Quase metade das mulheres em Portugal já sofreu algum tipo de violência (e também acontece em contexto laboral)

Margarida Lopes
23 de Novembro 2025 | 19:30

Quase metade da população portuguesa já foi vítima de algum tipo de violência ao longo da vida, com particular incidência nas mulheres, as principais vítimas de violência sexual, na intimidade ou de assédio.

Os dados constam de uma nota complementar ao relatório “Portugal, Balanço Social 2025”, elaborado pela Fundação ”la Caixa”, o BPI universidade Nova SBE, sobre “Género e violência em Portugal: Um Retrato da Desigualdade” da da autoria de Susana Peralta, Bruno P. Carvalho, João Fanha e Miguel Fonseca, do Nova SBE Economics for Policy Knowledge Center.

De acordo com o relatório, 46,8% das mulheres portuguesas já foram vítimas de algum tipo de violência ao longo da vida (42,6% para os homens). A violência na intimidade é mais frequente entre as mulheres, atingindo 22,5%, enquanto entre os homens é de 17,1%. A violência física e/ou sexual é experienciada por ambos os sexos, mas com maior gravidade e repetição entre as mulheres; 19,7% das mulheres foram vítimas, e em mais de metade dos casos os episódios repetiram-se ao longo do tempo.

A violência sexual afecta desproporcionalmente as mulheres, com 6,4% das mulheres e 2,2% dos homens a declararem ter sido vítimas. Já a violência psicológica é a forma de abuso mais comum, afectando 21,8% das mulheres e 16,8% dos homens.

O relatório evidencia que a severidade da violência é mais elevada entre as mulheres: 62,7% reportam danos físicos e 19,3% referem limitações nas atividades diárias em consequência das agressões. Entre os homens, esses valores são inferiores, o que reforça a desigualdade no impacto e nas consequências da violência.

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Apesar da magnitude do fenómeno, o reporte da violência permanece limitado. Apenas 65,3% das vítimas comunicaram o sucedido, sendo que mais de 60% recorreram apenas a familiares ou amigos e cerca de 20% às autoridades. A maioria das mulheres reconhece a existência de linhas telefónicas de ajuda de associações não governamentais (84,8%), casas de abrigo (88,9%) e apoio jurídico gratuito (63,9%); para os homens, as percentagens são similares, mas ligeiramente mais baixas. Ainda assim, a prevalência de conhecimento destes diversos apoios contrasta com os baixos níveis de reporte observados em Portugal.

As diferenças de género também se manifestam nas perceções de segurança. Apenas 77,1% das mulheres afirmam sentir-se seguras quando andam sozinhas na rua à noite, em contraste com 89,5% dos homens. Além disso, 44% das mulheres consideram que a violência exercida por maridos ou companheiros contra mulheres é muito comum, enquanto apenas 25% dos homens partilham essa percepção.

Por outro lado, apenas 10,5% das mulheres e 6,9% dos homens reconhecem a violência contra os homens por parte das mulheres ou companheiras como um fenómeno muito comum. Os dados demonstram que, embora a consciência sobre a violência contra as mulheres seja elevada, a vitimização masculina tende a ser subestimada.

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A violência de género também se reflecte nos contextos laborais. Em Portugal, 23,8% das mulheres afirmam ter sido vítimas de assédio persistente e 12,3% declaram ter sofrido assédio sexual no trabalho. Entre os homens, esses valores são de 17,3% e 5,2%, respectivamente. Mais de metade das mulheres vítimas de assédio sexual no trabalho descrevem episódios repetidos ao longo do tempo.

No quadro europeu, Portugal apresenta níveis de prevalência de violência mais baixos do que a média da União Europeia. Em Portugal, cerca de 22,5% das mulheres foram vítimas de violência em contexto de intimidade (31,8% na UE27) e 19,7% foram vítimas de violência física e/ou sexual (30,7% na UE27).

Contudo, em Portugal, a taxa de denúncia é inferior à da UE27 (65,3% vs. 68,2%), entre as mulheres vítimas de violência física e/ou sexual. Os dados sugerem que o estigma social e a desconfiança institucional continuam a ser obstáculos à denúncia e à protecção eficaz das vítimas.

Conclui-se que os progressos alcançados na igualdade formal entre homens e mulheres não eliminam as desigualdades substanciais que persistem no quotidiano. A violência de género é simultaneamente uma causa e uma consequência dessas desigualdades e exige uma resposta pública articulada, que combine educação, prevenção, apoio social e justiça.

A análise, que tem por base estatísticas do Inquérito sobre Segurança no Espaço Público e Privado de 2022, do Instituto Nacional de Estatística (INE), e dos inquéritos europeus sobre violência de género, dá conta de que quase metade da população portuguesa já sofreu algum tipo de violência em algum período da vida, afetando 46,8% das mulheres e 42,6% dos homens.

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