Os robots estão a ser vítimas de bullying: máquinas à prova de quê?

Por Pedro Ramos, CEO Dale Carnegie Portugal

Human Resources
6 de Julho 2026 | 10:30

Por Pedro Ramos, CEO Dale Carnegie Portugal.

 

Recentemente, fiz uma viagem por várias cidades a Oriente. E entre Istambul, Kuala Lumpur e Singapura, fui encontrando robots por todo o lado. Nos hotéis, nos aeroportos, nos centros comerciais, nas empresas, nas lojas, nos corredores onde já ninguém estranha ver uma máquina a cumprir funções que, até há pouco tempo, eram “coisas de pessoas”. E, sinceramente, o que mais me surpreendeu não foi a presença dos robots. Foi a ausência de cerimónia humana perante estes.

Num hotel em Istambul, vi um robot de serviço ser interrompido várias vezes por hóspedes que, provavelmente sem uma intenção maldosa mas com uma boa dose de “infantilidade adulta”, se colocavam mesmo à frente dele para ver se ele parava, desviava, insistia ou simplesmente “se passava”. Noutro momento, uma criança decidiu andar à sua volta como se estivesse a testar um animal de estimação de metal, enquanto o pai sorria, orgulhoso, como se a cena fosse uma prova de inteligência precoce e não um pequeno retrato da nossa crescente falta de limites. E foi aí que me ocorreu uma pergunta inquietante: o que estamos nós, afinal, a ensinar aos robots? Ou, sendo mais honesto, o que estamos a ensinar a nós próprios quando a nossa primeira reação perante uma máquina útil é transformá-la em alvo de provocação?

Em Kuala Lumpur, a cena repetiu-se com outra estética, mas com a mesma essência. Num centro comercial, vi um grupo de jovens a rodear um robot de limpeza, a imitá-lo, a bloquear-lhe o caminho, a rir cada vez que ele recalculava a rota com aquela paciência quase humilhante que só as máquinas conseguem ter. Havia qualquer coisa de muito revelador naquele teatro: não era só brincadeira. Era a velha tentação humana de medir poder contra quem não responde com o mesmo peso, a mesma voz, a mesma ameaça. Quando o robot não reage como uma pessoa, há quem conclua que pode fazer-lhe tudo. E essa conclusão diz muito mais sobre nós do que sobre as máquinas.

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Em Singapura, num aeroporto impecavelmente organizado (sempre classificado como “o melhor do mundo”), vi um robot de orientação ser abordado por um passageiro que lhe falou de forma agressiva, quase como quem desafia um empregado a sair da sua neutralidade e entrar numa disputa absurda. O robot manteve-se fiel ao seu programa, claro. Não se ofendeu, não levantou a voz, não pediu respeito, não exigiu dignidade. E talvez seja precisamente isso que torna a cena inquietante. Porque perante uma presença que não se defende, muita gente revela uma versão de si que em circunstâncias normais talvez preferisse esconder. A máquina não sente, dirão alguns. Pois não. Mas a verdadeira questão é: será que já precisamos que ela sinta para começarmos a agir como civismo?

Talvez estejamos perante uma nova forma de bullying, só que sem lágrimas, sem queixas e sem relatórios de psicologia. Um bullying pós-moderno, quase elegante na sua estupidez, feito de pequenos gestos de humilhação contra aquilo que não protesta. Um dedo que bloqueia o sensor para ver a reação. Uma criança que grita porque acha graça. Um adulto que empurra “só para experimentar”. Um grupo que se ri porque o robot hesita, recalcula, insiste, avança outra vez. Não é grave, dizem. É apenas um robot. E é exactamente aí que começa o perigo. Todas as grandes “anomalias culturais” começam com uma frase aparentemente inocente.

Chamemos-lhe “desumanização”, se quisermos ser tradicionais. Ou “desrobotização”, se quisermos inventar uma palavra que nos faça parar por um segundo e pensar. Mas o problema é mais fundo do que simples “etiqueta cultural”. O que está em causa é a naturalização do abuso quando o alvo parece incapaz de devolver o gesto. E essa naturalização é um teste brutal à nossa cultura, porque a forma como tratamos o que não se pode defender acaba sempre por contaminar a forma como tratamos o que se defende mal, ou o que simplesmente se cala.

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E é aqui que o tema deixa de ser tecnológico e entra diretamente no território da Gestão de Pessoas. Se os robots já fazem parte do trabalho, então também fazem parte da cultura. E se fazem parte da cultura, não podem ser tratados como decoração funcional ou como brinquedos corporativos para adultos “em roda livre”. A pergunta que o RH tem de começar a fazer não é se os robots precisam de saúde mental. Não precisam. A pergunta é outra, muito mais desconfortável: que “saúde moral” tem uma organização onde se normaliza o desrespeito, mesmo quando o desrespeito tem forma metálica e voz artificial?

Porque o problema nunca foi o robot. O problema é o ser humano em estado de “folga ética”. Esse ser que vê uma máquina a trabalhar e pensa: “deixa-me ver até onde consigo ir”. Esse que confunde ausência de emoção com ausência de valores. Esse que acredita, no fundo, que a crueldade só conta quando alguém chora. E talvez seja essa a maior lição destas cenas aparentemente banais que vi em Istambul, Kuala Lumpur e Singapura: o futuro do trabalho não vai ser avaliado apenas pela capacidade de integrar inteligência artificial. Vai ser avaliado pela capacidade de não perdermos o mínimo de humanidade quando convivemos com aquilo que não é humano.

No fim de contas, os robots não precisam de proteção emocional. Precisam apenas que nós não usemos a sua quietude e paciência para revelar o pior de nós. Porque a máquina aguenta. A pergunta é se nós aguentamos o espelho (o reflexo de nós próprios!). E, sinceramente, às vezes o espelho anda de rodas, fala com voz calma e ainda nos pede licença para passar.

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