O presente e o futuro da formação, visto pelas empresas e pelos especialistas

Margarida Lopes
18 de Dezembro 2020 | 11:45

O presente e futuro da formação estiveram em discussão na mesa redonda promovida no âmbito da disciplina Formação e Desenvolvimento do mestrado em Gestão de Recursos Humanos do ISEG.

 

Ana Assunção, directora da Universidade Corporativa TAP; Maria João Ceitil, coordenadora de HR consulting na Cegoc; António Silva Pina, responsável da formação da Confederação de Turismo de Portugal e António Neto da Silva, CEO do Instituto de Formação Bancária foram os convidados, tendo a moderação ficado a cargo de José Manuel Dias Lopes, professor do ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão.

Quando questionada sobre como a questão da formação certificada é gerida na TAP, Ana Assunção fez notar que a actividade da TAP é fortemente regulamentada e tem exigências a nível dos reguladores do sector. E por isso é necessário satisfazer os requisitos normativos que se impõe e a formação está presente em todos eles. «Se por um lado alivia um bocadinho os serviços no sentido da concepção dessas formações porque é de tal maneira regulamentada que a formação tem de ser dada de acordo com aquilo que é exigido. Por outro lado é um peso a nível do controlo porque por exemplo se um colaborador de terra tiver uma formação certificada podem perder-se certificações. Entre 75% e 80% da formação da TAP é formação certificada», esclarece.

Por isso – explica a responsável explica – todos os técnicos que estão obrigados a este tipo de certificação como pilotos, pessoal de cabine, técnicos de manutenção de aeronave têm de ter formação técnica específica obrigatória e não pode ser descurada.

Continue a ler após a publicidade

Sobre o mesmo tema, António Neto da Silva referiu que, na banca, as directivas vêm da Comissão Europeia e que desde Julho de 2017, o Instituto de Formação Bancária tem certificado, em média, por ano 30 mil estudantes nestas áreas de certificação obrigatória.

«Nesta área da formação e das certificações estamos enquadrados com a European Banking & Financial Services Training Association (EBTN). As pessoas devem ser formadas e são obrigadas a aprofundar o conhecimento sobre literacia financeira dos seus clientes procurando perceber se estes percebem exactamente o que lhes é explicado. O Instituto de Formação Bancária foi a primeira entidade a estar certificada para dar certificação no domínio de crédito tributário», explica.

José Manuel Dias Lopes questionou depois como é que a Cegoc, a partir de um país pequeno, consegue ter uma presença forte no seio do grupo Cegos. Maria João Ceitil deixou claro que a Cegoc tem capacidade de se reinventar, de inovar e isto tem ajudado. «Por exemplo, esta transformação digital que está na ordem do dia está a ser feita há muitos anos na Cegoc.» E acrescentou «a equipa em Portugal é muito coesa, forte e inovadora. Temos um CEO que nos desafia todos os dias e acho que é isto que nos faz destacar. Apesar da pandemia conseguimos ser uma das únicas filias do grupo com resultados positivos».

Continue a ler após a publicidade

Sobre as vantagens da intervenção Confederação de Turismo de Portugal na área da formação e se é replicável para outros sectores, António Silva Pina referiu que «este é um sector tremendamente exposto à concorrência e à globalização, por isso se há inovação, se há mudanças entram rapidamente na área do turismo e por isso temos de nos adaptar. Actualmente a probabilidade de um turista voltar ao mesmo país é extremamente escassa. Se não houver uma tentativa de fidelização de clientes e isso implica uma qualificação da oferta».

O responsável frisou que a formação turística é feita em exclusivo pelo digital e não tem dúvidas que a tecnologia vai introduzir grandes mudanças nas qualificações. «O turismo daqui a 10 anos não vai ter nada a ver com o que é hoje, o que vai ter muitas implicações a nível de formação. Depois da crise sanitária, o turismo vai ter novos desafios, que estão relacionados com a tecnologia, as alterações climáticas, as viagens e a formação».

 

O impacto da pandemia

Para responder à questão, se com a pandemia, o processo de profunda transformação tecnológica vai acelerar ainda mais ao nível da formação, Ana Assunção não tem dúvidas que «quem não investir na inovação morre. Precisamos de respostas a curto prazo, não temos tempo para pensar antes de agir e é aqui que a tecnologia traz vantagens. A Inteligência Artificial (IA) replica mecanismos da mente humana para resolução de problemas complexos e isso foi uma aceleração brutal para nos permitir responder mais rapidamente às questões do dia-a-dia e por isso é importante que as organizações invistam na inovação.»

Continue a ler após a publicidade

Maria João Ceitil concordou e disse ainda que a formação tem-se vindo a transformar e tem que continuar a transformar-se. «A antevisão que se faz dos próximos anos obriga-nos a repensar o que se conhece tipicamente como transformação. A formação tem de deixar de ser centrada no conhecimento, e deve ser concentrada naquilo que é a transformação das skills. As sofs skills hoje e amanhã serão a nossa arma do sucesso. As skills técnicas são fáceis de desenvolver, mas é difícil preparar as pessoas em termos de soft skills para este novo contexto que estamos a viver.»

Já António Neto da Silva deixou claro que no Instituto de Formação Bancária, a transformação digital foi feita muito rapidamente. Muita formação era feita em e-learning mas a partir de Março passou a ser feita por Zoom e Microsoft Teams. «O mundo está a mudar a uma velocidade vertiginosa, o que significa que aquilo que ensinamos e a forma como o fazemos tem de mudar.»

Para o CEO do Instituto de Formação Bancária, há quatro mudanças fundamentais. O estudo vai saltar para um nível de conectividade, colaboração e co-criação. A tecnologia tem que ser completamente plasmada no ensino, tem de agarrar.

Por outro lado, o ensino vai passar a ser customizado, «vamos ter de saltar de um modelo pronto-a-vestir para um modelo customizado.» E os professores vão deixar de ser transmissores de matéria para serem facilitadores para os alunos a chegarem aos patamares que desejam.

António Silva Pina acredita que a aprendizagem será física e virtual e que as aulas e reuniões virtuais vão ficar. «Quando se fala em Inteligência Artificial fala-se em big data, IOT. Aspectos com a gamificação, a realidade virtual, a realidade aumentada vão ser usadas para a formação a muito breve prazo. O futuro da formação vai estar ligado à resolução de problemas».

O responsável explicou que a grande preocupação da OCDE é que a educação e formação quer universitária, quer profissional não está a acompanhar a transformação digital. «A própria CE estabelece competências fundamentais para o futuro, entre as quais se destacam a engenharia, a gestão e a inovação, três áreas fundamentais na transformação digital que se vive. A pandemia só veio acelerar o processo».

Para concluir, os oradores foram questionados como é que a academia pode ser um parceiro activo para os desafios que as áreas de formação vão ter nos próximos anos. António Neto da Silva começou por dizer que é fundamental alinhamento. «Em todas as empresas há um board, a quem compete provocar o alinhamento da economia. É essencial pôr as pessoas a remar para o mesmo lado. Nenhum chefe consegue pôr as equipas a remar para o mesmo lado se não explicar porque é devem remar apara aquele lado.»

Já Maria João Ceitil desafia as universidades a saírem um bocadinho da academia e as empresas a saírem um bocadinho dos negócios. «O conhecimento científico que é promovido nas universidades pode ser optimizado para o mundo dos negócios. É importante as empresas e as universidades trabalharem em conjunto para trazer o conhecimento científico para o mundo das empresas e produzir valor.».

Na opinião de António Silva Pina tem de haver uma grande flexibilidade do ponto de vista curricular e o modelo de ensino universitário dividido em anos e semestres vai acabar. «Tendo em conta que no futuro vão ser eliminadas profissões e vão ser criadas outras, tem de haver da parte das universidades um alerta sobre as necessidades das organizações e a criação currículos adaptáveis.»

Ana Assunção concorda e refere que «são conhecidas experiências de ensino diferentes das promovidas em Portugal e que são mais atractivas por isso é importante reflectir sobre isto para que possa haver uma reinvenção». E conclui referindo que as empresas deveriam ter como prioridade criação de uma relação com as universidades.

Partilhar


Mais Notícias