À medida que o plano de vacinação COVID avança, as empresas começam a preparar o seu “desconfinamento empresarial”. Nos últimos meses, várias empresas anunciaram a adopção do teletrabalho em exclusivo no pós-pandemia, para trabalhadores que o queiram. Mas o tema não é consensual. O Expresso falou com vários especialistas.
Há quem defenda as vantagens do teletrabalho em exclusivo, mas há quem considere que os riscos são maiores do que os benefícios e que a poupança decorrente de retirar as equipas no escritório é anulada pelo aumento de despesa noutras áreas. De acordo com especialistas, citados pelo Expresso, só há poupança se o modelo definido pela empresa permitir reduzir significativamente ou eliminar os encargos no escritório.
Os vários especialistas citados pelo Expresso, referem que a poupança mais expressiva para as empresas decorre da redução dos encargos com o imobiliário, mas mesmo essa não é imediata. «Em Lisboa, a área média por transacção em espaços para escritório é de 1300 m2 e o valor médio por metro quadrado ronda os 18 euros. No Porto os valores são mais baixos, a área média por transação ronda os 1000 m2 e o preço por metro quadrado é 16 euros», explica Mariana Rosa, responsável pela unidade de Leasing Markets (arrendamento empresarial) da consultora JLL.
Posto isto, arrendar um escritório na capital custa em média 23.400 euros mensais às empresas, e no Porto 16 mil euros. A estes custos há ainda que somar o condomínio, em média a 2,50/m2 euros, tanto em Lisboa como no Porto, e os lugares de estacionamento que em Lisboa rondam os 120 euros mensais por lugar e no Porto 100 euros. Tudo somado, o arrendamento de um escritório, considerando 65 lugares de estacionamento, custa em média entre 34.450 euros mensais (413.400 euros anuais) e 25 mil euros mensais (300 mil euros anuais), em Lisboa e no Porto, respectivamente.
«Se as empresas conseguirem eliminar ou reduzir significativamente estes custos, obviamente que o teletrabalho se apresentará como uma solução vantajosa», explica à publicação Mariana Rosa. Tanto mais que há ainda a acrescentar encargos com a manutenção dos espaços, segurança, limpeza, eletricidade, água, consumíveis e outros que variam consoante a empresa. Mas apesar de reconhecer que a pandemia está a provocar uma retração no arrendamento de escritórios, a especialista explica que as empresas «ainda não estão a tomar decisões de fundo nesta matéria e, por isso, a eventual poupança com o teletrabalho ainda não se está a materializar».
E de acordo com o expresso, muito provavelmente não chegará a materializar-se em escala. Isto porque os estudos que têm sido feitos indicam que a maioria dos trabalhadores quer um modelo misto de trabalho, remoto e presencial. Ou seja, as empresas poderão reduzir a dimensão dos escritórios, «mas dificilmente poderão eliminar totalmente as despesas com imobiliário», explica Anabela Silva, sócia para a área de People Advisory Services (serviços de Gestão de Recursos Humanos) da consultora EY.
A especialista da EY reconhece que o teletrabalho permite reduzir custos «as despesas com deslocações, por exemplo, diminuíram muito com as reuniões remotas», mas sinaliza que o aumento de encargos em muitas outras áreas ultrapassa com facilidade essa redução de custos. Para conseguir colocar as equipas em teletrabalho, as empresas têm de investir fortemente em tecnologia. A lei dita que o empregador tem de assegurar os meios técnicos para o teletrabalho e garantir a sua manutenção.
As empresas estão também obrigadas a comparticipar ao trabalhador as despesas decorrentes do teletrabalho «e muitas estão a fazê-lo. E há ainda que considerar o investimento em cibersegurança, já que o trabalho remoto está mais exposto a ataques», alerta Anabela Silva. No saldo final, diz, «há empresas para quem o teletrabalho se está a traduzir num acréscimo de custos e não em poupança».














