
Por que se elogia pouco e por que é necessário elogiar mais?
Promover o elogio não é um gesto simples: é uma mudança de paradigma. É afirmar que o mundo melhora quando nos tornamos capazes de ver, valorizar e dizer o que há de bom no outro.
Por Maria Duarte Bello, CEO da MDB – Coaching e Gestão de Imagem
Apesar de o elogio possuir uma força simbólica e emocional capaz de influenciar comportamentos, fortalecer identidades e criar vínculos mais saudáveis, permanece surpreendentemente raro no convívio humano. A escassez do elogio não resulta de desinteresse, mas de condicionamentos culturais, emocionais e sociais que moldam a forma como vemos o outro e a nós mesmos. A tese desta reflexão é que se elogia pouco porque a sociedade privilegia a crítica, porque o elogio é erroneamente associado à fragilidade ou manipulação, e porque a própria estrutura das relações humanas, regida por tensões, inseguranças e comparações, torna difícil a prática do reconhecimento. Contudo, promover o elogio é não só necessário, mas urgente, pois representa uma forma de cuidado, um acto de coragem emocional e um dos instrumentos mais poderosos de transformação social e individual.
Em primeiro lugar, elogia-se pouco porque a cultura ocidental é profundamente orientada para a correcção. Desde a infância, somos ensinados que o erro é um problema a ser corrigido, enquanto o acertar é apenas o mínimo esperado. Esta lógica está presente nas escolas, onde os cadernos são marcados a vermelho para assinalar falhas, mas raramente apresentam notas destacadas para reconhecer o progresso.
Encontra-se nos empregos, onde o foco das reuniões recai sobre metas não atingidas, erros cometidos, atrasos ou falhas na execução, mas raramente se celebra o empenho, a criatividade ou a resiliência demonstrada pela equipa. E manifesta-se também dentro de casa, onde um adolescente pode ouvir 10 críticas num único dia, mas passar semanas sem receber uma palavra de reconhecimento. Não é surpreendente, então, que muitos cresçam com a ideia de que elogiar é desnecessário, quase supérfluo. A sociedade forma indivíduos que sabem identificar defeitos com precisão, mas que muitas vezes não desenvolveram o olhar atento para os méritos.
Além disso, o elogio tornou-se mal compreendido. Para muitos, elogiar significa perder poder, demonstrar fraqueza ou parecer bajulador. Há professores que receiam elogiar para não “perder autoridade”. Há gestores que evitam elogiar por acreditar que isso pode diminuir a produtividade (“se elogio agora, vão relaxar depois”). Há pessoas que se contêm por medo de soar exageradas, interesseiras ou manipuladoras. Estas confusões revelam uma visão limitada do elogio: ao invés de ser visto como um acto de lucidez emocional, é interpretado como uma ameaça ao equilíbrio social.
No entanto, exemplos contrários são abundantes: uma enfermeira que ouve da chefe “a tua sensibilidade para com os pacientes faz a diferença” sente reforço na sua identidade profissional, um aluno que, após anos de insucesso, escuta do professor “acredito no teu potencial” encontra força para tentar mais uma vez, um trabalhador que recebe um elogio público pelo seu empenho vê o seu valor reconhecido e a sua motivação renovada. Nestas situações, o elogio não fragiliza, fortalece.
Um acto de coragem
A dificuldade emocional em expressar sentimentos é outro dos pilares da escassez de elogios. Alguns de nós cresceram em ambientes onde o afecto é implícito, não dito. Pais que amam profundamente raramente dizem “estou orgulhoso de ti”, casais que se admiraram durante anos deixam de verbalizar essa admiração, amigos que se inspiram mutuamente nunca o expressam, como se o simples gesto de elogiar os expusesse a um tipo de vulnerabilidade indesejada.
A verdade, porém, é que elogiar exige coragem: coragem para observar, para sentir, para reconhecer e para dizer. Coragem para admitir que o outro possui qualidades que admiramos e que isso não diminui as nossas. Coragem para abandonar a postura defensiva e assumir uma postura de generosidade emocional. É precisamente por isso que o elogio tem tanto valor, não é automático, mas consciente; e não é mecânico, mas humano.
A competitividade moderna aprofunda a escassez do elogio. Numa sociedade que promove comparações constantes entre colegas, entre familiares, entre amigos, elogiar o outro parece, muitas vezes, uma forma de “perder terreno”. O aluno hesita em elogiar o colega que teve uma nota mais alta, o profissional evita reconhecer o talento do colega por medo de parecer menos competente. Até nas redes sociais, onde a dinâmica de aprovação se torna pública, o reconhecimento é frequentemente substituído por observação silenciosa e comparação.
Entretanto, a realidade é que os indivíduos mais admirados são justamente os que elogiam com generosidade e espontaneidade. A capacidade de reconhecer virtudes alheias revela maturidade emocional, auto-estima consolidada e ausência de medo. Elogiar é, neste sentido, um sinal de grandeza interior.
Se a escassez do elogio é evidente, o poder transformador de o promover também o é. Um elogio pode alterar percepções de valor, desbloquear potencial e fortalecer identidades fragilizadas. Professores relatam que alunos desmotivados mudaram completamente após serem reconhecidos por pequenos progressos. Psicólogos afirmam que elogios específicos e genuínos podem reconstruir auto-estimas profundamente abaladas. Gestores observam que equipas elogiadas de forma consistente apresentam níveis mais altos de cooperação, criatividade e bem-estar. No quotidiano, bastam pequenas frases como “vi o quanto te esforçaste”, “gostei da tua atitude”, “estou feliz por ti”, para mudar atmosferas emocionais, aliviar tensões e aproximar pessoas.
E um acto de cuidado
Elogiar é, portanto, um acto de cuidado. É olhar para o outro com atenção, em vez de indiferença; com empatia, em vez de crítica automática; e com generosidade, em vez de competição. Promover o elogio é reconhecer a humanidade como um projecto colectivo. É construir escolas mais motivadoras, ambientes de trabalho mais saudáveis, famílias mais afectuosas e indivíduos mais seguros de si.
Enfim, elogia-se pouco porque a crítica é culturalmente privilegiada, porque o elogio é mal interpretado e porque a vulnerabilidade emocional é evitada. Contudo, os exemplos concretos e o conhecimento acumulado mostram que o elogio possui um impacto profundo e irrefutável no desenvolvimento emocional, social e humano.
E, no final, quanto mais elogiamos com sinceridade, mais contribuímos para a construção de uma sociedade em que o reconhecimento não é excepção, mas parte essencial da vida, uma sociedade onde as pessoas florescem porque são vistas, respeitadas e celebradas.
Este artigo foi publicado na edição de Janeiro (nº. 181) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.