Por Duarte Fernandes, CEO da tecnológica portuguesa KWAN
Imagine o seguinte cenário: Trabalha num negócio cujo core é encontrar soluções de talento tecnológico para projetos em clientes seus. Coloca um consultor num desses projetos e, ao longo de vários meses, ele contribui, cresce, desenvolve-se. O consultor sente-se alinhado com o desafio, com a cultura, e expressa vontade de integrar os quadros do cliente. A oportunidade surge. Mas foi notificado e recebe um murro no estômago.
Acabou de perder negócio e foi traído? OU Perdeu negócio e o seu trabalho e a qualidade das soluções que apresentou foi reconhecido, abrindo espaço para criar aproximação e crescimento? Pensar de uma forma coloca-o numa guerra de egos e cláusulas. Pensar de outra abre-lhe portas para relações mais maduras, estratégicas e duradouras.
Perder um consultor para o cliente é um momento que alguns pintam como traição, roubo ou catástrofe empresarial. Mas será mesmo? E se estivéssemos a olhar para a direção errada? E se o verdadeiro problema não fosse o que perdemos, mas o que ainda não soubemos ganhar?
Quem trabalha em tech staffing, team augmentation ou qualquer variante deste tipo de negócio, sabe que o sucesso se mede, em parte, pelo crescimento líquido de talento. Cada consultor que entra é uma vitória; cada um que sai, uma ferida. Investimos tempo, recursos, formação, cultura — e, sim, coração — para integrar alguém na nossa equipa e no projeto do cliente.
Quando esse talento sai, dói. E se for contratado diretamente pelo cliente, piora um pouco. É humano. Mas transformar essa dor numa narrativa de vitimização ou conspiração? Isso já é incapacidade de dominar emoções reptilianas e é um erro estratégico como a maioria das reações emocionais.
Porque a consultoria tecnológica não é um jogo de posse. É um jogo de valor. E este não se impõe. Conquista-se.
O consultor tem vontade própria. Chocante, não é? Ignorar isso é desrespeitar a pessoa por trás do profissional. Um consultor que opta por aceitar uma oferta do cliente não é um traidor, nem foi “aliciado” por um vilão oportunista. Fez uma escolha. Talvez porque viu no cliente um projeto mais alinhado com os seus objetivos. Talvez porque lhe ofereceram condições que a consultora não igualou. Ou talvez — e isto custa ouvir — porque a consultora não lhe deu razões suficientes para ficar.
Reter talento não se faz com algemas contratuais. Faz-se com cultura, propósito, crescimento e um ambiente onde as pessoas querem estar. Se a nossa proposta de valor como empregadores é tão frágil que um cliente consegue “roubar” alguém com uma conversa, o problema não está no cliente. Está em nós!
Perder um consultor para o cliente pode ser a melhor validação da nossa proposta de valor. É sinal de que entregámos alguém tão bom, tão integrado, tão valioso — que o cliente o quis para sempre. Isso não é sabotagem. É mérito.
E se essa transição for bem gerida, com transparência e elegância, o cliente não só nos respeita mais, como nos procura de novo. Porque num mercado onde a reputação é moeda, cada saída pode ser uma semente plantada para uma relação mais forte.
Este círculo vicioso — o da desconfiança, da culpa, do controlo — é o que fragiliza o setor. Não são os clientes. Não são os consultores. Somos nós, quando deixamos de merecer os profissionais que contratamos.
E se, em vez de lamentar a “perda” de um consultor, a víssemos como um investimento? Um consultor que vai para o cliente leva consigo a nossa marca, a nossa cultura, a nossa formação. Torna-se um embaixador. Pode abrir portas, recomendar-nos, contratar-nos serviços ou até regressar — mais experiente, maduro e valioso.
Cada transição bem gerida é uma ponte. Cada saída com classe é uma porta aberta. Cada consultor que parte em paz é um potencial aliado no futuro.
Se queremos um setor mais ético, maduro e colaborativo, temos de começar por nós. A liberdade de escolha não é uma ameaça. É um teste à qualidade da casa que oferecemos.
E se dói agora, que doa com propósito. Porque no longo prazo, vale mais ser o sítio onde as pessoas querem estar — do que o sítio de onde não podem sair.
Texto escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 em vigor desde 2009.














