Pandemia pode criar em Portugal uma “subclasse digital” de trabalhadores e marcar irreversivelmente os jovens – serão os pandemials

«A pandemia de COVID-19 não só retirou a vida a milhões de pessoas, como ampliou também as disparidades já existentes ao nível da saúde, da economia e do digital», refere o Global Risks Report 2021, produzido em parceria com a Marsh & McLennan Companies e o Zurich Insurance Group, divulgado hoje. Dois especialistas destacam os principais riscos em Portugal.

 

«Milhões de cuidadores, trabalhadores e estudantes – em especial minorias que já se encontravam em desvantagem mesmo antes da pandemia – estão agora em risco perder o rumo para sociedades novas e mais justas que a recuperação poderia ter desbloqueado», alerta-se, acrescentando: «Estes desenvolvimentos podem impedir ainda mais a cooperação global necessária na resposta aos desafios de longo prazo, como a degradação ambiental.»

O estudo conclui que a pandemia de covid-19 está a aumentar as disparidades e a fragmentação social, nos próximos três a cinco anos irá ameaçar a economia e dentro de cinco a dez anos irá enfraquecer a estabilidade geopolítica. Entretanto, as preocupações ambientais continuam a integrar o top da lista de riscos por probabilidade e por impacto da próxima década.

 

 

 

Que riscos se destacam em Portugal e que acções são prioritárias?

Para obter a resposta a estas questões, falámos em exclusivo com os porta vozes em Portugal, Fernando Chaves, Especialista de Risco da Marsh Portugal e Edgar Lopes, Chief Risk Officer da Zurich Portugal,

 

Fernando Chaves, Risk Specialist da Marsh Portugal

«Sendo um estudo sobre os riscos para os próximos 10 anos, o Relatório divulgado dá um forte relevo aos efeitos decorrentes após a pandemia de COVID-19, que ameaça aumentar as disparidades e agravar as fracturas sociais. Portugal, dadas as suas circunstâncias económicas, sociais e políticas, está igualmente exposto a esses riscos.
A pandemia veio acelerar o processo de digitalização das organizações, mas o tempo de adaptação é diferente de pessoa para pessoa, e a também diferente capacidade de acesso à internet pode cavar um fosso ainda maior entre os mais desfavorecidos e os demais, nomeadamente em futuros processos de emprego – como o relatório indica, “aqueles que não têm acesso a recursos e capacidades digitais correm o risco de ficar para trás como uma “subclasse digital” de trabalhadores”.
Os mais jovens enfrentam uma nova crise de emprego e de oportunidades, sendo impactados ainda num conjunto de outros aspectos (como exposição a doenças do foro psicológico, de formação mais debilitada, entre outros), que faz deles o que classificamos como “pandemials” – aqueles que ficam irredutivelmente marcados no seu futuro pelo impacto de longa duração desta pandemia; uma geração que se vê fortemente afetada por duas grandes crises globais profundas.
Face ao que já referi, o público e o privado devem debater o futuro e definir uma agenda que permita atenuar todos estes efeitos, assegurando não apenas a prosperidade e o bem-estar, mas também a resiliência e a capacidade de resposta a eventos catastróficos futuros de uma forma mais planeada e menos reativa. É ainda fundamental uma agenda ambiental, uma vez que o número de casos associados a dificuldades crónicas do foro respiratório irá aumentar de forma exponencial nas próximas décadas – não apenas pela nossa exposição à poluição atmosférica, mas também pelos efeitos de COVID-19 a nível pulmonar. É preciso rever os níveis de formação “digital”, quer no plano escolar, quer na reconversão e evolução da população ativa (empregados e desempregados). É necessário avaliar condições de higiene no trabalho para assegurar não só maior qualidade, como uma maior capacidade de resposta e competitividade futuras. É crucial que os Estados, e Portugal não deve ser alheio a isso, definam os seus responsáveis de risco e assumam este tema – não se baseando apenas nos cataclismos da natureza, mas também em todos os outros riscos abordados neste relatório -, avaliando a capacidade de resposta nacional e identificando as necessidades a colmatar, nomeadamente as de caráter humano, tecnológico, físico e de equipamentos.»

 

Edgar Lopes, Chief Risk Officer da Zurich Portugal

«Do top 10 dos riscos por probabilidade e impacto, destaco dois: o clima extremo e o colapso das infraestruturas de tecnologias de informação (TI).
A tempestade Filomena que provocou a onda de frio que estamos a viver em Portugal e o nevão que paralisou Madrid e outras regiões de Espanha é um exemplo claro daquilo que as alterações climáticas vão continuar a trazer para cima da mesa da gestão de risco e das decisões empresariais. Como vamos gerir a cadeia de abastecimento se um nevão paralisar uma cidade por três a quatro semanas? Que questões de saúde pública se levantam nos nevões e como podemos ser eficazes? O colapso das infraestruturas de TI é outro exemplo que já vivemos da pior maneira em Portugal e que voltamos agora a experienciar. E se o aumento de conteúdos via internet (dados digitais) for tão elevado que prive o funcionamento dos sistemas tecnológicos de segurança do país? Temos mesmo que limitar ou inibir a telescola, o teletrabalho e os serviços como plataformas de streaming, vídeoclube ou jogos online para nos certificarmos que o país funciona? E se as infraestruturas não funcionarem e o plano de vacinação da COVID-19 for interrompido?
No caso concreto da resposta à COVID-19 o Global Risks Report 2021 identifica quatro oportunidades para aumentar a resiliência dos países, das empresas e da comunidade internacional: (1) a elaboração de abordagens analíticas que contenham uma visão holística dos impactos dos riscos; (2) incentivar as entidades e as pessoas que se destacam na gestão de risco e, assim, fomentar a liderança nacional e a cooperação internacional; (3) melhorar a comunicação sobre os riscos e combater a desinformação; (4) explorar novas formas de parcerias público-privadas para a antecipação, preparação e gestão de risco.
É urgente desenhar novos sistemas económicos e sociais que melhorem a nossa resiliência coletiva e capacidade de responder a todos estes riscos, reduzindo a desigualdade, melhorando a saúde e protegendo o planeta.»

O Global Risks Report 2021 (disponível aqui) identifica, a nível mundial:

Top 10 Riscos por Probabilidade
1. Clima Extremo
2. Fracasso na ação climática
3. Danos ambientais causados pela humanidade
4. Doenças infeciosas
5. Perda da biodiversidade
6. Concentração do poder digital
7. Desigualdade digital
8. Quebra das relações entre Estados
9. Fracasso da cibersegurança
10. Crises de subsistência

Top 10 Riscos por Impacto
1. Doenças infeciosas
2. Fracasso na ação climática
3. Armas de destruição em massa
4. Perda da biodiversidade
5. Crises de recursos naturais
6. Danos ambientais causados pela humanidade
7. Crises de subsistência
8. Clima extremo
9. Crises financeiras
10. Colapso das Infraestruturas de TI

 

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