Produtividade versus Competitividade: uma solução para eliminar a Pobreza?

Por António Saraiva, Business Development Manager na ISQ Academy

 

Em 2020 da população residente em Portugal, 19.8% encontrava-se  em risco de pobreza ou exclusão social. Felizmente uma ligeira quebra relativamente a 2019 (21.6%).

Mas não deixam de ser números preocupantes. Se os aliarmos a outros indicadores de estudos também recentes, verificamos que a maioria das pessoas nesta situação trabalha – apenas 13% são desempregados, os restantes trabalham, ou estão reformados ou são trabalhadores precários. E dos que trabalham, que são a maioria, têm vínculo laboral sem termo e auferem pelo menos o salário mínimo.

E podemos acrescentar, com a situação pandémica, que o risco de pobreza, ganha maiores contornos nas classes baixa e média-baixa, na região do Algarve e quem tem escolaridade até ao 9º ano. Estima-se que a pobreza ao longo do último ano possa ter aumentado em cerca de 25%, mesmo com as medidas que foram tomadas para atenuar o impacto da pandemia.

Que conclusões se podem retirar de todas estas estatísticas oficiais ou de estudos específicos sobre esta realidade? Inevitavelmente a pandemia tem o seu reflexo, mas também o nível de salários que são praticados em Portugal. Exemplifiquemos: em 2019 o rendimento médio anual líquido por adulto era de 12 600 €. Se analisarmos o top 10 da União Europeia comparamos mal com uma Dinamarca (cerca de 48 mil euros) e mesmo com o limiar inferior deste top 10 – a França (31 600 euros). E certamente não desejamos estar satisfeitos porque uma Bulgária tem 5 300 €.

A justificação aparece por via de dois conceitos: produtividade versus competitividade. Algumas análises afirmam que “com produtividade reduzida, a fórmula encontrada para se ser competitivo reside na manutenção de salários baixos”. E esta é uma discussão permanente, algo redonda, mas que acontece por não se assumirem verdadeiros compromissos de mudança.

O óbvio vem sempre à tona: produzir mais e melhor. Como? Também as mesmas respostas: novas tecnologias, modelos de gestão modernos com nova organização do trabalho, maior Valor Acrescentado na oferta e aposta na diversificação de mercados. Será injusto não relevarmos que muito se tem feito nos últimos tempos sobre estas temáticas, com investimentos consideráveis e até com suporte do próprio Estado e da União Europeia.

Então porque se atingem limiares de risco de pobreza tão elevados, e não se verificam impactos positivos e relevantes na vida das Pessoas? Sem dúvida que tem de existir vontade política que efetue o “empurrão” definitivo para a mudança. Não exclusivamente do Estado, mas também do tecido empresarial, devidamente planeada e estruturada. Existem já na sociedade portuguesa organizações relevantes que podem dar o seu contributo. Estudos não faltam e boas práticas também não.

Sem dúvida que respostas sociais são relevantes em situações de maior emergência, mas igualmente uma aposta forte na Educação, ajustada à realidade, reforço na cooperação e partilha e na mobilização de recursos e, acima de tudo, reverem-se os modelos de gestão e estruturarem-se políticas mais equilibradas de compensação e benefícios.

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