É uma questão pertinente, para a qual não há uma resposta clara.
Por Pedro Fontes Falcão, co-director do Executive MBA, do Iscte Executive Education
O povo português tem-se adaptado a novas tecnologias (como por exemplo, as famosas rápidas adaptações ao multibanco e ao MBWay), o que é um ponto favorável. Contudo, no caso da inteligência artificial (IA), trata-se de um conjunto de tecnologias omnipresente em muitas áreas da nossa vida, e também da gestão. Logo, não se trata de algo específico, como o uso de LLM (large language models), como o ChatGPT, mas sim um conjunto de tecnologias com uma aplicação transversal. Por isso, esta vantagem do povo português pode não ser suficiente.
Depois, para uma boa gestão, mas ainda mais relevante, para uma boa utilização da IA, é importante ter dados em quantidade e “qualidade”. Se não, como se pode “alimentar” as ferramentas para nos ajudar a analisar situações e a tomar decisões? Teríamos o efeito GIGO (garbage in, garbage out), em que se introduzimos “maus” dados, a conclusão é também “má”. Neste ponto, receio que muitas empresas (especialmente as mais pequenas) não estejam bem preparadas.
Acresce a necessidade de talento especializado que as empresas portuguesas precisam de recrutar e reter. Por um lado, muitos trabalhadores qualificados saem do País. Por outro, Portugal tem estado a aumentar muito significativamente a oferta de formação a nível de licenciatura, mestrado e formação de executivos, o que está a dar uma base maior de recrutamento às empresas portuguesas.
A abordagem que se terá face à IA também será crucial. Se a cultura organizacional for de receio de que a IA pode “roubar” os empregos aos trabalhadores, então o gestor não terá muito sucesso. Cabe a este procurar criar um ambiente de abertura e de aprendizagem para que se tente aproveitar as oportunidades que a IA vai trazer, o que passa também por formação e apoio na obtenção de competências mais digitais.
A preparação dos gestores para a IA é, no entanto, diferente nas grandes e pequenas empresas. Nas pequenas empresas – e com menor concorrência externa –, os gestores poderão recorrer essencialmente apenas ao uso de LLM nos próximos tempos, o que, porém, já permitirá evoluções na gestão, principalmente na redução de custos (por exemplo, no Marketing). Mas para um melhor uso destes modelos, os gestores terão de saber escrever e ir afinando as questões a colocar (“prompts”) para se obterem boas respostas, o que demora tempo e exige competências.
Nas médias e grandes empresas, será ainda mais relevante que haja uma visão mais ampla e uma estratégia mais integrada sobre este conjunto de tecnologias avançadas que são a inteligência artificial. Para isso, será indispensável um contínuo esforço de formação ao longo do tempo, pois a necessidade de constante actualização será crucial para as empresas serem mais eficientes, inovarem e se tornarem mais competitivas.
Termino dizendo que, se os gestores portugueses se prepararem bem e investirem de forma contínua e estratégica em IA, com um enquadramento regulatório propício, e com infra-estruturas e uma administração pública que também alavanque a IA para se modernizar, Portugal pode dar um salto significativo a nível da sua competitividade num mercado global.
Acredito realmente nisso! Espero que os portugueses também!
Este artigo foi publicado na edição de Janeiro (nº. 181) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.














