«Os planos de RH terão de ser revistos à luz de dois princípios: simplificação e priorização», afirma Patrícia Calvário

Não tendo dúvidas de que a gestão emocional das equipas está a ser o seu maior desafio nesta crise, Patrícia Calvário acredita que a resposta está na proximidade às pessoas, proximidade essa que tem de ser traduzida em confiança, transparência e positivismo.

 

Por Ana Leonor Martins

 

Na Essilor não se esperou que fosse decretado Estado de Emergência, nem sequer que houvesse
o primeiro caso de COVID-19 confirmado em Portugal para agir preventivamente. Em Fevereiro, foi criado um Comité de Crise, que antecipou diferentes níveis de alerta, detalhando todas as medidas de protecção a adoptar, as novas formas de organização de trabalho e as ferramentas necessárias. «Segurança, protecção, planeamento, antecipação e adaptabilidade têm sido os vectores principais na gestão para enfrentar este momento», revela Patrícia Calvário, directora de Recursos Humanos da empresa especialista em lentes de prescrição, que, cerca de seis meses depois de ter as- sumido este desafio, se vê na circunstância de ter de redefinir o plano estratégico concebido para 2020. Mas garante que esta crise colocou a Gestão de Pessoas num lugar de destaque, em todas as empresas.

 

O tema é incontornável, por isso vamos começar por aí. Como tem a Essilor gerido a crise provocada pela pandemia COVID-19? Como afectou a vossa actividade?
A Essilor tem, acima de tudo, procurado gerir toda esta situação com a máxima atenção à segurança dos colaboradores e com a maior antecipação possível. Somos aproximadamente 400 colaboradores, temos uma unidade industrial em Rio de Mouro – crítica para todo o grupo, na medida em que somos o segundo maior Server Lab para toda Europa –, de modo que todos os mecanismos de análise de risco e respectivo plano de contingência que visasse a protecção dos colaboradores, clientes e fornecedores, mitigando ao máximo qualquer possibilidade de contágio, foram activados numa fase muito inicial, ainda no fim de Fevereiro (ver caixa).

 

Que prioridades definiram?
Segurança, protecção, planeamento, antecipação e adaptabilidade têm sido os vectores principais na nossa gestão para enfrentar este momento. Acredito que o mundo que, de alguma forma, “deixámos” em Fevereiro não vai de todo ser o que vamos encontrar quando voltarmos a alguma normalidade.

Acredito que a forma de gerir toda esta situação sem antecedentes continuará a passar por anteciparmos vários cenários possíveis e agirmos com rapidez e segurança aos dados reais que temos disponíveis.

 

Referiu a adaptabilidade… Como adaptaram a vossa forma de gerir Pessoas?
Acima de tudo, acredito que, neste momento, a forma de gerir as pessoas tem uma condição sine qua non: a proximidade. E esta proximidade tem de ser traduzida em confiança, transparência e positivismo. As nossas equipas precisam de confiar em nós, precisam de saber que estamos ao serviço da sua segurança, da sua protecção e do seu bem-estar.

Estes momentos de incerteza, de insegurança e de ansiedade têm certamente impactos profundos na vida dos colaboradores. Há que voltar aos “básicos” e perceber, em primeira instância, a razão e o propósito das nossas funções: as equipas de liderança e os Recursos Humanos devem, antes de mais, servir os colaboradores – assegurar condições de trabalho e promover o seu desenvolvimento –, e não só a sustentabilidade e sucesso do negócio.

Com esta nova realidade, as necessidades das pessoas alteraram-se por completo e há que estar próximo para poder responder às mesmas. Na Essilor, esta gestão passou a ser muito mais telefónica e digital, mas procuramos manter o contacto permanente e reforçado. As reuniões de equipas continuam a acontecer na sua frequência regular, passámos a fazer reuniões mensais gerais com toda a equipa por webinar, reforçámos canais como um novo email “COVID19” e criámos um live chat “HR Directo” para responder a todas as questões que os colaboradores possam ter.

 

E estavam preparados para dar uma resposta célere à necessidade de ter as pessoas – possíveis – a trabalhar em casa?
Diria que, excluindo as empresas de Tecnologia e de serviços de Consultoria, que pela sua natureza já teriam um rácio de teletrabalho mais elevado, ninguém estava preparado para adoptar de forma plena, transversal e imediata este formato de teletrabalho para todos os colaboradores.

Somos uma empresa industrial e, como se pode entender, o teletrabalho não é opção para todos os postos de trabalho. Valeu-nos o planeamento do Comité COVID-19, que permitiu que, ainda em Fevereiro, apurássemos todas as ferramentas necessárias, permitindo implementar e ter uma resposta quase imediata a todas as necessidades. Em meados de Março, quando a Essilor activou o seu nível de alerta 2, o teletrabalho para todos os colaboradores, excluindo a produção, aconteceu de um dia para o outro, sem qualquer incidência.

 

O que diria que foi mais difícil gerir?
Sem qualquer dúvida, a gestão emocional das equipas. Por mais complexa que possa ser a parte técnica, na Essilor temos uma equipa de profissionais altamente qualificados para dar resposta a estas áreas e contamos ainda com todo o suporte que um grupo com a dimensão da Essilor Internacional nos oferece. Já na gestão emocional das equipas, tudo é mais complexo, mais diferenciado e mais volátil.

Felizmente, não existem pessoas iguais. Cabe às equipas de liderança perceberem qual o timing certo para fazerem as suas comunicações com segurança, muita transparência – fundamental – e com confiança e positivismo no futuro. A partir daqui, é estar próximo, ouvir, dar espaço a que todos se possam expressar livremente, com sentido crítico, construtivo e unidos num bem comum: o sucesso da empresa que todos representamos.

 

Leia a entrevista na íntegra na edição de Maio da Human Resources, nas bancas.

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