O piloto era o objectivo

Opinião de Paulo Ramada, consultor | ASOM — Automation Services & Operations Management, Rumos Consulting

Human Resources
19 de Agosto 2026 | 11:00
O piloto era o objectivo

Por Paulo Ramada, consultor | ASOM — Automation Services & Operations Management, Rumos Consulting

Escolha a Human Resources como fonte preferida no Google Escolher ›

 

Há um tipo de projecto que aprendi a reconhecer muito antes de a inteligência artificial entrar no vocabulário das administrações. Constrói-se um dashboard que ninguém pediu, um alerta que dispara para uma caixa de correio que ninguém lê, um relatório automático que impressiona na demonstração e que, duas semanas depois, não serve a ninguém para absolutamente nada. O mais revelador não é o desperdício. É que, na maioria dos casos, quem o construiu já sabia, à partida, que assim seria e construiu na mesma. Porque o objectivo nunca foi a coisa funcionar; foi poder dizer que se estava a fazer algo.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

Este padrão não nasceu com a IA. É comum a todas as ondas de entusiasmo tecnológico das últimas décadas, cada uma com o seu traje próprio. A IA é apenas o traje actual e o mais caro de todos.

A versão de 2025 deste padrão tem um nome técnico: o piloto. Uma organização lança uma prova de conceito de IA, demonstra-a numa reunião, celebra-a num comunicado ou num slide de resultados e depois, silenciosamente, nunca a leva a produção. A leitura habitual é de desilusão com a tecnologia, e os números parecem dar-lhe razão. A consultora Gartner estimava que cerca de 30% dos projectos de IA generativa seriam abandonados depois da prova de conceito até ao final de 2025; o número que a própria viria a apurar foi de pelo menos 50%.

A minha leitura é diferente, e é o ponto deste artigo: uma parte significativa desses pilotos não falhou, fez exactamente aquilo para que foi desenhada. Em muitas organizações, o objectivo nunca foi mudar a forma como o trabalho é feito; foi ser visto a mover-se em IA, perante o mercado, a administração ou os pares. E para esse objectivo, o piloto não é um passo intermédio a caminho de algo maior: é o produto acabado. O anúncio, a demonstração, a linha no relatório de gestão, a entrega era essa. Chegar a produção nunca foi exigido, porque produção nunca foi o ponto.

Continue a ler após a publicidade

Dois tipos de pilotos, dois objectivos

É aqui que vale a pena ser preciso, porque quase toda a confusão nasce de tratar como falhanço aquilo que é, na verdade, um erro de categoria. Há dois tipos de piloto e são substancialmente diferentes: o piloto de demonstração e o piloto de produção.

Continue a ler após a publicidade

O piloto de demonstração existe para provar que algo é possível e para o tornar visível. A sua finalidade é o sinal. Mede o seu sucesso pela qualidade da apresentação: corre, impressiona, gera a manchete interna. Alimenta-se de dados escolhidos a dedo, limpos, preparados, representativos do melhor cenário. E, terminada a demonstração, não tem dono: ninguém ficou responsável pelo dia seguinte, porque não era suposto haver dia seguinte.

Continue a ler após a publicidade

O piloto de produção existe para mudar como o trabalho é feito. A sua finalidade é a capacidade. Mede o seu sucesso por uma métrica de negócio concreta, menos tempo, menos erro, menos custo, mais receita e não pelo brilho da apresentação. Alimenta-se dos dados verdadeiros da organização, dispersos e imperfeitos, porque é neles que vai ter de viver. E tem, desde o primeiro dia, um dono para o custo de o manter vivo: a integração, a manutenção, o preço recorrente que nunca aparece no slide de aprovação.

Confundir os dois é a origem de quase todos os “fracassos de IA”. Constrói-se um piloto de demonstração e, meses depois, julga-se o seu resultado pelo critério do de produção. Ou, pior, financia-se um piloto convencido de que se compra capacidade, quando se desenhou, do princípio ao fim, uma demonstração.

Como distinguir um do outro

Continue a ler após a publicidade

A boa notícia é que distinguir um do outro não exige esperar pelo desfecho. Faz-se à partida, com três perguntas. Se um piloto não tiver resposta clara para as três, o que está em cima da mesa não é um piloto de produção, é uma demonstração, por mais que se lhe chame outra coisa:

  • Que problema de negócio tem de resolver em produção e não apenas ilustrar?
  • Que métrica definiria o seu sucesso real, o de negócio, e não o sucesso da apresentação?
  • Quem será responsável por o operar, e por pagar a sua manutenção, depois de a demonstração acabar?

São perguntas desconfortáveis de propósito. É frequente não terem resposta — e essa ausência é, ela própria, o diagnóstico.

Como encomendar um piloto para produção

Vista assim, a pergunta útil deixa de ser “porque falham os pilotos de IA?” e passa a ser “como se encomenda um piloto que chega mesmo a produção?”. A resposta, ao contrário do que se espera, quase nunca é tecnológica: é de governação, e cabe em quatro decisões tomadas antes de escrever a primeira linha de código.

Continue a ler após a publicidade
  • Definir o sucesso em produção, à partida. Antes de começar, escrever numa frase qual a métrica de negócio que justifica o esforço e pela qual alguém aceita ser avaliado. Sem essa frase, não há como saber se o piloto chegou onde devia e o projecto fica refém do critério da demonstração.
  • Dar dono ao custo do dia seguinte. Não ao custo de construir, que todos orçamentam, mas ao custo de manter vivo: integrar nos sistemas, actualizar, vigiar, pagar todos os meses. Um piloto sem dono para essa conta é um piloto desenhado para morrer na demonstração, saiba-se ou não.
  • Confrontar os dados verdadeiros, cedo. Trocar o quanto antes o conjunto limpo da demonstração pelos dados reais da casa, dispersos e contraditórios. É neles que a solução vai viver ou morrer, e é melhor descobri-lo na semana três do que no mês doze.
  • Separar o orçamento-sinal do orçamento-capacidade. Há momentos em que gerar sinal vale mesmo o investimento mostrar ao mercado que a casa se mexe é, por vezes, uma decisão racional. O que não se sustenta é financiar um sinal a fingir que se compra capacidade, e depois tratar a ausência de produção como uma surpresa que a tecnologia provocou. Dar a cada orçamento o seu nome resolve mais “fracassos de IA” do que qualquer modelo novo.

A diferença entre os pilotos que sobrevivem e os que morrem na demonstração raramente está no modelo, no fornecedor ou no tamanho do orçamento. Está numa decisão tomada antes de começar: alguém definiu, ou não, o que seria o sucesso em produção. Onde essa definição existe, o piloto tem para onde ir. Onde nunca existiu, o piloto não falhou foi entregue. E o primeiro passo para mudar o resultado é também o mais incómodo: parar de fingir surpresa com aquilo que, lá no fundo, já sabíamos desde o início.

Partilhar

Notícias Relacionadas

Young handsome german man wearing glasses working on laptop computer remotely from home, smiling male freelancer in casual clothes sitting at workplace during remote work. Freelance concept

Esta empresa promoveu uma acção de formação de TI gratuita para mais de 300 pessoas sobre IA Generativa



Mais Notícias