Portugueses de Sucesso. António Trincão conta como está a conquistar Silicon Valley, o «paraíso dos empreendedores»

«Conectar o mundo através da celebração.» É este o propósito de António Trincão, que levou à criação da Youcan. A ideia materializou-se em empresa na Startup Lisboa e, pouco mais de um ano depois, com um investimento de 25 mil dólares de uma aceleradora norte-americana, foi para Silicon Valley, para conquistar o «paraíso dos empreendedores».

 

Por Ana Leonor Martins

 

Começou a trabalhar na indústria dos eventos aos 15 anos, mas foi na faculdade que António Trincão descobriu o seu verdadeiro propósito. Não por causa do curso – Negócios Internacionais –, mas sim por ter feito parte da tuna, como músico e director de espectáculos e patrocínios. Foi com a Azeituna que percebeu o que queria fazer – criar uma experiência de evento disruptiva, recorrendo à tecnologia, nomeadamente à realidade virtual. Aos 23 anos (2015) criou a Youcan, que nasceu em Portugal, mas é em Silicon Valley que está a crescer desde 2017. Depois de “bater a muitas portas”, António Trincão sente agora que finalmente ganhou relevância e respeito no meio, já não sendo visto como um “empreendedor turista”. O objectivo está traçado: tornar a Youcan uma “hundred billion dollar company”.

 

Estudou Negócios Internacionais, mas sempre se interessou mais por música e organização de espectáculos. Quando descobriu o que queria fazer, a sua paixão?
Comecei a trabalhar na indústria dos eventos mais ou menos com 15 anos, como bartending. Depois, quando ingressei na Universidade do Minho, juntei-me a um grupo musical, uma tuna, com mais de 30 anos de história – a Azeituna. Era um grupo sem fins lucrativos e começámos a organizar espectáculos. Chegámos a actuar para mais de 150 mil pessoas e a fazer três ou quatro espectáculos por semana. Até abrimos um concerto do Tony Carreira e, ao longo de cinco anos, fizemos tours por toda a Europa.

A ideia de criar uma startup surgiu de forma muito parecida. Silicon Valley tem um conceito parecido – ter uma visão e um propósito claros e a garra para lutar por isso. A Azeituna criou-me esse “músculo” e despertou algo em mim. Já tinha a paixão pelos eventos e pelo entretenimento, mas a tuna ajudou-me a perceber o meu propósito. E mostrou que se quiser sentir-me realizado, tem de ser a fazer algo que ame, estando disposto a lutar por isso e a “pagar o preço”, a fazer sacrifícios, se necessário.

Depois, como fui o director de espectáculos, organizei muitas tours, estive muito envolvido na parte de brand partnership e sponsorship, também me deu a componente de negócio.

 

Como é que esse propósito se concretizou na Youcan?
Tendo percebido o meu propósito com a Azeituna, decidi criar algo que fosse ao encontro disso. O propósito da Youcan é “Conectar o mundo através da celebração” e o nosso slogan é “Life is a celebration”. A ideia que esteve na sua base foi criar uma plataforma onde as pessoas pudessem organizar eventos, promover uma experiência, encontrando lá tudo o que necessitam para o concretizar. Foi essa a ideia inicial, antes da COVID-19.

 

E como é que da ideia passou à prática?
Quando era director de espectáculos e organizador de eventos e precisava de encontrar mobiliário, espaços, catering, decoração, etc., era sempre muito difícil, por isso quis criar um marketplace que agregasse todos esses serviços. Identificámos essa oportunidade no mercado e passámos à prática mais ou menos em Setembro de 2015. O João Vasconcelos aceitou-nos na Startup Lisboa e foi lá que abrimos o primeiro escritório, lançámos a Youcan e recebemos os primeiros clientes: a Mary Kay e a Microsoft.

 

Quais foram os principais obstáculos que encontraram à materialização da ideia?
O mais difícil é a mudança de comportamento. Aquilo a que nos propúnhamos não era criar mais uma plataforma online, mas promover um novo tipo de comportamento no mercado, ser disruptivos.

Assim como o Airbnb punha fotos excelentes para atrair clientes, a nossa ideia era que se pudesse visualizar o evento antes de ele acontecer, bastando abrir um link e ver os móveis e a decoração. Fizemos isso, por exemplo, com a NASA. Isto implicou agregar todos os fornecedores numa plataforma única, o que exigiu um grande esforço de recolha de informação, fotografias, descrições, etc.

Para além de mudar o comportamento de compra neste âmbito, o outro grande desafio foi fazer com que se entendesse o serviço que se estava a comprar. Começaram na Startup Lisboa, mas hoje estão em Silicon Valley. Porquê? Portugal não tinha as oportunidades que procuravam? Claramente que não. O nosso mercado é a indústria dos eventos, que, no panorama mundial, origina uma receita de 1,7 triliões de dólares, sendo que os EUA se concentra cerca de 400 mil milhões de dólares, o que representa 40% do volume das receitas mundiais geradas por esta indústria. A capacidade de gerar receita é incomparavelmente maior.

O nosso objectivo sempre foi ir para os EUA, fizemos muitos estudos, pesquisas porque sabíamos que o mercado americano era o mercado certo para estar. A Startup Lisboa foi um berço para entendermos o que é ser empreendedor, para nos preparar para o nosso objectivo.

Quando, em Janeiro de 2017, fizemos a candidatura a uma aceleradora que se chama Blue Startups – fundada por Henk Rogers, um dos fundadores do jogo Tétris online, e que está presente no Hawaii e em São Francisco – recebemos 25 mil dólares de investimento. Fomos para Silicon Valley, abrimos a empresa e nunca mais voltámos a Portugal.

 

O que encontrou foi o que estava à espera?
É muito diferente da realidade portuguesa? Bastante. É das coisas que mais refiro em entrevistas: não estamos preparados para jogar no mercado americano. É algo que gostaria de destacar porque acho muito importante. Portugal deveria ter um plano estratégico para este mercado. Os portugueses cresceram a ver filmes de Hollywood, a ouvir música americana, a consumir tudo o que produzem. Se há mercado que percebemos bem, é o americano. Duvido que países como Espanha ou França o conheçam tão bem.

Quando se chega aos EUA leva-se uma chapada de cultura financeira e de conceitos de negócio. O que é income share, fazer um plano de stock options, ou até coisas mais básicas como ser claro nas reuniões, evitar emails longos, saber fazer storytelling. Os portugueses são muito bons criadores, artesãos, mas muito maus em vendas.

Quando cá cheguei, vinha com uma ideia de um país em que toda a gente é acessível e encontrei uma enorme agressividade do mercado e do todo o ecossistema empresarial. Não estava preparado. É fundamental saber lidar com os “não”. Se tivéssemos um plano estratégico em Portugal, que formasse e preparasse empreendedores ou business people, não só para operar no mercado nacional, mas também no mercado americano e que criasse uma espécie de tratado comercial, podiam surgir muitas oportunidades.

 

Leia a entrevista na íntegra na edição de Janeiro (nº.121) da Human Resources, nas bancas.

Caso prefira comprar online, pode comprar a versão em papel ou a versão digital.

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