Numa cultura de positividade tóxica, pode ser particularmente mau quando se acorda e não se está a sentir totalmente feliz. Isto provavelmente piora quando abre o Instagram ou o Facebook e só vê amigos sorridentes em férias ou em festas. É fácil sentir que simplesmente deve estar feliz, mas os especialistas dizem que a situação é mais do que isso — e provavelmente existem alguns comportamentos e crenças que o impedem de se sentir o melhor possível.
Profissionais de saúde mental partilham com o HuffPost os padrões de pensamento, os comportamentos limitadores e as crenças que mais afectam a felicidade e sentido de realização, e deixam os melhores conselhos para combater a negatividade.
Vergonha, culpa e preocupação
«Acredito que a vergonha, a culpa e a preocupação são os disruptores mais comuns da felicidade, pelo que vejo quando trabalho com pessoas», diz Tamika Lewis, diretcora clínica e fundadora da WOC Therapy na Califórnia.
Quando vivencia um destes sentimentos, está a manter-se refém de experiências de vidas passadas ou a preocupar-se com o futuro, explica. «Portanto, não estamos no momento presente, e isso atrapalha a satisfação e alegria.»
Praticar a autocompaixão é uma forma de combater estes sentimentos, observa Lewis. E acrescenta que também é importante ser gracioso consigo mesmo e praticar a atenção plena para permanecer no momento presente.
Lewis contou que fala muito com os seus pacientes sobre a prática havaiana do “ho’oponopono”. «São quatro frases que dizem simplesmente: ‘Desculpa, por favor, perdoa-me, obrigada, amo-te’», explicou. Lewis incentiva as pessoas a fecharem os olhos e a recitarem este mantra quatro vezes. «Abrange realmente todas estas áreas: a culpa, a vergonha, tudo isso. E depois, o amor como um lembrete do amor-próprio, e às vezes, também pode ajudar fazê-lo em frente ao espelho», explica Lewis.
E acrescenta que a gratidão é outra forma de ajudar a combater os sentimentos de vergonha, culpa e preocupação. «É um cliché, mas acho que se conseguirmos manter o foco nas coisas pelas quais estamos gratos… Por isso, se tendemos a ser críticos em relação aos nossos corpos ou ao nosso desempenho, agradecer apenas pelas formas como os nossos corpos nos sustentam ou pelas formas como nos apresentamos pode ser uma solução rápida.»
Não tomar medidas na sua vida
Alguns dos terapeutas dizem que muitos dos seus pacientes muitas vezes não procuram as actividades, decisões ou paixões que os fazem felizes. Como permanecer num relacionamento insatisfatório por exemplo ou evitar uma mudança de emprego porque está confortável.
«Algumas pessoas ficam presas nestes ciclos de ideias fixas. E é isso que as impede de realmente agir», observa Sadaf Siddiqi, psicoterapeuta e consultor de saúde mental em Nova Iorque. A procrastinação pode estar aqui latente, ou até o medo e a ansiedade, «mas para outras pessoas, é uma forma de desviar o comportamento, no sentido em que estão excessivamente focadas noutra pessoa e não estão em sintonia com o que precisam de fazer.»
«Não tomar nenhuma atitude na vida às vezes também está ligado à falta de uma ligação forte consigo mesmo, por isso talvez estes sejam dois ramos… da felicidade», afirma Siddiqi.
Tomar medidas para viver uma vida mais feliz tem de ser intencional. Numa sociedade que produz em excesso e está sempre em movimento, por vezes a acção pode, na verdade, ser um passo atrás, esclarece. Agir precisa de ser relevante para o que está a acontecer na sua vida — como os seus objectivos e aspirações.
Fazê-lo pode parecer assustador para muitas pessoas por causa do risco envolvido. Depois é importante compreender que «não importa a trajectória que se tome, cometerá erros; isso é algo inegociável no seu caminho».
«Portanto, se está sempre a evitar agir porque tem medo de errar, isso vai ser realmente uma paralisia — quase uma paralisia de decisão, uma paralisia de acção», explica Siddiqi.
Quando se trata de agir, Siddiqi conta que pede aos seus pacientes para darem micropassos, o que pode não parecer tão excitante como grandes passos porque não há gratificação imediata, mas a mudança geralmente vem de pequenas mudanças.
Comparar-se com os outros
De acordo com Stephanie Dahlberg, assistente social clínica independente licenciada na Thriveworks em New Hampshire, o pensamento comparativo é outro comportamento que prejudica a sua felicidade.
«O pensamento comparativo é o que se pensa quando se está a navegar pelas redes sociais e se vê uma pessoa que parece ter tudo… as suas vidas nas pequenas fotos e publicações são simplesmente incríveis», diz Dahlberg.
Mesmo que não esteja realmente a dizer ou a pensar “Eu quero isto” ou “Eu queria ter isto”, apenas ver uma situação diferente pode fazer com que se compare naturalmente às pessoas que segue nas redes sociais, observa.
«A nossa cultura e a nossa sociedade estão estruturadas desta forma, infelizmente. Às vezes, isso pode ser bom, mantém as coisas competitivas e faz-nos aprender e crescer, esforçando-nos sempre para sermos melhores, mas às vezes a nossa cultura e sociedade vão longe demais, em que se está constantemente a comparar com todos os outros ou a comparar o que se tem com o que outra pessoa tem ou não tem.»
Para deixar de se comparar tanto com os outros, Dahlberg sugere limitar o seu tempo nas redes sociais. Em vez de abrir o Instagram ou o Facebook assim que acordar, abra a aplicação Notas e escreva cinco coisas pelas quais está grato. «Começar o dia com gratidão pode ser uma óptima maneira de enquadrar o seu dia de forma positiva e fazer com que as endorfinas fluam e experiencie mais destes sentimentos felizes», disse Dahlberg.
Além disso, tente lembrar-se de que o que vê nas redes sociais não são a imagem completa. «Pode ser muito difícil ficar satisfeito com a sua vida quando se compara com outras pessoas que estão realmente a mostrar o melhor das suas vidas», afirma Shavonne Moore-Lobban, psicóloga em Washington, DC, e autora do livro “The Black Woman’s Guide to Overcoming Domestic Violence”. «Muitas vezes não temos muito acesso aos momentos mais desafiantes das pessoas, ao fluxo natural dos altos e baixos.»
Moore-Lobban observa que este tipo de vulnerabilidade muitas vezes não é aceite pela sociedade. Pense nas vezes em que achou que alguém estava a “partilhar demasiado” ou a “procurar atenção” quando partilhava informações que não eram positivas. «Penso que, desta forma não intencional, encorajamos as pessoas a apresentarem o melhor de si, a mostrarem os bons momentos e a serem optimistas.»
Expressão “Devia”
«Outra coisa que caminha ao lado do pensamento comparativo são as expectativas, ou seja a forma como a sua vida deveria ser», declara Dahlberg.
Estas expressões podem ser tão pequenas como “devia ter lavado a roupa hoje” ou, mais frequentemente, nebulosas, como “devia estar mais adiantado na minha carreira agora” ou “devia sentir-me mais realizado”.
Ao pensar em afirmações do tipo “devia”, Dahlberg reparou que está a deixar o momento presente. «Se puder, tente concentrar-se em estar realmente presente onde está, observando o que está à sua volta, o que está mesmo à sua frente no momento, e tentar descobrir o que pode apreciar nisso, mesmo numa circunstância realmente difícil.» Pode ajudá-lo a sentir-se mais leve e feliz.
Não ter uma ligação forte consigo mesmo
De acordo com Siddiqi, quando se trata de adultos, a falta de uma ligação forte consigo mesmo prejudica a sua felicidade. «Isto pode parecer uma externalização do seu valor, um desconhecimento dos seus próprios valores, das suas próprias limitações, dos seus próprios pontos fortes.»
Se é alguém que externaliza o seu próprio valor, os sentimentos sobre si mesmo vêm das opiniões de outras pessoas e da sociedade como um todo. Além disso, se não conhece os seus próprios valores, limitações e pontos fortes, terá dificuldade em determinar as coisas que o fazem sentir-se realizado — ou, pelo contrário, vazio.
É importante compreender-se a si mesmo, o que inclui aceitar as suas falhas, alerta. «Isto não significa que deva ignorar as suas limitações, mas sim a forma como as aborda.»
E quando tem uma ligação mais forte consigo mesmo, pode aprender o que precisa para “encher o seu copo”, como estabelecer limites saudáveis. «Tudo começa com estas pequenas coisas. Conversas informais positivas, afirmação, fazer as coisas de forma independente, para que se sinta mais confiante para agir», aconselha Siddiqi.
Ignorar problemas mais profundos
Pode ser difícil ser honesto e vulnerável numa sociedade que encoraja a mentalidade do copo meio cheio. Mas quando reprime questões profundamente enraizadas, está, na verdade, a prejudicar a sua felicidade — e isto aplica-se especialmente aos traumas, defende Moore-Lobban.
«Sabemos que o trauma é muito prevalente na sociedade, de muitas formas diferentes. Seja o trauma que as pessoas experienciaram nas relações, na família e na infância, na vida adulta, trauma racial, xenofobia, etc.: todas as coisas da vida que são difíceis e que realmente sobrecarregam a nossa capacidade de lidar com um determinado momento permanecem connosco.»
Por mais difícil que seja, acredita que é importante desfazer o trauma para alcançar a alegria que se merece na vida. «[Temos de] analisar o que aconteceu por baixo se quisermos realmente encontrar um lugar para a cura. Acredito que ser capaz de explorar e compreender as experiências que as pessoas tiveram na vida, mesmo quando são desafiantes e negativas, faz parte do caminho para a felicidade.»
Se não encontrar uma forma de abordar e ser honesto sobre os desafios da sua vida, não estará a ser autêntico consigo mesmo, «o que não é justo consigo mesmo e não ajudará na sua felicidade ou na sua cura», alerta Moore-Lobban.
Além disso, Siddiqi acredita que «é difícil para as pessoas sentirem-se felizes por causa de problemas de saúde mental subjacentes que biologicamente as impedem de sentir alegria — coisas como depressão e perturbações de humor».
Nestes casos, podem ser necessária intervenção adicional, tal como mudanças no estilo de vida, gestão da medicação ou apoio de um terapeuta.
Isolamento
O isolamento é uma grande fonte de infelicidade e até de depressão, segundo Lewis. «Estamos conectados nas redes sociais, mas é importante pensarmos com quem nos estamos a conectar no dia-a-dia.»
Segundo Lewis, está a tornar-se muito comum passar dias sem se ligar aos entes queridos ou à comunidade, e isso pode levar a sentimentos de solidão e fazer com que se sinta isolado. «Estamos todos interligados. Estamos todos juntos nisto», enfatiza Lewis. Para não se sentir isolado, telefone aos seus familiares, convide um amigo ou vizinho para beber um café ou combine com um colega de trabalho jantar fora de horas.
Como captar mais alegria na sua vida quotidiana
O primeiro passo é criar uma intenção. «Quando acordamos, a maioria das pessoas pensa na sua extensa lista de tarefas. Gosto de pensar em como me quero sentir hoje — sabes que isso faz com que o dia comece de uma forma diferente», aconselha Lewis. «Pode ser um pouco sombrio, mas também penso “e se este fosse o meu último dia? Como quero viver esta vida? E tento lembrar-me disso e fazer escolhas a partir daí.»
Assim, se Lewis não quer ficar deprimida ou não quer guardar rancor, garante que as suas acções reflectem isso ao longo do dia. «Sei que há traumas mais profundos pelos quais todos provavelmente estamos a passar, mas a única coisa que podemos controlar é o momento que temos pela frente.»
Além disso, tente não fazer da “felicidade” o resultado. «Para os meus pacientes jovens adultos, uma coisa que sempre encorajo a lembrar é que deve evitar pensar na felicidade como um objectivo ou o seu resultado», conta Siddiqi.
«Eles dizem sempre “Só quero ser feliz”, e depois pergunto “Como é a felicidade para si?” e respondem: “Quero casar”, “Quero entrar neste programa de pós-graduação”, “Quero perder 5 quilos”, e há todos estes objectivos concretos. … Muitos deles descobrem que, quando [alcançam os seus objectivos], ainda há muitos problemas na vida, ainda há questões, não alcançaram essa ‘felicidade’», conta Siddiqi.
Em vez de encarar a felicidade como um destino, pense nela como as escolhas ao longo do caminho, observa. «Parte de abraçar e estar aberto à felicidade é aceitar os altos e baixos.» Incentiva as pessoas a lembrarem-se que, mesmo nos momentos mais difíceis, é preciso estar aberto a encontrar coisas boas, e mesmo nos momentos mais altos, é preciso estar firme o suficiente para se lembrarem que tudo é temporário e que os fluxos da vida são normais.
«Não é um objectivo, não é um resultado ao qual precise de associar a minha felicidade», diz. Porque, se o fizer, estará sempre à procura de um momento fugaz.
Lewis acrescenta que, para além da felicidade, deve lutar por uma vida cheia de alegria e realização. «Há muita positividade tóxica em torno de “só quero que sejas feliz”.» Segundo Lewis, a felicidade parece diferente para pessoas diferentes, o que pode colocar pressão sobre o termo “felicidade”. É muito mais fácil decifrar se se sente alegre e realizado na vida.














