Portugal pode criar três campeões globais de deep tech até 2030. Mas há bloqueios estruturais

Portugal já reúne ciência, empresas e infraestruturas capazes de sustentar um ecossistema deep tech competitivo. O desafio reside em transformar este potencial em empresas de escala global e assegurar que o valor criado permanece no país. Se isto acontecer pode criar dois ou três campeões globais de deep tech até 2030.

Margarida Lopes
9 de Setembro 2026 | 11:50
Portugal pode criar três campeões globais de deep tech até 2030. Mas há bloqueios estruturais

Os dados são do “Deep Tech Portugal Outlook 2026”, apresentado pela Porto Business School.

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O estudo identifica quatro bloqueios estruturais: falta de capital de crescimento depois da Série A; transferência de tecnologia ainda lenta; escassez de talento STEM; e reduzida utilização das compras públicas como primeiro mercado para soluções portuguesas. Sem uma resposta coordenada, continuar-se-á a criar conhecimento e empresas que acabam por escalar com sede, propriedade intelectual ou capacidade de decisão fora de Portugal.

Em 2025, o financiamento ligado a deep tech em Portugal rondou os 400 milhões de euros, cerca de três vezes o valor de 2018, mas ainda cerca de 2% do capital investido na Europa. No mesmo ano, o mercado europeu mobilizou 20,3 mil milhões de dólares e os Estados Unidos 144 mil milhões. Para Portugal, a resposta não está em replicar o volume dos grandes mercados, mas em concentrar recursos onde ciência, indústria, geografia e procura europeia se cruzam.

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Empresas como Tekever, Sword Health, Feedzai, Critical Manufacturing e Neuraspace mostram que Portugal consegue criar tecnologia com projecção internacional. O desafio surge sobretudo a partir da Série A, quando o capital nacional se torna escasso e aumenta o risco de venda precoce ou de deslocação da sede, da propriedade intelectual e do centro de decisão.

Para José Esteves, dean da Porto Business School: «Portugal não precisa de competir em todas as frentes. Precisa de escolher onde tem activos reais e aí concentrar capital, talento e procura. O objectivo não é apenas criar tecnologia; é manter no país as empresas, a propriedade intelectual e a capacidade de decisão».

A publicação foi desenvolvida por José Esteves, dean da Porto Business School, Diogo Almeida Alves, director do Center for Entrepreneurship, Growth & Competitiveness, e Diogo Vieira da Silva, Head of Innovation X Hub.

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Seis nichos onde Portugal pode ganhar escala
O “Deep Tech Portugal Outlook 2026” destaca seis áreas, que se sobrepõem e a partir das quais Portugal pode ganhar escala, com base em cinco critérios: capacidade científica, procura europeia, vantagem portuguesa, relevância para a soberania e possibilidade de atingir escala num horizonte de até dez anos, nomeadamente: Espaço e Atlântico; Defesa e tecnologias de duplo uso; Inteligência artificial e tecnologias da linguagem; Semicondutores, fotónica e nanotecnologia; Saúde, biotecnologia e medtech; Economia azul, energia e tecnologias verdes.

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Talento: qualidade reconhecida, volume insuficiente
A qualidade da engenharia portuguesa é reconhecida, mas o número de profissionais disponíveis já não acompanha a procura. Cerca de 84% dos empregadores reportam dificuldades em encontrar talento, o terceiro valor mais elevado do mundo, e os doutoramentos em tecnologias de informação e comunicação representam apenas 2,2% do total, menos de metade da meta europeia.

«Mais conhecimento contribui para gerar mais potencial de conversão de impacto em competitividade. O nosso desafio enquanto país é transformar os activos científicos que temos numa vantagem económica duradoura, construindo a capacidade de converter inovação em mais empresas globais através de um conjunto de pilares essenciais: o talento, a engenharia, a propriedade intelectual e o capital», sublinha Diogo Almeida Alves.

 

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Seis decisões para os próximos 12 a 24 meses
Mais do que um diagnóstico, o “Deep Tech Portugal Outlook 2026” da Porto Business School propõe um roteiro de execução para os próximos 12 a 24 meses, com responsáveis, marcos e indicadores públicos:

  1. Lançar um veículo nacional de financiamento de scale-ups, com o Banco Português de Fomento e investidores institucionais.
  2. Tornar o Estado “Cliente Zero” de tecnologia portuguesa, começando pela defesa, saúde e empresas públicas.
  3. Normalizar os modelos de propriedade intelectual e de spin-outs nas universidades e centros de investigação.
  4. Aumentar a capacidade nacional de captação de financiamento europeu.
  5. Publicar um painel anual que meça o que Portugal cria, retém e transfere: sedes, propriedade intelectual, emprego qualificado e capital.
  6. Expandir o pipeline STEM, com mais vagas, doutoramentos em TIC e políticas de atração e retenção de talento tecnológico.

 

Se estas decisões avançarem, o “Deep Tech Portugal Outlook 2026” estima que Portugal pode criar dois ou três campeões globais de deep tech até 2030. Serão empresas que, além de ganhar escala, mantêm a sede em Portugal, a propriedade intelectual e a capacidade de decisão, gerando emprego qualificado e reinvestimento.

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