O triunfo da IA: ainda precisamos de gestores de projecto?

Human Resources
7 de Novembro 2024 | 11:00

Por Pedro Engrácia, subdirector-geral da DGAEP (Direcção Geral da Administração e do Emprego Público)

 

Nesta década, a popularização da utilização da Inteligência Artificial em todos os sectores de actividade — da indústria automóvel à previsão climatérica, da medicina à guerra — tem demonstrado um impacto disruptivo. A automatização de tarefas repetitivas, lidando com volumes de dados sem precedentes em questão de meros segundos, permite a tomada de decisão em tempo útil, considerando cenários extraordinariamente complexos.

A evolução extremamente acelerada, acompanhada pela democratização do uso da IA, motivada pela sua disponibilização — ainda que em versões de capacidade limitada — ao grande público, tem levado muitos a questionar o papel futuro de determinadas profissões, como, por exemplo, a de gestor de projecto.

A ascensão de algoritmos sofisticados, como ferramentas de análise predictiva, gestão de recursos, monitorização de projectos e compreensão semântica, pode gerar a falsa impressão de que a função do gestor de projecto poderá ser substituída pela IA.

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Na verdade, gerir projectos implica um conjunto de competências humanas que a tecnologia, por mais avançada que seja, ainda não é capaz de replicar integralmente.

O papel humano na gestão de projecto: mais do que tarefas, relações

A adopção da IA no contexto de projectos deve ser entendida como mais uma ferramenta e, por isso, um complemento, e não como um substituto do gestor de projecto. Como exemplo, o PM2, a metodologia de gestão de projectos da Comissão Europeia, que se baseia em princípios de planeamento rigoroso, acompanhamento de resultados e transparência, valoriza, acima de tudo, a gestão da relação com as partes interessadas, a liderança de equipas multidisciplinares e a adaptação a riscos não conhecidos — elementos que são inerentemente humanos.

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Embora o gestor de projecto também tenha a responsabilidade monitorizar o cronograma ou controlar o orçamento do projecto, a sua função chave é facilitar a comunicação entre e nas equipas, gerir as expectativas das partes interessadas e actuar como um mediador para resolver conflitos que possam comprometer o sucesso do projecto. A capacidade de construir e gerir relações interpessoais, motivar equipas e tomar decisões críticas em momentos de incerteza são exemplos de soft skills que a IA, até à data, não consegue imitar. Com o crescente aumento da proficiência do uso da Inteligência Artificial generativa, equipas mais maduras já fazem uso das ontologias das estruturas de comunicação e seus elementos, o que permite que a Inteligência Artificial generativa seja uma aliada importante no processo de comunicação, com influência directa e positiva no processo de integração.

A IA como aliada: aumentar, não substituir

Ao longo da minha carreira, tenho testemunhado a evolução da ciência e da tecnologia aplicadas à gestão de projectos, desde simples ferramentas de acompanhamento até complexos processos de gestão de portefólio. Hoje, com o apoio da IA, conseguimos ter uma visão mais clara de riscos, custos e prazos através da automatização da análise de performance do projecto e a geração de dashboards em tempo real. Estes novos recursos permitem que os profissionais se concentrem nas áreas de maior ambiguidade, onde a avaliação humana é crucial. Gestores de projectos experientes são capazes de explorar com mais eficiência o poder criativo da IA generativa e, a partir disso, identificar com maior facilidade oportunidades dos projectos, o que historicamente sempre foi uma deficiência, pois sempre identificávamos muito mais ameaças do que oportunidades.

Ou seja, a IA deve ser vista como uma aliada que potencia a capacidade do gestor de projecto. Automatizar tarefas não significa que não exista necessidade de intervenção humana — significa, pelo contrário, que o gestor de projecto pode concentrar-se em tarefas de maior valor estratégico, como a inovação, a gestão de mudança ou a liderança.

O futuro da gestão de projetos: sinergia entre IA e profissionais

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Ao olharmos para os próximos anos, a gestão de projectos será marcada por uma transformação ainda mais profunda. A IA continuará a evoluir, cada vez de forma mais rápida e disruptiva, proporcionando ferramentas de automação mais avançadas e uma integração mais fluida entre todos os processos de projecto, desde o planeamento até à execução e monitorização. As plataformas baseadas em IA terão a capacidade de analisar e relacionar mais informação, de gerar previsões mais precisas, identificar riscos com maior antecedência e recomendar soluções alternativas baseadas em milhões de dados históricos, tornando o processo de decisão mais célere e informado.

Assim, será que ainda precisamos de gestores de projecto?

A resposta é um inequívoco sim. O gestor de projecto será, cada vez mais, o arquitecto do equilíbrio entre a inteligência artificial e a inteligência emocional, utilizando a tecnologia para potenciar a eficiência e os resultados, mas mantendo o foco nas pessoas, nas decisões estratégicas e na navegação de contextos complexos, ambíguos e dinâmicos.

A verdadeira revolução na gestão de projectos não reside na substituição, mas na sinergia e na colaboração: gestores de projecto e IA trabalhando em conjunto para criar organizações mais ágeis, inovadoras e orientadas para o sucesso. O desafio para o futuro será a contínua adaptação dos gestores a este novo cenário, adquirindo novas competências tecnológicas sem perder de vista o elemento humano, que continua a ser fundamental para o sucesso de qualquer projecto.

Podemos esperar que a função do gestor de projecto seja altamente híbrida, combinando as capacidades analíticas oferecidas pela IA com a liderança humana. Estes profissionais terão de dominar a interacção com sistemas de IA, extrair conclusões valiosas e traduzir esses dados em acções que impulsionem o sucesso organizacional. Haverá também um foco crescente na gestão da mudança, uma vez que a introdução de novas tecnologias criará desafios de adaptação contínua para equipas e organizações.

Por fim, a natureza dos projectos também deverá evoluir. Com a adopção cada vez maior de IA, veremos mais projectos multisectoriais e internacionais, exigindo gestores que consigam navegar ambientes culturais diversos e altamente regulamentados, como os sectores público e privado. A interoperabilidade entre sistemas de IA e humanos será essencial, e os gestores de projecto estarão entre os principais champions deste processo de transição.

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