O papel transformador das empresas no equilíbrio entre trabalho e vida familiar

Opinião de Célia Santos, HR director da AbbVie Portugal

Human Resources
15 de Maio 2026 | 10:30

Por Célia Santos, HR director da AbbVie Portugal

 

Um estudo recente, realizado por investigadores da Universidade de Oxford (1), fez uma análise sobre o equilíbrio entre a vida profissional, a vida pessoal e a autonomia parental em vários países europeus, e revela que o “equilíbrio” entre estas dimensões é frequentemente um eufemismo. Isto porque aquilo que traduz, na maior parte das vezes, são compromissos difíceis feitos por parte das famílias, forçadas a escolher entre rendimento e tempo. O retrato que emerge daqui é o de um equilíbrio que acaba por ser parcial ou fortemente suportado e financiado pelos recursos privados dos próprios pais.

O mesmo estudo evidencia ainda como os elementos do casal, e especialmente as mães, vivem a procura por este equilíbrio familiar e laboral como uma verdadeira tensão moral e material. A gestão entre carreira e família continua a ser marcada por escolhas forçadas, com impacto directo no rendimento ou na progressão profissional. Em muitos casos, não existe uma verdadeira autonomia de decisão.

Esta é uma realidade bem conhecida em Portugal, onde as famílias suportam o peso de conciliar o trabalho e os cuidados que a casa e os filhos exigem. É aqui que o papel das empresas se torna decisivo e vai muito além do local de trabalho.

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Apoiar os colaboradores enquanto pessoas, com responsabilidades familiares, não é um tema de benefícios. É um tema de liderança, sustentabilidade e segurança psicológica.

Porquê? Quando os líderes reconhecem que a identidade de cada colaborador vai muito além do seu cargo, estão a transmitir uma mensagem profunda sobre dignidade, confiança e humanidade. É essencial compreender que as responsabilidades familiares não são “distracções” que comprometem a produtividade, são parte integrante da vida das pessoas e, por isso, da própria organização.

Os líderes que têm esta consciência, que criam contextos onde as diferentes realidades familiares e fases de vida dos colaboradores são reconhecidas e respeitadas, que entendem que é precisamente esse equilíbrio que permite às pessoas crescer profissionalmente, e com elas, as próprias empresas, não só são melhores líderes, como constroem organizações mais resilientes, mais humanas e, paradoxalmente, mais produtivas.

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Quando as pessoas se sentem vistas na sua totalidade, trazem para o trabalho não apenas as suas competências, mas o melhor de si mesmas.

Esta é também uma questão de sustentabilidade e segurança psicológica. Ambientes que reconhecem e apoiam o papel das pessoas enquanto membros de uma família contribuem para reduzir o esgotamento, a rotatividade e o stress silencioso que compromete o desempenho. A segurança psicológica aumenta quando as organizações promovem ambientes de confiança, flexibilidade e inclusão, o que se traduz em equipas mais envolvidas e mais produtivas. O bem‑estar dos colaboradores não é incompatível com o desempenho do negócio, mas sim um pré‑requisito para a inovação, o compromisso e o crescimento sustentável.

É por isso que o apoio às famílias por parte das empresas não é uma medida meramente superficial; trata-se de um investimento estratégico na construção de uma organização mais saudável e sustentável, onde as pessoas podem permanecer, crescer e contribuir ao longo do tempo. Este é um ponto fundamental, sobretudo numa época em que a retenção de talento é cada vez mais desafiante e em que o equilíbrio entre vida profissional e familiar se tornou um factor crítico para a atracção e retenção de talento.

Mas mais do que políticas isoladas, é essencial promover uma cultura de liderança que valorize resultados, confiança e autonomia e que seja capaz de criar um ambiente psicologicamente seguro para crescer e flexibilizar quando necessário. Na AbbVie, este compromisso traduz‑se numa abordagem consistente, que combina flexibilidade com medidas como modelo de trabalho híbrido, benefícios de apoio às famílias, programas de bem‑estar e uma forte cultura de liderança empática. O foco está em criar condições para que as pessoas possam dar o seu melhor no trabalho, sem abdicar do que é essencial na sua vida pessoal e familiar.

Porque investir nas pessoas enquanto profissionais e enquanto famílias é investir numa sociedade mais saudável, mais equilibrada e mais preparada para os desafios do futuro. E as empresas têm um papel central na construção desse futuro.

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https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/13229400.2026.2626691#abstract

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