Ordem defende continuidade do novo regime de pagamento de horas extraordinárias aos médicos

Human Resources com Lusa
5 de Agosto 2022 | 16:40

O bastonário da Ordem dos Médicos defendeu a continuidade do novo regime de pagamento de horas extraordinárias nas urgências, que vigora até ao final de Janeiro de 2023, para que «a injustiça» não volte a reinar.

 

O diploma, que entrou em vigor a 26 de Julho, visa responder a três necessidades que foram sinalizadas ao Governo: Criar condições para ter mais profissionais de forma estável no Serviço Nacional de Saúde, remunerá-los adequadamente no serviço de urgência e diminuir a dependência dos prestadores de serviços.

Em entrevista à agência Lusa a propósito da crise que se vive no SNS, Miguel Guimarães considerou que o novo regime, «ainda que pontual», trouxe justiça no pagamento de horas extraordinárias.

«Não fazia sentido que um médico que veste a camisola do Serviço Nacional de Saúde todos os dias e que fazia horas extraordinárias, mesmo além das 150 horas previstas na legislação (…), recebesse 12, 15 ou 17 euros à hora e um médico contratado a uma empresa prestadora de serviço recebesse 30, 40 ou 50 euros à hora», elucidou.

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Lamentou, contudo, ser uma medida transitória: «A partir do fim do mês de Janeiro a injustiça volta a reinar».

«Estamos numa altura crítica e (…) não é por ser verão, não é por ser o mês de agosto, isto começou há dois ou três meses», disse, não acreditando que a situação no SNS esteja normalizada até ao final do ano.

Considerou também «muito pouco provável» que o Governo tenha um novo modelo de carreira médica negociado com os sindicatos este ano, o que é fundamental para ter «um SNS com mais capacidade de resposta e mais robusto».

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Miguel Guimarães disse que os problemas nos serviços de urgência não se restringem à obstetrícia/ginecologia.

O bastonário contou que recebeu esta semana médicos do Hospital de Torres Vedras, no distrito de Lisboa, que relataram que a situação a nível da Medicina Interna, «uma especialidade basilar do serviço de urgência geral», está com dificuldades praticamente todos os dias, uma situação que é transversal a vários hospitais.

«Alguns hospitais estão até a fazer coisas que podem ter consequências muito negativas como é o caso do Hospital de São Francisco Xavier (Lisboa), porque não ter um especialista de Medicina Interna no serviço de urgência em pleno (…) é uma situação completamente anormal e que fere tudo aquilo que são as regras de segurança», alertou.

Segundo o representante dos médicos, não há nenhum hospital do país sem problemas. «Estamos a chegar a situações críticas porque as pessoas não têm o capital humano no Serviço Nacional de Saúde que deviam ter e a responsabilidade directa disto é do Ministério da Saúde», apontou.

«Os grandes porta-aviões [hospitais] estão a perder médicos também todos os dias. É uma questão geral e, portanto, é pouco previsível que a necessidade de contratar serviços médicos através de empresas prestadoras de serviços ou até os médicos diretamente como tarefeiros vá desaparecer até ao fim do mês de Janeiro», argumentou.

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Miguel Guimarães avisou ainda que «desvalorizar completamente os médicos que vestem a camisola do SNS todos os dias», e simultaneamente valorizar os prestadores de serviço, «é mandar embora» os que estão no serviço público.

«Isto não é uma gestão correcta de recursos humanos», criticou, apelando ao Ministério da Saúde para que pondere esta situação de «forma mais profunda» porque «o capital humano é a coisa mais importante que existe».

O bastonário destacou a importância da ministra da Saúde ouvir quem está no terreno e as estruturas que os representa, deixando um aviso: «Ou a senhora ministra consegue dar a volta à situação e consegue tomar um rumo diferente (…) que permita que os médicos passem novamente a acreditar na política de saúde ou então a situação acaba por correr mal e depois já não funciona».

Alertou ainda para as «imensas dificuldades» que os médicos estão a viver, enfatizando que nunca a síndrome de burnout foi tão elevado como agora, bem como as questões relacionadas com sofrimento ético.

«Neste momento, há um conjunto largo de médicos que nem sequer deviam estar a trabalhar, porque estão numa situação de stress enorme e eu não vejo as coisas a serem atempadamente corrigidas», lamentou Miguel Guimarães, que tomou posse como bastonário em 2017.

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