O actual conceito de T-shaped professional descreve profissionais que têm profundidade numa área de especialização (a barra vertical do T), mas também têm conhecimentos, interesses e capacidade de colaboração em várias áreas (a barra horizontal do T). Ou seja, são especialistas, mas não são apenas especialistas. Serão neo-especialistas? Ou especialistas renascidos?
O Renascimento não foi uma época de especialistas, mas sim de polímatas. O próprio Leonardo da Vinci era pintor, engenheiro, anatomista, inventor e cientista. Hoje, provavelmente, teria dificuldades em fazer o seu CV porque não saberia como posicionar-se: “head of…” seria manifestamente pouco para o seu corpo extenso de conhecimentos.
O intraempreendedor como polímata – pessoas versáteis, que combinam conhecimento de várias áreas e têm interesses diversos. Esta relação surgiu-me ao ler “How to Think Like Leonardo da Vinci”, de Michael J. Gelb, com a apresentação de sete princípios associados à forma de pensar de Leonardo, que curiosamente (ou não) descrevem o perfil de um intraempreendedor e também de um profissional em T.
O primeiro princípio é o da curiosidade. Leonardo era obcecado por perguntas. As organizações precisam de pessoas que façam perguntas e não apenas de “executores”.
O segundo princípio é o da demonstração, aprender através da experiência e da experimentação. Leonardo aprendia fazendo, testando e falhando. O intraempreendedor também trabalha assim: protótipos, projectos-piloto, pequenas experiências.
O terceiro princípio é o das sensações, a capacidade de observar e desenvolver uma percepção apurada do que nos rodeia. Os intraempreendedores são pessoas que vêem problemas operacionais e oportunidades de melhoria porque estão atentos ao detalhe do dia-a-dia.
O quarto princípio é o do sfumato, a capacidade de lidar com a ambiguidade e a incerteza. Intraempreendedores trabalham quase sempre em zonas cinzentas: ideias que podem falhar, iniciativas que ainda não foram apadrinhadas – e que podem acabar por se esfumar…
O quinto princípio é o da ligação entre arte e ciência, ou seja, entre a criatividade e a lógica. O intraempreendedor raramente é apenas criativo ou apenas analítico; normalmente, consegue ligar tecnologia, negócio, pessoas e processos.
O sexto princípio é o da corporalidade, associada à acção e à execução. Leonardo não era apenas pensador; era construtor e experimentador. O intraempreendedor também não é apenas a pessoa das ideias, é quem faz acontecer.
Por fim, o sétimo princípio, o da conexão, a capacidade de ver relações entre coisas aparentemente não relacionadas. Esta é talvez uma das competências mais importantes do intraempreendedor: ligar departamentos, ideias e pessoas. “Parece fácil, mas não é para todos”, certo?
Estas ideias ganham expressão no livro “The Polymath: Unlocking the Power of Human Versatility”, de Waqas Ahmed, que defende que o futuro do trabalho não pertence apenas aos especialistas, mas às pessoas com interesses múltiplos, competências diversas e capacidade de aprender continuamente. O autor recupera a ideia renascentista do polímata e argumenta que a especialização extrema pode limitar a inovação e a capacidade de adaptação.
Se pensarmos bem, muitos intraempreendedores são precisamente polímatas organizacionais e também profissionais em T: têm profundidade numa área, mas conseguem “circular” entre outras áreas, interligar conhecimento e trabalhar com diferentes equipas. Durante muitos anos, as organizações foram desenhadas para carreiras verticais, especialização e progressão hierárquica dentro da função. Mas o intraempreendedor e o profissional em T desenvolvem-se de forma diferente: mobilidade interna, projectos multidisciplinares, aprendizagem contínua, experiências variadas e contacto com diferentes áreas da organização. Às vezes até em Z, de zigue-zague!
Vejamos o Homem Vitruviano como uma metáfora moderna para a gestão de talento. O seu desenho representa o equilíbrio e a proporção; o profissional em T representa o equilíbrio entre a profundidade e a amplitude; o intraempreendedor representa a capacidade de usar esse equilíbrio para criar mudança dentro da organização.
Se o Renascimento foi um período em que o ser humano voltou a estar no centro do conhecimento e da inovação, talvez as organizações hoje precisem do seu próprio Renascimento – não tecnológico, mas humano. Um Renascimento feito de pessoas curiosas, versáteis, capazes de ligar conhecimento, experimentar, aprender e tomar iniciativa dentro das organizações. Os T-Intraempreendedores!
Este artigo foi publicado na edição de Abril (nº. 184) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.














