhecem que está pessimista.

Não obstante este optimismo, 52% dos inquiridos antevêem que, em Janeiro de 2021, o emprego total na sua empresa, em comparação com a realidade existente em Janeiro de 2020, esteja mais baixo (sendo que 44% acreditam que estará ligeiramente abaixo, mas 8% antecipam que este esteve significativamente abaixo. É um cenário mais pessimista do que há dois meses, pois, em Julho, “apenas” 25% do painel do Barómetro Human Resources afirmou que a sua empresa iria despedir pessoas. Por outro lado, 33% acham que o número de colaboradores se irá manter igual no próximo ano, enquanto 13% acreditam que irá ter mais pessoas na empresa (inclusive, para 4%, o headcount estará significativamente acima).

 

Competências digitais: a nova literacia
Vários especialistas têm afirmado que a pandemia veio obrigar as empresas a dar um salto tecnológico de cinco a 10 anos. Mas para que esta evolução seja efectiva, é preciso mais do que disponibilizar novas ferramentas digitais, serão também precisas novas competências. No momento actual, a maioria das empresas (72%), tem mais de 40% de colaboradores a exercer funções para as quais é relevante possuir competências digitais: 29% garantem que essa percentagem se situa entre os 80% e 100%, estando os restantes 43% divididos de forma igual entre os 40 a 60% e os 60 a 80%). De referir ainda que não chega a 6% as empresas inquiridas que têm menos de 10% dos colaboradores a desempenhar funções que não exigem competências digitais. O que demonstra que, hoje, ter competências digitais já não é um factor distintivo, é algo essencial em praticamente todas as funções.

Esta tendência deverá intensificar-se, visto que os números aumentam quando o horizonte é o próximo ano: 38% (ou seja, mais nove pontos percentuais) garantem que entre 80 a 100% dos colaboradores terão funções para as quais são imprescindíveis as competências digitais, e no “intervalo” entre 60 a 80% também sobe quatro pontos percentuais (de 21 para 24%). E ninguém perspectiva que mais de 5% das pessoas tenham funções que não impliquem estas competências.

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Por outro lado, não deixa de ser interessante (ou preocupante) notar que, apesar de os números demonstrarem uma intensificação da digitalização das empresas, 27% do total de colaboradores das empresas que exercem funções para as quais é relevante possuir competências digitais (já vimos que a maioria) não possui qualquer formação nas áreas das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). Só uma minoria (13%) possui formação superior nesta área, sendo que 56% têm formação de nível não superior (técnica, portanto).

Sobre o âmbito onde os especialistas identificam maior necessidade de desenvolvimento de competências digitais nas suas empresas, podendo escolher até três diferentes, destacam-se as ferramentas de produtividade e colaboração (60%). Segue-se a análise de dados (52%) e a cibersegurança (35%). No espectro oposto, como áreas onde as empresas não sentem tanta necessidade de desenvolvimento destas competências, surgem a programação de conteúdos web mobile (8%), a programação para web (10%) e a gestão de redes informáticas (13%). Estes resultados podem significar uma de duas coisas: ou são áreas onde já contam com profissionais altamente especializados, ou então não são áreas prioritárias em termos de apostas das empresas.

A próxima pergunta traz um dado curioso: o âmbito onde os inquiridos identificaram maior necessidade de desenvolvimento de competências – ferramentas de produtividade e colaboração – não surge no top 3 como área para a qual pensam contratar no próximo ano (15%). Como área prioritária para fazer contratações para o próximo ano destaca-se, com 37%, a análise de dados, seguindo-se a cibersegurança (27%) e o e-commerce e CRM, com 17% cada. Mais uma vez, regista-se uma percentagem elevada (17%) de inquiridos que não sabem (ou não respondem).

Fique a conhecer todos os resultados do XXXII Barómetro Human Resources na edição de Setembro da Human Resources, nas bancas, e o comentário dos especialistas:

– Ana Côrte-Real, associate dean para a Formação Executiva da Católica Porto Business School

– Sandra Brito Pereira, directora de Recursos Humanos do Banco Montepio

– Vanda de Jesus, Executive director do Portugal Digital

– Ricardo Parreira, CEO da PHC Software

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