Por Célia Santos, HR director da AbbVie Portugal
Um estudo recente, realizado por investigadores da Universidade de Oxford (1), fez uma análise sobre o equilíbrio entre a vida profissional, a vida pessoal e a autonomia parental em vários países europeus, e revela que o “equilíbrio” entre estas dimensões é frequentemente um eufemismo. Isto porque aquilo que traduz, na maior parte das vezes, são compromissos difíceis feitos por parte das famílias, forçadas a escolher entre rendimento e tempo. O retrato que emerge daqui é o de um equilíbrio que acaba por ser parcial ou fortemente suportado e financiado pelos recursos privados dos próprios pais.
O mesmo estudo evidencia ainda como os elementos do casal, e especialmente as mães, vivem a procura por este equilíbrio familiar e laboral como uma verdadeira tensão moral e material. A gestão entre carreira e família continua a ser marcada por escolhas forçadas, com impacto directo no rendimento ou na progressão profissional. Em muitos casos, não existe uma verdadeira autonomia de decisão.
Esta é uma realidade bem conhecida em Portugal, onde as famílias suportam o peso de conciliar o trabalho e os cuidados que a casa e os filhos exigem. É aqui que o papel das empresas se torna decisivo e vai muito além do local de trabalho.
Apoiar os colaboradores enquanto pessoas, com responsabilidades familiares, não é um tema de benefícios. É um tema de liderança, sustentabilidade e segurança psicológica.
Porquê? Quando os líderes reconhecem que a identidade de cada colaborador vai muito além do seu cargo, estão a transmitir uma mensagem profunda sobre dignidade, confiança e humanidade. É essencial compreender que as responsabilidades familiares não são “distracções” que comprometem a produtividade, são parte integrante da vida das pessoas e, por isso, da própria organização.
Os líderes que têm esta consciência, que criam contextos onde as diferentes realidades familiares e fases de vida dos colaboradores são reconhecidas e respeitadas, que entendem que é precisamente esse equilíbrio que permite às pessoas crescer profissionalmente, e com elas, as próprias empresas, não só são melhores líderes, como constroem organizações mais resilientes, mais humanas e, paradoxalmente, mais produtivas.
Quando as pessoas se sentem vistas na sua totalidade, trazem para o trabalho não apenas as suas competências, mas o melhor de si mesmas.
Esta é também uma questão de sustentabilidade e segurança psicológica. Ambientes que reconhecem e apoiam o papel das pessoas enquanto membros de uma família contribuem para reduzir o esgotamento, a rotatividade e o stress silencioso que compromete o desempenho. A segurança psicológica aumenta quando as organizações promovem ambientes de confiança, flexibilidade e inclusão, o que se traduz em equipas mais envolvidas e mais produtivas. O bem‑estar dos colaboradores não é incompatível com o desempenho do negócio, mas sim um pré‑requisito para a inovação, o compromisso e o crescimento sustentável.
É por isso que o apoio às famílias por parte das empresas não é uma medida meramente superficial; trata-se de um investimento estratégico na construção de uma organização mais saudável e sustentável, onde as pessoas podem permanecer, crescer e contribuir ao longo do tempo. Este é um ponto fundamental, sobretudo numa época em que a retenção de talento é cada vez mais desafiante e em que o equilíbrio entre vida profissional e familiar se tornou um factor crítico para a atracção e retenção de talento.
Mas mais do que políticas isoladas, é essencial promover uma cultura de liderança que valorize resultados, confiança e autonomia e que seja capaz de criar um ambiente psicologicamente seguro para crescer e flexibilizar quando necessário. Na AbbVie, este compromisso traduz‑se numa abordagem consistente, que combina flexibilidade com medidas como modelo de trabalho híbrido, benefícios de apoio às famílias, programas de bem‑estar e uma forte cultura de liderança empática. O foco está em criar condições para que as pessoas possam dar o seu melhor no trabalho, sem abdicar do que é essencial na sua vida pessoal e familiar.
Porque investir nas pessoas enquanto profissionais e enquanto famílias é investir numa sociedade mais saudável, mais equilibrada e mais preparada para os desafios do futuro. E as empresas têm um papel central na construção desse futuro.
https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/13229400.2026.2626691#abstract














