A Gartner projectou que, até 2026, uma em cada cinco organizações eliminaria mais de metade da sua gestão intermédia. O prazo foi adiado, mas a tendência, não. Gigantes como a Amazon, Walmart e Microsoft já estão a reduzir as camadas entre executivos e a linha da frente. Outras pesquisas mais recentes, incluindo o estudo da Harvard Business Review, indicam que para prosperar na era da IA, as empresas precisam de “agent managers”, ou seja gestores que supervisionam os agentes de IA autónomos.
Nuo fundo, o debate não está errado. O que está errada é a premissa. E a premissa é a própria pirâmide.
A organização hierárquica nunca foi uma característica permanente das empresas. Era uma solução para um problema específico: a escassez e a lentidão da informação. A gestão intermédia existia porque a disseminação do conhecimento era cara. A IA remove esse estrangulamento e não achata apenas a pirâmide, dá-lhe o formato errado.
Fundamentalmente, não é apenas a IA que dissolve o estrangulamento. O que está a convergir sobre o mundo corporativo são quatro tecnologias com aceleração exponencial que, juntas, constituem algo que a civilização nunca viu. Liderada pela IA, inclui robótica, computação quântica e interfaces cérebro-computador. A pirâmide foi construída para a escassez. O que esta nova realidade oferece é abundância e são necessárias novas estruturas.
Para nomear o que deve substituir a pirâmide, Brett Hurt, CEO da Love Conquers Fear, uma empresa focada no propósito de ajudar a humanidade a alcançar a abundância para todos, apresenta dois conceitos. O primeiro é o “linearismo”: a lógica operacional da era industrial, onde a autoridade flui de cima para baixo e o trabalho se move em sequência em direcção a resultados padronizados. O sucesso é medido numa única dimensão: o lucro. Foi uma conquista notável na sua época. Mas é estruturalmente incapaz de servir o que vem a seguir.
O segundo é o “esfericismo”, em que na organização, o propósito ocupa o centro, não um título ou um executivo, mas um sentido partilhado de por que razão a organização existe e que valor cria para além do lucro. A IA dá a cada equipa acesso directo e imediato ao conhecimento e ao poder analítico.
É na superfície da esfera, e não na base da pirâmide, que a organização encontra o mundo. As equipas não estão acima nem abaixo umas das outras. A organização cresce não acrescentando camadas, mas expandindo o seu raio, gerando valor económico, social e humano simultaneamente.
Isso significa que o gestor intermédio não desaparece. A pirâmide, sim.
As funções que o middle management desempenhavam não desaparecem numa “organização esfericista”. Transformam-se. A investigação de Harvard confirma que a IA liberta os gestores das tarefas de coordenação e delegação, libertando-os para a tomada de decisão, a inteligência contextual e a ligação humana que nenhum sistema consegue replicar.
Esse papel evoluído é o de “meridian manager”. Um meridiano percorre a superfície de uma esfera, atravessa o seu centro e regressa, em ambos os sentidos, ligando cada ponto ao núcleo. O “gestor meridiano” é essa ligação viva: entre o propósito no centro e o valor na superfície, entre a inteligência artificial e o julgamento humano insubstituível que a deve governar. A sua autoridade não é posicional, é contextual — fundamentada no conhecimento da equipa, do cliente e do momento que nenhum algoritmo pode conter. O gestor intermédio era definido por onde se sentava, o “gestor meridiano” é definido pelo que conecta.













