Os despedimentos colectivos e o lado humano da reestruturação

Human Resources
27 de Novembro 2025 | 11:00

Por Ana Viçoso Ferreira, head de Outplacement e Talent Solutions da Intoo Portugal, Gi Group Holding

 

Nos últimos meses, o tema dos despedimentos colectivos tem regressado ao centro da discussão pública. Os números ajudam a perceber a dimensão do fenómeno: segundo os dados da Direcção-Geral do Emprego e das Relações do Trabalho (DGERT), até Julho de 2025, o número de pessoas abrangidas por despedimentos colectivos aumentou 30,3% face ao período homólogo, atingindo quase 4.700 trabalhadores. Neste cenário, é na zona de Lisboa e Vale do Tejo em que se concentram a maioria dos casos, reflectindo a forte presença das indústrias transformadoras e do comércio, dois dos sectores que continuam a enfrentar grandes reestruturações.

Mas, por detrás destes números, estão sempre histórias de pessoas. Das que perderam o emprego, mas também das que ficam e que observam, interpretam e sentem a forma como a organização trata quem sai. Cada despedimento é mais do que uma estatística: é um momento de quebra emocional e organizacional que exige cuidado, comunicação e liderança. É precisamente aqui que se revela a diferença entre despedir e estar consciente do que esse gesto significa e implica.

Nos últimos anos, o conceito de outplacement continua a ganhar força, tanto em Portugal como a nível mundial. Esta evolução revela uma mudança de consciência nas empresas: por um lado a percepção de que o modo como se gerem as saídas é tão estratégico quanto a forma como se conduzem novas entradas, por outro o reconhecimento de que outplacement é um processo estruturado de posicionamento, com foco, direcção e propósito. Cuidar de quem sai é, hoje, uma parte essencial de cuidar de quem fica.

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Na verdade, os países da OCDE com maior produtividade são também aqueles que há muito adoptaram práticas de transição responsáveis. Em alguns, como a Bélgica, Áustria ou Países Baixos, o outplacement é previsto por lei. Noutros, tornou-se uma norma ética e parte integrante de uma cultura de respeito pelas pessoas. Portugal começa agora a aproximar-se dessa visão, e isso é, por si só, um sinal de maturidade económica e social.

Porque despedir não tem de ser sinónimo de quebra. Pode, e deve, ser um acto de liderança ética, que equilibra a necessidade empresarial com o cuidado humano. Porque no final do dia, são as pessoas quem ditam o verdadeiro sucesso das organizações. E é no modo como se encerram ciclos que se mede a verdadeira cultura de uma organização.

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