Por que é que os salários quase não crescem?

Ana Rita Rebelo
24 de Setembro 2019 | 09:02
Por que é que os salários quase não crescem?

O facto de a tabela salarial não estar a acompanhar a descida das taxas de desemprego com a mesma intensidade está a causar um fenómeno global de estagnação dos salários. Esta é a principal conclusão da oitava edição do Hays Global Skills Index, realizado pela Hays em colaboração com a Oxford Economics.

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O relatório, intitulado de «The Global Skills Dilemma: How Can Supply Keep Up With Demand?», revela que houve uma queda generalizada nas taxas de desemprego a nível global nos últimos anos. Mas o que continua a ser uma preocupação para os economistas é «o subsequente fracasso da inflação salarial em seguir o exemplo», uma vez que «isso criou um fenómeno incomum de estagnação salarial nos mercados globais».

No barómetro deste ano, a pontuação geral permanece inalterada em relação a 2018 (5.4), apesar da crescente incerteza geopolítica nos mercados globais. Isto deve-se ao facto de as condições do  mercado de trabalho altamente qualificados permanecerem semelhantes às do ano passado. No entanto, «as tendências de estagnação salarial, subemprego – onde as pessoas que desejam trabalhar em período full-time não estão a fazê-lo – e o desajuste de talentos, em diferentes localizações geográficas, contribuíram para as diversas pontuações regionais do índice».

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«O Index deste ano destaca uma mudança estrutural no mercado de trabalho, assim como as inovações tecnológicas que fundamentam a estagnação salarial evidente nos mercados de trabalho globais. Estes dois factores associados ao subemprego como resultado do longo prazo da Crise Financeira Global, significam que a força de trabalho global enfrenta menos oportunidades de trabalho e remuneração, o que não pode acompanhar o aumento dos custos e da inflação», comenta Alistair Cox, director executivo da Hays.

Por outro lado, o indicador de Desajuste de Talentos subiu para os 6.7 este ano, o valor mais elevado desde o início do barómetro em 2012. «Essa tendência preocupante continua a gerar diferenças salariais entre profissionais qualificados e não-qualificados, particularmente na região da Ásia-Pacífico. Para além disso, as aptidões mais procuradas são escassas em todo o mundo, causando uma queda nas taxas de participação, principalmente na América do Norte, e o que contribui para o aumento do subemprego», lê-se.

De acordo com o estudo, o rápido avanço tecnológico é um principais factores que contribuem para o agravamento do subemprego e para o desajuste de talentos, mesmo nas economias mais avançadas do mundo. «Num cenário de crescente incerteza económica de progresso tecnológico contínuo, os empregadores devem investir em formação de longo prazo, minimizar o subemprego por meio da alocação estratégica de capital humano e capacitar a força de trabalho global para ter sucesso em meio às mudanças nas condições de trabalho.»

Além disso, acrescenta que «regulamentos que restringem a mobilidade dos trabalhadores, reduzem a competitividade e prejudicam as empresas a longo prazo».

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Faz também notar que a predominância das mulheres em funções rotineiras,mais vulneráveis à automação, explica quase 5% da diferença de salários entre os sexos. Da mesma forma, «a segregação ocupacional também pode limitar a capacidade das mulheres de aproveitar os benefícios da globalização nas economias em desenvolvimento», realça.

Para Alistair Cox, as tendências apresentadas têm implicações significativas para os principais stakeholders, empresas, decisores e profissionais. Por isso, «é crucial que, no futuro, sejam feitos mais investimentos de forma a alinhar a tecnologia, a força de trabalho e a formação», para que os profissionais possam «maximizar a produtividade em conjunto e não em conflito com os avanços tecnológicos».

«Se não procurarmos abordar essas questões num futuro próximo corremos o risco de desencorajar ainda mais os profissionais ao não aumentar os salários, proporcionar pleno emprego e prestar contas do progresso tecnológico no local de trabalho», alerta, aconselhando que, «embora complexas, as aptidões e as crises salariais estão ligadas e, para evitar que fique fora de controle, os empregadores devem reavaliar colectivamente o crescimento dos salários e as aptidões no mercado de trabalho global».

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