Novos estudos sugerem que o trabalho remoto poderá estar a desempenhar um papel mais significativo na redução das oportunidades para profissionais em início de carreira.
Durante os últimos anos, o debate em torno do impacto da inteligência artificial no emprego tem-se intensificado, sobretudo no que diz respeito às funções de entrada. Contudo, duas investigações recentes apontam noutra direcção: o trabalho remoto poderá estar a enfraquecer uma etapa fundamental da progressão profissional, reduzindo as oportunidades para jovens licenciados e recém-chegados ao mercado de trabalho.
Segundo os investigadores citados pela Axios, as empresas parecem estar cada vez mais inclinadas a contratar profissionais já experientes, em detrimento de candidatos com pouca experiência. A razão poderá estar relacionada com as dificuldades acrescidas de integração, acompanhamento e desenvolvimento de competências em ambientes de trabalho distribuídos.
Os investigadores alertam que esta tendência pode ter efeitos de longo prazo nas organizações. Se menos jovens profissionais conseguirem entrar e desenvolver-se nas empresas, poderá surgir uma escassez futura de talento intermédio e sénior, comprometendo a renovação das equipas.
Uma das principais conclusões da investigação é que os jovens trabalhadores beneficiam particularmente da proximidade com colegas mais experientes. O feedback informal, a observação do trabalho diário, a partilha espontânea de conhecimento e o mentoring são elementos mais difíceis de reproduzir em modelos remotos ou híbridos.
Economistas da Reserva Federal de Nova Iorque sugerem que muitas organizações receiam contratar recém-licenciados para equipas totalmente dispersas geograficamente, considerando que a aprendizagem e o desenvolvimento de competências são mais difíceis à distância.
Os dados analisados indicam que a taxa de desemprego entre licenciados com menos de 29 anos aumentou de 3,1% antes da pandemia para 3,7% desde 2022. Em contrapartida, entre profissionais mais experientes e com formação superior, o desemprego diminuiu ligeiramente no mesmo período.
Esta divergência é particularmente visível nas funções que podem ser desempenhadas remotamente. Nestas profissões, o desemprego dos jovens aumentou, enquanto os trabalhadores mais experientes beneficiaram de uma maior estabilidade laboral.
Embora a inteligência artificial continue a transformar o mercado de trabalho, os investigadores defendem que muitos dos sinais atribuídos à tecnologia podem, na realidade, resultar da generalização do trabalho remoto. A análise sugere que este factor explica uma parte significativa das dificuldades enfrentadas pelos jovens profissionais desde a pandemia.
Depois de considerado o efeito do trabalho remoto, a relação entre exposição à IA e redução das contratações para funções júnior diminui substancialmente.
As conclusões levantam uma questão estratégica: como garantir a formação da próxima geração de talento num contexto em que a flexibilidade continua a ser valorizada por empresas e colaboradores?
Os especialistas defendem que as organizações devem reforçar programas de onboarding, mentoria, coaching e desenvolvimento de carreira, procurando criar oportunidades de aprendizagem que compensem a menor interacção presencial.
A longo prazo, o risco é claro: se o primeiro degrau da escada de carreira desaparecer, as empresas poderão enfrentar dificuldades crescentes para desenvolver os profissionais de que necessitarão no futuro.

















