O surto de COVID-19 é um cisne negro ou o novo normal?

A escala do que está a acontecer é difícil de compreender e é lógico questionar se a COVID-19 é o chamado cisne negro que sociedade e negócios há muito temem. A resposta é: claro que sim. Mas pode também ser o tipo de desafio que agora enfrentaremos frequentemente – um novo normal.

 

Por Andrew Winston, MIT Sloan Management Review

 

Entre o tempo que passou desde que escrevi isto e vocês o estão a ler, qualquer coisa que eu diga sobre a COVID-19 estará provavelmente ultrapassado. É a natureza de algo que se move a uma velocidade exponencial na sociedade.

É demasiado cedo para falar das “lições aprendidas” enquanto se desenrola uma tragédia humana em grande escala. Mas é difícil pensar noutra coisa neste momento, e o cérebro procura algo útil a que se agarrar. Por isso, farei algumas observações sobre este desafio global e a sua relação com outras questões importantes como as alterações climáticas.

 

Pensar o quadro geral
-Temos de compreender e reagir melhor ao crescimento exponencial. A 11 de Fevereiro, o número de casos de COVID-19 fora da China estava abaixo dos 400. Enquanto escrevo isto, cinco semanas depois, chegou a mais de 90 mil – com um crescimento de mais de 18% num único dia.

Os professores há muito que usam este paralelo para explicar o crescimento exponencial: imaginem um lago com um único nenúfar. Todos os dias o número de nenúfares duplica, e em 30 dias o lago está coberto (e sufocado). Em que dia considerariam que estava meio coberto? E 1% coberto? As respostas são dia 29 e dia 24. Mesmo que se use uma taxa de crescimento de 50% em vez de 100%, é dia 28 e dia 19.

No contexto da COVID-19, isto significa que se não “atenuarmos a curva do crescimento”, veremos rapidamente grandes números de doentes e mortos. O nosso sistema de saúde e a nossa economia correm o risco de ruir sob esse peso.

Temos alguma experiência (e sucesso ocasional) na gestão do crescimento exponencial que estimula os nossos maiores desafios globais, incluindo população, utilização de recursos e emissões de gases de estufa.

Da Revolução Industrial à década de 2010, tudo isto cresceu de forma não linear. O crescimento de emissões está agora a diminuir, felizmente. Em parte por ter sido difícil prever como seria o crescimento exponencial das emissões, reagimos demasiado tarde para evitarmos impactos significativos nas pessoas e no planeta. O mesmo está a acontecer agora com a COVID-19, já que as pessoas demoram a cortar drasticamente o contacto com os outros, portanto espera-nos uma quantidade desconhecida de sofrimento.

Por outro lado, e porque precisamos de boas notícias, algumas coisas positivas moveram-se de forma não linear nas recentes décadas: a diminuição da pobreza infantil, a redução de algumas doenças (algumas até zero) e a queda do custo das energias renováveis. Estas tendências positivas estimulam alterações positivas na sociedade e exigem igualmente preparação.

 

– Os limites planetários moldarão o nosso mundo num futuro previsível. O planeta tem os seus limites – só aguenta determinadas minas produtivas, deter- minados peixes no oceano, determinada terra cultivável, determinado CO2 que oceanos e atmosfera conseguem absorver, entre outros. Ao testarmos estes limites , arriscamos-nos a tornar o planeta irreconhecível. Todas as economias e negócios terão de encontrar uma forma de trabalhar dentro destes limites de velocidade básicos.

Provavelmente, a ascensão de vírus como este que causa a COVID-19 é um derivado de alguns destes limites. Os cientistas ainda não compreenderam totalmente a origem do novo coronavírus, mas sabe-se que possivelmente envolveu morcegos, assim como outras espécies. As primeiras pessoas infectadas trabalhavam num mercado de animais vivos invulgares, como o pangolim, uma espécie de papa-formigas, outra fonte suspeita do surto.

Mas porque é que as pessoas comem estes animais? Talvez eu esteja a simplificar demais, mas é uma espécie de combinação de pura sobrevivência com uma atitude de que “os animais vivem para o Homem”. Quando quase oito mil milhões de pessoas habitam um único planeta, fazendo pressão na natureza, e milhares de milhões não têm o suficiente para sobreviverem, comerão o que for preciso. E quando vemos a natureza como algo que foi simplesmente feito para ser usado, exploramos-la demais.

 

Um pau de dois bicos
-Temos de compreender que estamos todos ligados. O pêndulo tem virado nos últimos anos para o lema “cada um por si”. O nacionalismo puro é francamente perigoso perante questões universais como as alterações climáticas, a utilização excessiva de recursos e, sim, as pandemias. De certo modo, somos tão fortes como os nossos sistemas imunitários mais fracos.

Neste sentido, questões aparentemente políticas como “Devem todos ter acesso a cuidados médicos básicos?” tornam-se questões de prosperidade humana e económica. Em suma, se as pessoas não têm cobertura e não conseguem parar de trabalhar quando estão doentes (porque não têm acesso a subsídios ou benefícios), então vão trabalhar. Vão tratar e preparar alimentos. Vão vender-nos produtos alimentares. Vão conduzir as ambulâncias. Não podemos esconder-nos atrás de muros físicos e económicos. Se não existe um acesso básico a energia, água, alimentos e cuidados médicos para todos, todos estaremos em risco. Se não prosperarmos todos, ninguém prosperará.

 

-As alterações climáticas e as doenças estão ligadas. Existem sobreposições e dependências entre todas as nossas grandes questões. Com o aquecimento do planeta, as estações serão mais longas e as distâncias geográficas expandir-se-ão para muitas doenças perigosas, como a malária, a febre de dengue, o vírus chikungunya e o vírus do Nilo Ocidental. Precisamos de pensar no nosso sistema de saúde com todas estas tendências em mente.

Ao mesmo tempo, à medida que o nível do mar sobe e algumas áreas tornam-se inabitáveis, teremos mais refugiados. Provavelmente terão pouco apoio económico e médico. Não estou a dizer que os refugiados transportam consigo doenças exóticas – os nossos próprios cidadãos que viajam em aviões e barcos importaram e propagaram mais a COVID-19. Mas podemos reconhecer que mais pessoas em movimento com pouco apoio institucional não são benéficas para a saúde geral.

E, de uma forma perversa, os abrandamentos económicos criados pelas quedas nos mercados ou pelas pandemias abrandam as emissões. Como Christiana Figueres, antiga directora climática da Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou recentemente, a desaceleração do crescimento económico graças ao coronavírus «pode ser boa para o ambiente… porque há menos negócios, menos viagens, menos comércio». Isto é obviamente uma consequência que cria um misto de emoções: menos poluição é bom, mas os custos humanos dos abrandamentos económicos acrescentam um problema real aos resultados já devastadores de uma pandemia.

Podemos ver do espaço que a qualidade do ar à volta de Wuhan, na China, fica drasticamente melhor quando as pessoas param de fazer o que quer que seja. Não é assim que queremos lá chegar, mas esta crise permite-nos imaginar um mundo em que as marcas da nossa economia são muito menores e as pessoas conseguem literalmente respirar melhor. Cerca de oito milhões de pessoas morrem prematuramente por causa da má qualidade do ar. Não seria agradável se encontrássemos um modo de desenvolvermos uma economia para todos que reduzisse consideravelmente o risco das pandemias e diminuísse as mortes  e doenças provocadas pela poluição e alterações climáticas?

 

Leia o artigo na íntegra, na edição de Maio da Human Resources.

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