O taxista, Wistleblowing e Employer Branding

Por Isabel Moço, coordenadora e professora da Universidade Europeia

Numa viagem de táxi, conheci o senhor Augusto. Nessa viagem, de cerca de 20 minutos, em que apenas me apetecia ser levada ao destino, ele insistiu na conversa – obrigada pela riqueza do que me fez pensar Sr. Augusto. Dizia o senhor que estava zangado com um colega de profissão que havia “enganado” uns estrangeiros ali pelos lados do Parque das Nações. Contava que por muito esforço que se fizesse – ele, os colegas, os chefes, os patrões e até os clientes – para dignificar e honrar a profissão, havia aqueles que só se importavam consigo e com a sua carteira – hoje, e que deviam ser impedidos de exercer a profissão de que muito se orgulhava – de imediato fui levada para as questões da ética, dos valores e dos princípios, mas uma frase do senhor levou-me para o Employer Branding  – “repare, por muito que o patrão nos crie condições, que seja sério nos motoristas que escolhe, que se preocupe connosco e com as condições em que trabalhamos, que se empenhe em ser justo com o que nos paga, são estas pessoas que nos acabam com o negócio. E temos de os aturar, pois se denunciarmos somos mal vistos na classe.” Está absolutamente certo senhor Augusto, e deixo o meu reconhecimento por saber do seu papel, por o assumir, por fazer o que está ao seu alcance, mas também por conseguir ver o “lado do seu patrão”. Adivinho uma condição socioeconómica modesta, provavelmente pouca escolaridade, mas uma riqueza de valores e experiência que muito bem sabe expressar (quando lho disse ele respondeu “muitos anos a ouvir rádio”).

Efetivamente, todos os esforços de promoção da marca de empregador, de pouco servirão enquanto o empregador (mas claro também cada trabalhador) não compreender o determinante papel que as suas pessoas têm, quer na demonstração dessa orientação, na sua disseminação e reforço. Employer branding começará então em primeira instância, por o que se faz internamente, pela forma como se faz e por aquilo que se tolera que se faça. Assim, compete ao empregador assegurar que casos como o relatado pelo Sr. Augusto, possam encontrar espaço para serem denunciadas. Por outras palavras, que as pessoas que de facto estão agregadas e envolvidas na cultura e estratégia da empresa possam sentir-se confortáveis e seguras e que se combata (num plano mais geral) os comportamentos que não se desejam.

Leva-nos o relato a muitos outros temas da gestão de pessoas, muitos dos quais insistentemente presentes nas agendas de quem pensa e discute estas temáticas. Mas há temas que pouco se exploram e urge pôr-lhes holofotes e trazê-los à discussão – será o caso do Wistleblowing (Diretiva UE, 2019/1937, que até dezembro deveria ser transposta para a legislação nacional). Prevê a mesma que as pessoas que trabalham numa empresa, nos seus afazeres e no dia-a-dia, são as que mais facilmente têm conhecimento de comportamentos de outras pessoas que lá trabalham também, que podem vir a comprometer o desempenho, os resultados ou mesmo a reputação da profissão, seus agentes e da empresa como um todo – exatamente o que o Sr. Augusto relatava, pois, as consequências do seu comportamento afetam o cliente, o Sr. Augusto, o grupo profissional, o patrão e outros indiretamente ligados ao negócio – portanto, um tema que interessará em ultima instância a toda a sociedade em geral.  Creio que se o Sr. Augusto tivesse a possibilidade de se sentir confortável, seguro e suportado para partilhar o caso do colega com o seu patrão, seria uma extraordinária oportunidade da empresa evoluir e desenvolver a sua forma de se apresentar ao mercado através dos seus profissionais. O caso do Sr. Augusto é, ou não, um caso de Wistleblowing e Employer Branding?

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