O que um bairro como o Zambujal pode ensinar às empresas

Opinião de Hélder Delgado, General manager da Stravillia

Human Resources
13 de Agosto 2026 | 11:00
O que um bairro como o Zambujal pode ensinar às empresas

Por Hélder Delgado, General manager da Stravillia

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Num mundo cada vez mais digital, fragmentado e solitário, criar experiências humanas com propósito deixou de ser um luxo. É uma necessidade estratégica. As organizações que não conseguem gerar pertença arriscam-se a perder talento, energia e capacidade de inovar.

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Vivemos um paradoxo: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão expostos ao isolamento. Segundo o State of the Global Workplace 2024, da Gallup, um em cada cinco trabalhadores no mundo sentiu solidão no dia anterior à entrevista. A tecnologia aproxima, mas não substitui a presença, a escuta ou o contacto com realidades diferentes da nossa.

Aprendi isso ao longo de quase duas décadas no sector social. No Programa Escolhas, trabalhei em projectos de inclusão em territórios marcados pela desigualdade. No IPAV, através da Academia de Líderes Ubuntu, acompanhei pessoas que transformaram as suas histórias em instrumentos de liderança e mudança.

Esse percurso ensinou-me que a transformação não acontece quando chegamos com respostas prontas, mas quando fazemos as perguntas certas e estamos disponíveis para ouvir. Ensinou-me também que os territórios classificados como vulneráveis possuem recursos que muitas organizações procuram, mas dificilmente conseguem fabricar: resiliência, criatividade, adaptação, entreajuda e sentido de comunidade.

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O Bairro do Zambujal, na Amadora, é um exemplo. Através do projecto Zambujal 360, promovido pela CAZAmbujal, tornou-se o primeiro empreendimento de habitação social a assumir-se como embaixador dos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Esses objectivos ganharam vida em 17 murais construídos a partir das histórias e ambições da comunidade.

O projecto mostra que a sustentabilidade pode transformar-se numa linguagem de identidade, participação e acção local. O bairro não é apenas destinatário de uma iniciativa. É autor da mudança.

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É aqui que existe uma aprendizagem importante para as empresas. Durante demasiado tempo, a responsabilidade social foi encarada como uma relação unilateral: a organização escolhia uma causa, mobilizava colaboradores, realizava uma acção e regressava à rotina. A comunidade surgia como beneficiária, raramente como parceira com conhecimento e voz própria.

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Donativos, voluntariado e parcerias são importantes, mas não bastam para transformar culturas organizacionais. Sem contacto real, continuidade e reciprocidade, o impacto corre o risco de ficar reduzido a um indicador no relatório de sustentabilidade.

Quando uma empresa entra num território com humildade e vontade genuína de aprender, o impacto acontece nos dois sentidos. A comunidade pode beneficiar de recursos e visibilidade; as equipas desenvolvem competências que nenhuma apresentação consegue reproduzir. Trabalhar em contextos de diversidade real exige escuta, empatia, tolerância à ambiguidade e liderança adaptativa.

Estas competências continuam a ser chamadas “soft”. Na verdade, são estratégicas. Num contexto de transformação tecnológica e incerteza, compreender o outro, adaptar decisões e criar confiança é tão relevante como qualquer conhecimento técnico.

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As experiências de impacto social devem partir desta convicção: não entrar num território para ensinar ou substituir quem lá está, mas para colaborar. Uma comunidade não é um cenário para fotografias de voluntariado. É um conjunto de pessoas com conhecimento e uma visão própria do futuro.

As empresas que compreendem esta realidade deixam de perguntar apenas o que podem oferecer e começam também a perguntar o que podem aprender: como se criam redes de apoio, como se mobilizam pessoas em torno de objectivos comuns e como se preserva o sentido de pertença.

A sustentabilidade social tornou-se central para a gestão porque os colaboradores procuram propósito, os clientes exigem coerência e as organizações precisam de culturas mais humanas e resilientes.

O futuro das empresas também se constrói quando a estratégia encontra a comunidade de forma respeitosa e o impacto deixa de ser apenas descrito para passar a ser vivido. Esse futuro pode começar num bairro como o Zambujal, que tem muito para ensinar a quem tiver a humildade de entrar, ouvir e aprender.

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