Os tempos actuais não são para treinadores de bancada

Por Carla Caracol, Directora de Recursos Humanos do Grupo Renascença Multimédia, Professora Universitária, membro da Direcção Nacional da APG e da DCH Portugal

 

Desde que me lembro que detestava correr! Quando, nas idas aulas de educação física, me obrigavam a fazê-lo tinha imensas “dores de burro”, cansava-me com facilidade e achava tudo aquilo um desperdício de energia e um ritual masoquista sem qualquer fim.

No entanto, há uns 12 anos – não me perguntem porquê, porque sinceramente não me recordo – decidi começar a correr. É evidente que nos primeiros dias/semanas em que o fiz, o questionamento interno sobre o “porque raio me meti nisto” era imediato. O desconforto com a modalidade continuava a ser considerável, não tinha qualquer acompanhamento para o efeito e a dor física aparecia com naturalidade. Ah, e tinha vergonha de andar na rua a correr… via tantas pessoas, e até com mais idade, a fazê-lo de forma tão “profissional” que só me apetecia escolher um buraquito onde esconder tamanha falta de jeito.

Apesar de tudo isto, a vontade de concretizar aquele objectivo era superior e, por isso, nunca desisti. Li muito, ouvi pessoas experientes, questionei colegas e amigos, que já corriam há vários anos, pedi-lhes dicas para me iniciar neste projecto pessoal e defini

metas semanais. A ideia subjacente a tudo isto era ir melhorando, procurando adaptar o meu corpo à exigência física, ajustar a minha mente às dificuldades que iria sentir e começar a sentir satisfação com a corrida.

Agora escrevo isto de uma forma simplista, mas foram meses complexos de incerteza e insegurança. Criei uma estratégia de me ir superando… todas as semanas acrescentava à minha playlist uma música que adorasse e aumentava, quase sem dar conta, 4 minutos à prova… sim, para mim, os kms que corria correspondiam a uma competição comigo mesma!

Dever-se-ão estar a questionar o que tem este testemunho a ver com Recursos Humanos. A resposta é: Tudo!

Os gestores de pessoas devem assumir a estratégia clara de desafiar os colaboradores a serem a sua melhor versão, a não terem pudor de expor as suas angústias e os seus receios, a disponibilizarem as táticas para que os sonhos e os objectivos sejam concretizáveis, e, quando momentos mais difíceis aparecerem, em que as forças faltam, eles se sintam acompanhados, não apenas com manuais “limpos” de boas práticas, mas acima de tudo com experiências na primeira pessoa que digam “eu já passei por isso. Vamos lá!”.

Não estamos no tempo dos treinadores de bancada, com fluxogramas, powerpoints e KPI’s… estamos na era da sociedade 5.0 onde impera (ou deveria imperar) a humanização e isso implica personalizar as acções, conceber para o uno, respeitar o diverso, sem nunca perder o foco no todo e, acima de tudo, no quão valioso pode existir nesta complementaridade.

Falamos muito de felicidade organizacional, motivação e satisfação para e no trabalho, e outros tantos construtos importantes para a nossa actividade, mas, com a “correria do dia e dos prazos a cumprir”, podemos esquecer-nos que para passar do projecto e para ser implementado com sucesso, tudo o que diga respeita às nossas pessoas, elas têm que sentir como delas e ter vontade de aderir voluntariamente, afectivamente ao desafio.

Para isso, temos que fazê-las acreditar que é possível correr maratonas, com treino, com tempo, respeitando o seu ritmo e celebrando as suas concretizações, mas nunca questionando se será, ou não, possível ultrapassar a meta. Nesta metáfora com a corrida, teremos que disponibilizar os livros da especialidade para consultar, os exemplos vivos de sucesso, ajudá-los a definir objectivos e a nunca esquecer de acrescentar a música que os fazem sentir alegres, felizes, com vontade de dançar!

Não pensem que corro maratonas (ainda), mas retiro da corrida um prazer enorme pelo sentimento de superação e, quando alguém me diz que não o consegue fazer, gosto sempre de a/o desafiar a acompanhar-me (até porque não é difícil).

Se todos formos um bocadinho “treinadores” dos nossos colaboradores, teremos um número muito maior de ‘atletas’ altamente preparados para as provações pelo que estamos e vamos passar!

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